Indústria aeronáutica mira corte de poluição nos céus

Empresa brasileira Embraer está economizando combustível e reduzindo emissões (imagem: Shortbread1015DT)

Indústria aeronáutica mira corte de poluição nos céus

As fabricantes de avião enxergam um futuro promissor pela frente. A expectativa é de que a frota mundial ultrapasse a marca de 38 mil aeronaves nos próximos 20 anos – atualmente, cerca de 26 mil estão em serviço, segundo dados da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA, na sigla em inglês).

Com mais aviões nos céus, a carga de poluição lançada pelos jatos na atmosfera também aumentaria, seguindo um raciocínio simples. Mas o setor tenta mostrar que é possível inverter essa lógica: a indústria aeronáutica estabeleceu como meta cortar pela metade suas emissões de CO2 até 2050 com base nos números de 2005.

“O plano é fazer com que, apesar do crescimento, as emissões do setor aeronáutico não subam”, diz ao Diálogo Chino Edward Smith, vice-presidente Associação dos Fabricantes de Aviação Geral (GAMA). Movidos a um querosene especial, os aviões são responsáveis por 12% das emissões dentro do setor de transporte. Os veículos que ocupam as estradas ficam com 74%. De todas as emissões contabilizadas, a aviação corresponde a 2%.

Aos poucos, as fabricantes incorporam inovações pra deixar suas linhas de produção mais limpas. Uma exigência que vêm também das companhias aéreas, que buscam sempre cortar os custos principalmente com combustível.

O lançamento mais recente saiu do Brasil: a Embraer apresentou uma nova geração de jatos comerciais que consome de 15% a 20% menos querosene – o que, consequentemente, resulta numa emissão mais baixa.

“Essa nova família de jatos (E-Jets E2) vem com uma força operacional muito maior, com economia de combustível e custo operacional também mais baixo. Ou seja: um avião mais eficiente pra atender os vários mercados do mundo”, explica Paulo Cesar Silva, presidente da Embraer Aviação Comercial.

Dentre esses mercados, o chinês é um dos mais notáveis. Projeções indicam que a China vai incorporar 6.300 aviões novos até 2034. “A China é um mercado super importante para Embrear. Estamos lá há 15 anos, temos 80% do mercado no segmento de jatos com até 100 lugares”, complementa Silva.

A brasileira Embraer abriu uma fábrica no país asiático em 2002, em parceria com a chinesa AVIC 2, para produzir aviões ERJ-145, de 50 assentos. Em 2012, a produção do Legacy 650 foi adicionada.

Briga entre emergentes

Líder na fabricação de jatos comerciais de até 130 assentos, a Embraer vê nova concorrência vinda de emergentes como Rússia e a própria China. Segundo Edward Smith, as novas companhias criadas nos dois países parecem comprometidas com um futuro mais limpo.

“Dentro das discussões da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) sobre os padrões de emissões de CO2, russos e chineses estão muito envolvidos, as aeronaves que eles fabricam também vão seguir esses novos padrões”, comenta Smith.

No início de fevereiro, a ICAO, agência das Nações Unidas, estabeleceu regras de reduções de CO2. O tratado deve ser aplicado para aviões que serão entregues a partir de 2023, mas não para os atualmente em operação. O acordo prevê que as aeronaves que não seguirem as recomendações saiam de linha até 2028.

As normas teriam mais impacto em aviões maiores, já que as aeronaves com mais de 60 toneladas respondem por 90% das emissões da aviação internacional. Para entrar em vigor, o texto final ainda vai passar por uma sessão especial com os 36 membros que formam o conselho da ICAO.

Tecnologia e combustível

Além das mudanças na aerodinâmica – como novo desenho das asas -, a Embraer buscou motores mais eficientes para diminuir o impacto na atmosfera dos novos jatos. As turbinas da família E2, apesar de maiores, rodam mais quilômetros com menos combustível.

“Foram mais de 20 anos de pesquisa e US$ 10 bilhões investidos”, comenta Greg Gernhardt, da Pratt & Whitney, empresa fabricante das turbinas baseada nos Estados Unidos. Segundo ele, a motivação para o projeto nas décadas passadas era a tentativa de cortar os custos com combustível, já que o preço do petróleo era mais alto.

“Com o desenrolar do debate sobre mudanças climáticas, as fabricantes passaram a se preocupar também com a questão ambiental”, diz.

Quanto ao uso de combustível alternativo, a tecnologia já estaria dominada, afirma Frederico Curado, presidente da Embraer. “A questão é agora produzir bioquerosene em escala comercial pra usar nos aviões. E ir aumentando a mistura desse combustível gradualmente”, afirma. Embraer e Boeing mantêm um centro de pesquisa especialmente voltado para o desenvolvimento de bioquerosene de aviação, no interior de São Paulo, no Brasil.

Por outro lado, o preço baixo do petróleo, como no quadro atual, impede a tecnologia de decolar. “A indústria aeronáutica gostaria de acreditar que não existe conexão, mas o baixo preço do petróleo deve afetar o desenvolvimento inicial da cadeia de produção dos combustíveis sustentáveis”, avalia Christopher Surgeon, da publicação especializada GreenAir, baseada no Reino Unido.

Andrew Pozniak, da organização Green Aviation, concorda: o preço baixo do petróleo é uma séria ameaça para esse setor promissor – o de biocombustíveis. “Isso teria um impacto significativo no meio ambiente no longo prazo, já que o setor de aviação está fazendo o possível para promover o uso de combustíveis sustentáveis”, avalia Pozniak, que já atuou na IATA, em entrevista ao Diálogo Chino.

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