China agora é protagonista no setor elétrico brasileiro

A usina hidrelétrica Belo Monte e polêmica (imagem: Belo_Monte-206/ Flickr).

China agora é protagonista no setor elétrico brasileiro

No intervalo de 24 horas, a China ganhou protagonismo no cenário de energia elétrica brasileiro. A China Three Gorges (CTG) arrematou duas hidrelétricas que tiveram suas concessões relicitadas pelo governo federal e a hidrelétrica de Belo Monte recebeu a licença ambiental para entrar em operação, animando a chinesa State Grid que vai construir as linhas de transmissão da energia gerada ali no norte até a região sudeste do país.

Ao arrematar as duas hidrelétricas no leilão, a China Three Gorges (CTG) conseguiu em uma só tacada estar entre as três maiores geradoras de energia elétrica do Brasil. Ambas localizadas na divisa dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, Jupiá tem capacidade de geração de 1.551 MW de energia e Ilha Solteira de 3.444 MW. A CTG pagará R$ 13,8 bilhões em bônus de outorga, quase 80% do total de R$ 17 bilhões que será arrecadado com a venda das usinas.

O contrato de concessão tem duração de 30 anos. A energia gerada pelas usinas será destinada às distribuidoras, por meio de cotas, com remuneração via tarifa. Para o diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), José Jurhosa, o leilão foi “um sucesso neste momento da economia do país”. O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, também comemorou o resultado especialmente porque os recursos serão repassados para o Tesouro Nacional, como contribuição para o ajuste fiscal.

O Brasil é um mercado prioritário para a CTG por sua ampla capacidade de geração de energia hidrelétrica e pelo potencial para a construção e operação de usinas de grande porte, afirma a companhia em comunicado divulgado logo após o leilão. Por isso, a estratégia de aquisição acelera a entrada da companhia no país.

“Essas aquisições são uma demonstração” clara e tangível de nossa intenção de investir e crescer no Brasil, que é um mercado prioritário na nossa estratégia de expansão internacional, disse Li Yinsheng, CEO da CTG Brasil. “É uma parceria de longo prazo”, complementou João Meirelles, vice-presidente de Gestão de Novos Negócios da CTG Brasil.

A atuação da empresa chinesa no Brasil tem sido tão agressiva que, um dia depois do leilão, foi anunciada a conclusão da compra de duas hidrelétricas da concessionária Triunfo, que somam 300 MW de capacidade instalada. Com as usinas do leilão, as hidrelétricas recém-compradas e as participações da subsidiária brasileira da EDP, que incluem hidrelétricas e parques eólicos, a China Three Gorges fica com uma capacidade instalada da ordem de 6,6 mil MW, o que a coloca atrás apenas das estatais Eletrobras e Petrobras.

A CTG passa também a ser a segunda maior geradora privada do país, atrás apenas da Tractebel Energia, subsidiária da Engie (ex-GDF Suez), com 6,9 mil MW. A preocupação no país, agora, é o destravamento do mercado de energia, causado por cerca de uma centena de liminares, por causa dos custos que a falta de chuvas causou às geradoras. A maior parte das hidrelétricas vem gerando abaixo do valor médio estabelecido e, em função disso, tem que repor a energia não gerada com contratos cujo preço é estabelecido no mercado spot – cuja cotação tem sido elevada por causa da menor quantidade de chuvas.

Uma medida aprovada pelo Congresso Nacional, que estabelece regras para a recuperação desse prejuízo e para proteger contra extremos climáticos, foi considerada decisiva para o leilão, avalia o ministro Braga, pois foi o elemento necessário para garantir a segurança jurídica que o processo necessitava para os negócios ocorrerem.

Belo Monte liberada

Com oposição indígena da região amazônica, desde seu início 30 anos atrás, a usina de Belo Monte deve iniciar o enchimento do reservatório de 516 quilômetros quadrados no final de janeiro de 2016. Segundo a presidente do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), Marilene Ramos, a primeira turbina da usina deve começar a operar até março do próximo ano.

“Essa (a licença de operação) é apenas uma etapa do processo. A partir do enchimento do reservatório, vamos passar para uma nova fase do projeto em que novos impactos passarão a ocorrer. Há uma série de obrigações que a Norte Energia terá que cumprir no âmbito da licença de operação”, disse Tomaz Toledo, diretor de Licenciamento Ambiental do Ibama.

Durante a entrevista coletiva em que foi anunciada a licença, um grupo de 50 índios que protestavam contra uma emenda constitucional que transfere da Presidência da República para o Congresso Nacional a prerrogativa de determinar a demarcação de terras indígenas, lamentou a liberação da licença de operação da hidrelétrica de Belo Monte.

“Ficamos mais preocupados. A construção da usina já está secando o rio. É um dia triste para nós”, disse o cacique Tabata Kuikuro, do Alto Xingu. O consórcio responsável pela obra, liderado pela Norte Energia, iniciou o enchimento do reservatório tão logo o licenciamento ambiental foi aprovado.

A State Grid vai construir 2,1 mil quilômetros de linhas de transmissão, em tensão de 800 kV (inédita no país) em corrente contínua e tem investimentos estimados em R$ 7 bilhões. A previsão de entrada em operação é no início de 2018. A linha parte da usina no Pará e vai até São Paulo. A outra linha, que vai até o Rio de Janeiro, tem extensão de 2,55 mil quilômetros de extensão e deve demandar investimentos da ordem de R$ 7 bilhões.

Além dos desafios de implantação de duas linhas tão extensas, a companhia terá ainda que levantar financiamento do BNDES, banco local de fomento, num momento em que a economia brasileira encontra-se paralisada, ao mesmo tempo em que enfrenta inflação de 10% ao ano. Ramom Haddad, vice-presidente de operações e manutenção da State Grid, aproveitou para dizer que não passa de “folclore” a possibilidade de a empresa levar 11 mil trabalhadores chineses para construir o linhão no Brasil.

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