As contradições climáticas da Venezuela

Fusca pintado com a bandeira da Venezuela, país que subsidia por US$ 12 bilhões por ano os combustíveis fósseis (imagem: Ruurno/ Flickr)

As contradições climáticas da Venezuela

Escassez de produtos básicos, inflação desenfreada e moeda desvalorizada estão sufocando a presidência de Nicolás Maduro, hoje em seu segundo ano de mandato na Venezuela.

A queda dos preços do petróleo tem paralisado a perfuração de poços e reduzido as receitas de exportação, que são cruciais para o país. Ainda assim, para o membro da OPEP com as maiores reservas comprovadas de petróleo, os combustíveis fósseis são tudo.

“O Cinturão de Orinoco é a vaca leiteira”, diz Russ Dallen, trader-chefe de títulos de dívida na Caracas Capital Markets, firma de consultoria financeira sediada em Miami, referindo-se à bacia que abriga 513 milhões de barris de petróleo bruto pesado. “Tirando o petróleo, o governo não tem outra fonte de renda”.

No país com o segundo setor energético mais sujo da América Latina, a luta contra as mudanças climáticas ocupa uma posição bem baixa na lista de prioridades.

Defensora da justiça climática

No entanto, a Venezuela tem ocupado um lugar de destaque nas negociações mediadas pela ONU em busca de um acordo global, já há vários anos.

De acordo com o país latino-americano, as nações ricas precisam assumir sua “responsabilidade histórica” como causadoras das mudanças climáticas. Em seus apelos por justiça climática, não economiza nas manifestações de desprezo aos Estados Unidos e ao Ocidente em geral. Os países desenvolvidos, por sua vez, veem na Venezuela uma sabotadora truculenta, trabalhando contra as discussões climáticas.

O reverenciado ex-líder venezuelano Hugo Chávez chegou a dizer que, se o clima fosse um banco, os países do Ocidente já o teriam socorrido.

Maduro tem acusado os países ricos de adotarem práticas exploradoras ao comercializarem a poluição, além de fazer duras críticas às operações americanas de fracking (extração de petróleo por fraturamento hidráulico), condenando a prática como destrutiva ao meio ambiente, em uma reunião de cúpula da ONU em 2014.

“Este cenário de capitalismo versus socialismo pintado pela Venezuela é uma enorme super simplificação do problema das mudanças climáticas”, disse Amanda Maxwell, diretora do programa latino-americano do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, em Washington.

“É admirável que eles defendam a justiça climática, mas se você acha que isto e justiça ambiental são coisas relacionadas, então os problemas ambientais que eles têm em casa contradizem fortemente sua retórica.”

Aproximação com parceiros na ONU

Depois da amarga conferência de Copenhagen, as relações entre a Venezuela e seus parceiros ocidentais têm melhorado, diz a negociadora-chefe venezuelana Claudia Salerno, que  ficou com a mão ensanguentada ao batê-la em uma mesa para pedir a palavra durante o evento em 2009.

Protestando sonoramente em meio a outros países em desenvolvimento, a Venezuela afirmou que alguns poucos países haviam se juntado para tecer um acordo. Com isto, impôs um tom amargo às discussões subsequentes, que deverão finalmente culminar em um acordo a ser assinado em dezembro deste ano, em Paris.

“A melhor coisa sobre [a conferência de] Paris é que ela colocará um ponto final no exaustivo processo de negociação que vem ocorrendo desde Copenhagen”, disse Salerno ao portal de notícias RTCC. “Agora, o mundo inteiro deseja isto.”

Mas as velhas tensões persistem.

Cerca de 200 países se preparam para apresentar seus compromissos com o corte da emissão de gases do efeito estufa. Não obstante, a Venezuela se recusará a apoiar qualquer acordo que faça ameaças aos países mais pobres por não cortarem as emissões o suficiente, disse Salerno.

Os mecanismos de mercado que permitem a comercialização de licenças para poluir são uma outra questão não-negociável para o país socialista.

Além disso, ele não acatará o prazo estabelecido pelo órgão de mudanças climáticas da ONU, que pediu que os países entregassem suas respectivas propostas de compromisso até outubro. A Venezuela quer avaliar os planos climáticos propostos por todos os países antes do encontro em Paris, para ver o quanto eles vão se ater a limitar o aquecimento global à meta internacionalmente aceita, de 2 graus centígrados.

“Não se pode excluir ninguém antes do evento somente porque a secretaria [da ONU] quer um website completo“, acrescentou Salerno.

Movida a petróleo

A obstinação da Venezuela se dá por conta da influência dominante do petróleo sobre sua economia, representando 95% de todas as receitas de exportação e um quarto da receita total do país.

Consumindo 800.000 barris diários de gasolina e diesel, os subsídios aos combustíveis fósseis totalizam US$ 12 bilhões ao ano. Com a gasolina sendo vendida no país a cerca de dez centavos de dólar por galão (cerca de 3,8 litros), as pessoas esbanjam em grandes e beberronas SUVs.

