Opinião: as análises de China em América Latina são exageradas

Imagen: PCM Perú

Opinião: as análises de China em América Latina são exageradas

A busca do diferente e único sobre os investimentos chineses na América Latina ocupa grande parte do tempo daqueles que estudamos estas relações. Algumas análises tendem a um exagero otimista, considerando a China como um grande benfeitor, disposto a estabelecer relações simétricas e oferecer oportunidades de desenvolvimento a qualquer país disposto a abrir suas portas a uma onda de financiamentos. Em outros casos, com mais frequência, as conclusões adquirem um tom sombrio e expõe a China como um gigante a temer, que deixa atrás de si devastação social e ambiental, fere direitos elementares e se apropria dos recursos das nações frágeis.

Ambas as perspectivas pecam por hipérbole.

Apesar de características únicas que se referem à sua estrutura proprietária, que são as fontes de aporte e desenvolvimento empresarial, as empresas chinesas na América Latina não são especialmente singulares em nível local. Ainda assim, em que pese a não transformar qualitativamente as relações entre sociedade, meio ambiente e extrativismo e, portanto, assemelhar-se em grande parte a outras empresas do setor, é possível encontrar diferenças importantes entre investidores chineses.

Existem vários atores e fatores que devem ser levados em conta para entender os investimentos extrativos chineses na região e o seu papel, a partir de uma perspectiva social e ambiental. Em primeiro lugar, podemos diferenciar entre atores que sofrem impacto direto ou indireto. Entre aqueles com uma influência indireta, estão os bancos políticos chineses, que negociaram empréstimos no valor de US$140 bilhões de dólares na região (segundo Gallagher e Myers).

Estes créditos serão, em sua maior parte, resgatados pelos recursos naturais ou, pelo menos, garantidos pelas matérias primas, o que aumenta o imperativo extrativista na América Latina. Os bancos estatais chineses também incentivaram o capital chinês na região, com créditos moderados e, nos últimos anos, incorporaram normas sociais e ambientais, mesmo com uma capacidade supervisora muito limitada.

Enfocando os impactos diretos, vamos analisar projetos extrativos concretos. É necessário ressaltar o poderio econômico chinês, mas, ao mesmo tempo, relativizá-lo e rememorar como, por exemplo, na mineração, a atividade financiadora canadense na região está ainda muito à frente da chinesa. Em qualquer lugar os grandes volumes de subvenção, a partir da crise financeira global de 2008, apontam a China como uma potência de grande relevância para a região.

As empresas chinesas que operam na América Latina destacam-se por sua diversidade: de propriedade estatal, em nível de governo central, como Chinalco; de propriedade estatal parcial em nível municipal, como Zijin; ou de propriedade privada, como Nanjinzhao, só para citar alguns exemplos. Mesmo que todas elas operem sob uma lógica de benefício econômico, algumas empresas estatais do governo central preocupam-se também com a repercussão de suas atividades na imagem do país e seus interesses diplomáticos.

No entanto, a distinção mais importante tem a ver com as subsidiárias e com os colaboradores locais. Existem dois fatores primordiais. Em primeiro lugar, a filosofia da subsidiária local. Em países como o Peru, as empresas chinesas herdaram, além das estruturas empresariais, o pessoal das companhias adquiridas, o que significa que a mentalidade local reflete comportamentos anteriores.

Em alguns casos, pode levar a reduções de custos que refletem o modus operandi das companhias juniores, com pouca preocupação com a temática social e ambiental. Em outros casos, leva as companhias chinesas a desenvolver relações cordiais com as populações locais, através de programas de responsabilidade corporativa e investimento em comunicação, mesmo que, como nos casos de outras companhias multinacionais, os impactos destas estratégias sejam limitados, já que o principal objetivo é potencializar os benefícios econômicos, com um rápido aceleramento dos projetos.

Em segundo lugar, o contexto geográfico é também essencial. Projetos em fase de produção, ou novos projetos, localizados em regiões com tradição extrativista, passavam despercebidos, enquanto aqueles que tentam abrir caminho em regiões de economia principalmente agrícola se deparam com maior oposição e seus impactos tendem a ser mais problemáticos, devido à dependência das economias locais dos recursos aquíferos.

Por sua vez, e sem dúvida alguma, o peso dos conteúdos ambientais nas agendas de desenvolvimento nacional, a capacidade e a vontade supervisora e punitiva do estado receptor têm um papel fundamental. Curiosamente, dadas às demandas de desenvolvimento econômico e as poucas alternativas competitivas no contexto latino-americano, encontramos governos com comportamentos políticos completamente opostos (Equador e Peru, ou Venezuela e Brasil atual), que apoiam igualmente a expansão da mineração, até enfrentando  críticas de grupos ecologistas ou de organizações indígenas. Isso indica que, além da capacidade governamental, há uma vontade generalizada de apoio ao extrativismo que pode comprometer as prioridades sociais e ambientais.

Finalmente, a sociedade civil é vital para controlar e resistir aos impactos negativos do extrativismo, fazendo com que grande quantidade de projetos seja paralisada, em função de sua mobilização social. Os conflitos sociais se dividem entre aqueles de temática trabalhista e aqueles de conteúdo territorial e ambiental. Estes últimos foram responsáveis pelo atraso ou paralisação de diversos projetos.

Por outro lado, a débil sociedade civil chinesa, em poucos casos, pode exercer pressão sobre empresas registradas em seu país para exigir que melhorem seu comportamento no estrangeiro, pois esta é uma estratégia que, mesmo não sendo sempre efetiva, é viável em países democráticos, cujas ONGs monitoram as atividades das empresas nacionais e, inclusive, colaboram com as populações afetadas na região.

Para concluir, vale ressaltar que as empresas chinesas na América Latina operam dentro de uma lógica capitalista, em um contexto de globalização competitiva e, tanto nesse aspecto, como em seu comportamento em nível local, assemelham-se a outras multinacionais na região. É também importante salientar o alto grau de diversidade entre os investidores chineses, que deve ser estudado tendo em conta as diferentes dinâmicas locais.

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