El Niño, calor e administração ruim levam seca a Bolívia

Bolivianos tem que buscar água e economizar (imagem: Stephan Bachenheimer/ World Bank)

El Niño, calor e administração ruim levam seca a Bolívia

A Bolívia sofre a pior seca dos últimos 25 anos. A ponto de o presidente Evo Morales ter decretado estado de emergência e determinado racionamento de água em todo o país. “É culpa das mudanças climáticas”, disse Morales advertindo: “E vai piorar”. Especialistas dizem que, em parte, o presidente boliviano tem razão. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), das Nações Unidas, diz que 2016 será o ano mais quente da história. O fenômeno climático El Niño foi intenso no primeiro semestre deste ano e, embora já tenha se dissipado, “as mudanças climáticas causadas por gases do efeito estufa não vão passar”, já alertara o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

“A Bolívia é um dos países mais afetados pelo fenômeno El Niño. É uma das piores secas em muitos anos. Os reservatórios de água estão muito baixos. Estão com apenas 5%, 1% de seu volume. É uma situação crítica. Não choveu e não há previsão de chuva”, advertiu em entrevista ao Diálogo Chino, o professor José Marengo, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). “A seca na Bolívia é muito parecida com a que ocorreu no Brasil em 2014, 2015”, lembrou.

Para atender a população da capital, La Paz, com cerca de 400 mil habitantes, o presidente determinou a perfuração de 60 cisternas e a instalação de tanques com 10 mil litros de água. Acontece que, ao lado da capital, está El Alto, com cerca de 850 mil pessoas, a maioria de baixa renda, que desceram em busca de água e para protestar contra o governo pela alta de água.

“Em cinco anos, El Alto terá um milhão de habitantes, sem a menor infraestrutura de água potável. Como a água não vem de cima, as pessoas pegam água embaixo. Escavam até 300 metros para conseguir água. Fazem cisternas. Mas a água daí também acaba”, alertou em entrevista ao Diálogo Chino, o economista Pedro Morazán, do Institut Südwind da Alemanha. “Foi o que aconteceu na Síria. O governo não se preocupou com isso, uns 20 anos atrás, daí as pessoas foram para Damasco, Allepo e o governo também não estava preparado para isso. Assim começou a crise da Síria. A crise social tem muito que ver com a falta de água”, complementou.

Quando Morazán fala “de cima”, ele refere-se às águas que descem das Cordilheiras dos Andes, que eram cobertas de neve e que agora têm apenas os picos com um pouco de neve mesmo no inverno devido ao derretimento por causa das altas temperaturas provocadas pelo aquecimento global. Segundo disse ao Diálogo Chino Jorge Molina Carpio, da Universidad Mayor de San Andrés, da Bolívia, cerca de 15% do abastecimento de La Paz e El Alto provêm dos glaciais. “A água que vem das geleiras vai para os rios. O derretimento da neve dos Andes existe e contribui para a falta de água dos rios”, disse Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Os três especialistas lembraram que parte de culpa pela crise hídrica na Bolívia é do próprio governo, que não tomou nenhuma providência para evitar, por exemplo, a perda de água pelas tubulações, que chega a 40% enquanto que em países desenvolvidos a perda não passa de 5%. “Não se aprendeu com o passado. Não é a primeira vez que a Bolívia sofre com a seca”, condenou Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN). Todos dizem que a demissão de funcionários como fez Morales em nada ajuda, mas que o governo poderia ter previsto o aumento do número de pessoas usando água potável como está acontecendo em El Alto.

Outro problema apontando tanto por Morazán quanto por Marengo para escassez de água na Bolívia é a falta de costume da população de economizar água. “O comportamento das pessoas agrava a crise. Os latino-americanos estão acostumados à abundância de água. Não se têm o mesmo comportamento que um habitante do Mali, por exemplo, onde tratam a água como um recurso escasso e finito. A América Latina não sofria com falta de água”, lembrou Morazán, pesquisador sênior de países latino-americanos e membros dos BRICS. “É preciso mudar o comportamento das pessoas. A população aumenta, a temperatura aumenta, o volume de água diminui”, concordou Marengo.

Dois outros pontos foram apontados como culpados pela grave crise hídrica pela qual atravessa a Bolívia: a contaminação das reservas hídricas e a geração de energia no modelo hídrico. “Bolívia e Peru apostaram em um modelo de desenvolvimento extrativista e estão contaminando os rios em busca de recursos naturais, como vem fazendo a China”, afirmou Morazán. “Agora é preciso mudar tudo. O modelo de desenvolvimento e a energia a ser usada. É preciso fontes de energia renováveis, alternativas, eólicas, fotovoltaicas, solar e mesmo a hídrica para pequenas comunidades”, recomendou o economista.

Segundo dados oficiais do vice ministério da Defesa Social, a seca afetou 290 mil hectares de terras produtivas, 360 mil cabeças de gado e oito dos nove estados bolivianos. O governo liberou a importação de milho para alimentar as aves e tentar impedir que falte alimento para população, já desesperada pela falta de água.

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