De acordo com o ministro venezuelano do petróleo, Rafael Ramirez, o custo da produção e distribuição de gasolina refinada para consumo em massa é de cerca de US$ 70 por barril. No último ano, os preços do petróleo despencaram 60%; o barril hoje é negociado a cerca de US$ 60, após atingir uma mínima de US$ 40.

De acordo com estimativas do FMI, a economia venezuelana deverá encolher 7% em 2015, mediante uma inflação anual de 96,8%.

“A Venezuela vê o programa climático global como uma ameaça a seus interesses nacionais”, disse Guy Edwards, do Laboratório de Clima e Desenvolvimento da Universidade Brown, ao portal RTCC.

Tirando algumas grandes usinas hidrelétricas, o país tem pouca intenção de adotar formas mais limpas de energia ou de cortar as exportações de petróleo que alimentam sua economia, acrescentou Edwards.

Rejeitada pelos mercados de capitais, a Venezuela alegadamente conseguiu captar um total de US$ 56 bilhões em investimentos chineses desde 2005. Para o país asiático, o atrativo não são os bolívars hoje negociados a 170 bolívars por dólar, comparado com 10 por dólar em 2012 –, mas sim a segurança energética, paga em petróleo.

Descarbonização

Hoje, há um movimento crescente por uma meta de longo prazo visando a descarbonização da economia global ainda neste século, lado a lado com a meta do aquecimento máximo limitado a 2 graus. Na prática, isto significaria o fim do uso de combustíveis fósseis.

Salerno esquivou-se do assunto, afirmando que as vastas florestas tropicais da Venezuela absorvem uma grande quantidade de gás carbônico.

De acordo com a negociadora, a Venezuela já foi “descarbonizada” por estes sumidouros de carbono e pelo “baixo” consumo de petróleo: sua participação nas emissões mundiais de carbono, de 0,5%, é “praticamente insignificante”.

A exportação de petróleo para os principais mercados, isto é, EUA e China, isentam o país de qualquer responsabilidade pela queima dos combustíveis sujos, disse ela.

Quase três quartos da energia elétrica gerada no país vem de hidrelétricas, ainda que os altos custos operacionais tenham levado ao sucateamento das usinas, tornando necessário importar geradoras térmicas a diesel para enfrentar os frequentes apagões, disse Dallen ao RTCC.

Não está prevista a construção de nenhuma grande hidrelétrica nos próximos dez anos, de acordo com o Atlas Mundial de Energia Hidrelétrica & Barragens. Além disso, as secas mais frequentes desencadeadas pelo aquecimento global prejudicam a confiabilidade do fluxo hídrico como fonte de energia.

Energia limpa

De acordo com Edwards, a Venezuela poderia trabalhar em conjunto com outros países latino americanos para o avanço da agenda climática global. O Uruguai pretende obter 95% de sua energia elétrica de fontes renováveis neste ano, enquanto Peru e Chile concentram seus esforços em energia solar e eólica.

A Venezuela dá pouca indicação de que irá juntar-se a este movimento.

Ao invés disso, o país tem sido alvo de críticas por rebaixar seu ministério do meio ambiente — o primeiro a ser criado na América Latina —, incorporando-o ao ministério da habitação, habitat e “ecossocialismo”.

Salerno insiste que a medida fortaleceu a agenda verde e que a transformação da matriz energética do país anda lado a lado com o “projeto chavista” de desenvolvimento das economias rurais.

“Esta interconectividade entre economia e ecologia não ocorre em nenhum outro país”, diz ela. “Estamos revolucionando a nossa forma de gerenciar a natureza”.

Petróleo ou mais petróleo

Na falta de projetos claros para o crescimento verde, todas as esferas da política venezuelana continuam a buscar a salvação econômica no petróleo.

Chavez estatizou os ativos das empresas Exxon Mobil e ConocoPhillips, entre outras empresas internacionais de petróleo. Chevron, Repsol e Eni se comprometeram a explorar a bacia do Orinoco, mas as empresas não demonstram nenhuma pressa em começar, por conta do ambiente desfavorável ao investimento.

popularidade de Maduro está caindo, o que poderá criar uma oportunidade para o líder de oposição centrista Henrique Capriles.

Mas uma mudança no topo provavelmente não diminuiria o entusiasmo pelo petróleo, disse Dallen. ”A ironia é que o retorno a um governo que respeite os direitos de propriedade e atraia investimentos levaria a um aumento na produção de petróleo”.

Salerno não demonstra qualquer remorso.

“O petróleo é uma das energias mais maravilhosas do mundo. Em 200 anos, ele será usado na medicina, na ciência, para ir à lua”, disse ela.

“Ele é precioso e deve ser preservado para fins gloriosos, não para fazer sacolinhas de supermercado.”

Este artigo foi originalmente publicado no portal  RTCC. Para visualizar o artigo original, clique aqui.

No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.