“Lata d’água na cabeça”, já dizia a música

La gente almacena agua mineral en casa (foto: Ninja Midia)

“Lata d’água na cabeça”, já dizia a música

Baldes, panelas, jarras, latas, tambores e até piscininhas infantis têm sido usados pelos paulistanos, nos últimos meses, para coletar e armazenar água. Seja a pouca água que vem da chuva, seja nos momentos em que vem pela torneira. Não é para menos. Nunca antes se passou por uma seca como a que assola não só o estado de São Paulo, mas toda a região Sudeste do Brasil. Mais de 50% dos cerca de 203 milhões de brasileiros estão concentrados nessa que é a região mais rica do país: responsável por 55,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

Nesse momento de seca, no entanto, a região já vem sendo comparada ao Nordeste do país, onde a seca é rotina para a população. “A gente veio de lá para cá pensando que estava escapando da seca. Aqui não era a “terra da garoa”?, questiona Beni dos Anjos, que há anos deixou o sertão da Bahia onde, como faz agora, carregava água na lata sustentada na cabeça. Na favela onde mora – e onde foram se instalando também irmãs, primos e sobrinhos – a falta de água é rotina. “A gente chega a ficar dois, três dias sem água”, relata.

A falta de água, no entanto, não é um “privilégio” dos menos favorecidos, embora no caso deles seja mais frequente. Quando um diretor da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) anunciou a possibilidade de a população ficar cinco dias sem água e dois com, a classe média correu para os supermercados. Era o desespero para comprar água mineral para armazenar em casa. Antes usada apenas para ser ingerida, a água mineral passou a ser estocada para a eventual falta absoluta desse precioso bem.

Além de tentar coletar água potável, as pessoas introduziram novos hábitos a seu dia-a-dia. “Tomo banhos mais curtos. Como sei o tempo de duração da música, limito meu banho à duração da música”, conta o universitário Pedro Lima. Difícil encontrar uma pessoa que não recolha a água que cai do chuveiro antes de entrar no banho. Aliás, antes e durante o banho. A primeira, que é limpa, é reusada para lavar roupa ou o próprio banheiro. A outra, que está com sabão e sujeira do corpo, é jogada na privada para dar descarga. A água que sai da máquina e lavar roupa é reaproveitada para lavar a área de serviço e o quintal.

Os novos hábitos chegaram também aos estabelecimentos comerciais. Alguns restaurantes estão recolhendo água para lavar o chão e outros como o tradicional e elegante La Casserrole, por exempo, já tem planos B e C. Segundo sua proprietária Marie France Henry,  os pratos, talheres e copos serão substituídos por descartáveis se as torneiras secarem antes de ficar pronta a obra que mandou fazer em seu estabelecimento: um tanque vai coletar a água da chuva que será armazenda no sub-solo do restaurante. Sabemos que temos chuvas com certeza até final de março, começo de abril e isto garante que estaremos “poupando” água da Sabesp para o que é fundamental no nosso processo produtivo”, disse ao Diálogo Chino.

Esse mesmo espírito de “ajudar” o poder público atinge 60% dos paulistanos, segundo pesquisa feita pelo Datafolha no início de fevereiro. Em compensação, o índice de aprovação do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin caiu de 48% em outubro, quando foi reeleito, para 38% em fevereiro. Até agora, houve uma manifestação, com cerca de 200 pessoas, protestando pela falta de água. Algumas pessoas chegaram a ensaiar a “dança da chuva” – usualmente feita pelos indígenas -, mas a polícia terminou com a brincadeira porque ela era feita em volta de uma fogueira. Duas pessoas terminaram detidas.

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