China entra no mercado de eólica brasileiro

A planta de eólica Brotas de Macaúbas, Bahía, Brasil. Empresas chinesas estão entrando no mercado de eólica brasileiro (imagem: Alberto Coutinho/Secom)

China entra no mercado de eólica brasileiro

A empresa chinesa CGN Meiya Power Holdings negocia a compra de participação minoritária na companhia eólica brasileira Casa dos Ventos, por valores estimados em US$ 640 milhões, segundo a agência de notícias Bloomberg. Levantamento feito pela revista especializada Brasil Energia aponta que a Casa dos Ventos possui atualmente 1.109 MW de capacidade instalada, entre projetos em operação, em construção ou contratados.

Segundo a Bloomberg, a aquisição foi a forma encontrada pela CGN Meiya para crescer mais rapidamente ante o mercado chinês de energia renovável. O negócio tornaria a presença da China mais ostensiva no mercado de geração de energia do Brasil, um dos principais parceiros comerciais dos asiáticos.

Seria uma ótima opção para o governo brasileiro que luta contra a retração da economia e está sob a ameaça de um racionamento de energia e de água, motivada pela falta de chuvas e por atrasos na implantação de obras importantes de geração e transmissão.

Para Edvaldo Santana, consultor e ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão regulador do setor, a eólica é um bom segmento para os chineses, diante da demanda aquecida. Como o país precisa de projetos de rápida implantação, saem na frente empresas com grande volume de recursos, que não dependam de financiamentos, especialmente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o banco oficial de fomento.

Para isso, explicou, essas empresas precisam de fornecedores de aerogeradores para pronta entrega. Um parque eólico pode operar comercialmente em até dois anos após o início das obras, desde que esteja localizado em regiões de fácil conexão com a rede de transmissão. A aquisição daria à CGN Meiya acesso mais rápido a um grande volume de informações sobre o mercado eólico brasileiro, podendo acelerar mais investimentos.

“Este é um momento apropriado para as empresas chinesas entrarem no Brasil”, disse Elbia Silva Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), representante das empresas do setor, para a Bloomberg. “O mercado está iniciando uma etapa de consolidação, em que há poucas incertezas. É possível prever a rentabilidade e as condições”, afirma.

O presidente da respeitada empresa de consultoria Thymos, João Carlos de Oliveira Mello concorda. Um nicho importante para a China, aposta, é o da geração distribuída, numa estratégia já em curso em diversos países, onde “small is beaultiful”: prioriza-se projetos menores em relação a empreendimentos de grande capacidade instalada, que oferecem mais escala na geração, mas estão mais expostos a riscos de atrasos na implantação, como acontece no Brasil.

Na mesma linha atesta Joísa Dutra Saraiva, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), uma respeitada instituição do país. Para ela, empresas chinesas poderiam ingressar em segmentos de geração distribuída, micro e minigeração.

“São áreas pouco desenvolvidas aqui no Brasil e que se mostra um caminho produtivo para que enfrentemos dias melhores no setor elétrico”, ressaltou Saraiva, também ex-diretora da Aneel.

Oportunidades dos dois lados do Atlântico

A China está revisando sua matriz energética, a fim de mudar sua imagem negativamente conhecida pelo mundo por ser um país fortemente baseado em geração a carvão. Recentemente, o país fechou um acordo sem precedentes com os Estados Unidos em que fixa metas agressivas para reduzir emissões dos gases de efeito estufa na atmosfera. A China terá que cortar emissões e expandir a oferta de energia limpa correspondente a 20% da capacidade instalada do país, ou 1 Terawatt (TW). Isso acontece num momento de crescimento mais lento da economia chinesa, que adota medidas como reduções de juros para estimular a demanda interna.

Ao mesmo tempo, o Brasil, um dos principais parceiros comerciais da China, está com sua economia em luta contra a recessão, após anos de economia aquecida, que resultou em inflação fora das metas oficiais. Economistas locais afirmam que o caminho para a recuperação econômica pode vir da infraestrutura, onde se insere o de energia elétrica.

Em 2001, o Brasil teve racionamento de energia depois de grande período de estiagem e esvaziamento dos reservatórios. O governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, na época, definiu meta de 20% no consumo, mudando os hábitos dos brasileiros, que aprenderam a usar a eletricidade de forma mais eficiente.

Desde 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República, o governo tem descartado novos racionamentos de energia. A atual presidente, Dilma Rousseff, ministra de Minas e Energia no governo Lula e responsável pela reestruturação da legislação do setor elétrico brasileiro, limita-se a pedir à população para economizar energia, por enquanto.

Além da questão energética, o país vive um dos maiores escândalos políticos com a investigação de uma ampla distribuição de propinas a executivos da Petrobras e a políticos por empreiteiras que conduzem alguns dos principais projetos da Petrobras, maior estatal brasileira na área de petróleo. As dificuldades financeiras que o escândalo já proporciona levou a Petrobras a anunciar o plano de vender US$ 13,7 bilhões em ativos. Não há informações sobre quais ativos serão negociados e se a venda de cada um será integral ou parcial – e, nesse caso, se a participação nestes ativos será majoritária.

A Petrobras possui 26 termelétricas, movidas a gás natural e óleo combustível, que somam 7,6 mil MW. Uma eventual entrada de chineses nesse segmento também elevaria rapidamente o portfólio, afirma Edvaldo Santana. “São ativos muito interessantes”, destacou ele, que também foi diretor da Aneel.

Já Mello, da Thymos, não as considera tão atrativas pois, embora o momento seja favorável, tais usinas, algumas com mais de 10 anos, assemelham-se a “carros usados”, com maiores custos de manutenção.

A China já atua no setor de transmissão com a State Grid, que possui ativos como a linha que conectará Belo Monte ao Sudeste brasileiro, e na geração, com a China Three Gorges (CTG). Mesmo sendo acionista indireta da subsidiária brasileira EDP Energias do Brasil, a CTG passou a controlar diretamente algumas usinas da companhia, inclusive eólicas.

A reportagem da Bloomberg recorda que o último negócio de uma empresa chinesa no Brasil foi em 2011, quando a Sinovel Wind Group assinou contratos para fornecer 35 MW em turbinas para a Desenvix, braço de energia da Engevix Engenharia.

O Brasil ainda busca diversificar a matriz energética, com a previsão de realização, esse ano, de sete leilões de expansão da oferta, com destaque para a geração solar fotovoltaica. Na primeira vez que negociou energia solar, o país contratou o equivalente a 1 GW, o que permite abastecer aproximadamente 20 milhões de pessoas.

E um dos leilões abre espaço para novas eólicas e usinas a biomassa (especialmente bagaço de cana de açúcar). Os leilões de compra de energia são do tipo reverso, onde vence quem apresenta o menor preço de geração. O valor inicial é de R$ 179 por MWh, o que corresponde a cerca de US$ 56 por MWh ou a cerca de € 52.

O governo também estuda licitar este ano a hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, no norte do país, considerado o último dos maiores aproveitamentos hidrelétricos do país, com 8.040 MW. Os chineses também olham para a usina. Mello avalia que empresas chinesas podem entrar nesse e em outros novos projetos hidrelétricos, mesmo com a perspectivas de que as licenças ambientais levem um longo tempo para serem concedidas. O complexo hidrelétrico prevê a construção de cinco usinas em plena região amazônica em área de floresta nativa e terras indígenas.

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