“Nova Era” nas relações China-América Latina?

Presidente da China, Xi Jinping, começa hoje pelo Equador sua viagem pela América Latina (imagem: Carlos Rodriguez/ ANDES)

“Nova Era” nas relações China-América Latina?

A essas alturas, já deveríamos estar acostumados com as visitas anuais de alto nível e as conferências de cúpula envolvendo autoridades chinesas e latinoamericanas, onde se anunciam ambiciosas metas e acordos de comércio, investimento e finanças. Este ano, porém, a mídia chinesa oficial está ressaltando que a visita de sete dias de Xi ao Chile, Equador e Peru – que começa hoje – e centrada no fórum da APEC, em Lima, vai “trazer uma nova era” nas relações China-América Latina. De que modo devemos compreender as renovadas afirmações sobre um novo período nas relações da China com a América Latina? E, em particular, o que isso pode significar para os valiosos acordos de extração e infraestrutura entre a China e os países sul-americanos ricos em recursos naturais?

Para começar, a ênfase das autoridades chinesas sobre uma nova era nas relações com a América Latina deve ser compreendida no contexto do fim do boom da alta das commodities. Conforme a commodity, o boom já terminou há pelo menos dois anos (petróleo) ou três (minério de ferro) ou até mais (cobre). A iniciativa dos líderes e diplomatas chineses de iniciar uma nova fase nas relações, especialmente com a América do Sul, região rica em commodities, é uma resposta tardia à realidade das quedas acentuadas na demanda e no preço das exportações de matérias-primas da América do Sul. Esse fenômeno está intimamente ligado às mudanças na economia da própria China, que está passando para um modelo de consumo interno.

As autoridades já veem reconhecendo, oficialmente, que a fase das relações baseada na alta das commodities precisa mudar para se adaptar à realidade. Mesmo assim os governantes chineses, incluindo Xi Jinping e o primeiro-ministro Li Keqiang, em recentes visitas em 2014 e 2015, respectivamente, enfatizaram que as relações comerciais devem ir muito além das matérias-primas. Essas conversas, em geral, se focam em maiores investimentos e financiamentos chineses em infraestrutura e na indústria da América Latina. Temas semelhantes certamente serão foco da próxima visita de Xi. E, dado que ele vai participar da APEC, o fórum de comércio regional transpacífico, assim como dois países fundadores da TPP, Chile e Peru – justamente agora que os Estados Unidos parecem dispostos a abandonar a TPP – Xi deve promover, quase com certeza, outros planos chineses para o comércio exterior.

Qualquer discussão sobre uma “nova era” nas relações China-América Latina (neste caso, América do Sul) deve levar em conta esse novo contexto. Do lado sul-americano, a alta fez com que crescesse o temor de uma volta aos padrões históricos de dependência de commodities e maior pressão sobre o meio ambiente. As consequências do estouro da bolha, em especial em países como a Venezuela, têm sido muito duras. Para os compradores e investidores chineses, o fim da alta significa uma enorme redução na conta das importações e possíveis compras de ativos sul-americanos de energia, mineração e agricultura a preços de liquidação. O otimismo sobre o potencial de acordos “vantajosos para ambos os lados” nas relações China-América Latina atingiu seu ponto mais alto no primeiro fórum ministerial China-CELAC, há quase dois anos. O contexto atual é mais pessimista e não é provável que volte ao nível anterior.

As alternativas propostas pela China para os laços econômicos, incluindo investimento e financiamento em transporte e energia, bem como a “exportação da capacidade industrial” da China para a América Latina, fazem parte da agenda chinesa destinada a promover os interesses do país. É claro que as autoridades do governo chinês e os órgãos de mídia do partido já enfatizaram que esses planos fazem parte de um esforço para “promover o desenvolvimento em comum e construir uma comunidade de destino compartilhado entre a China e a América Latina”. Contudo, a verdadeira questão para os países latinoamericanos, tanto durante esta visita como nos próximos anos, é saber como favorecer, em seus vínculos com a China, seus próprios princípios e interesses de desenvolvimento, num ambiente pós-alta das commodities.

Os setores de infraestrutura e extração continuarão, quase com certeza, a ser o cerne das relações entre a China e a América Latina. Eles são um ponto de partida perfeito para uma discussão revigorada com a China sobre o que constituiria uma relação mais sustentável, do ponto de vista econômico e ambiental – ou seja, uma relação mais de acordo com a visão de desenvolvimento dos próprios países latinoamericanos e seus cidadãos. Essas discussões se beneficiariam muito de uma perspectiva menos provinciana e mais comparativa do que vem acontecendo até agora.

Especialmente em questões como protocolos ambientais e sociais, incluindo o envolvimento com as comunidades locais e as ONGs, em relação aos investimentos chineses em mineração, energia e barragens, a América do Sul tem muito em comum com alguns países da África e do Sudeste Asiático. Myanmar é um exemplo perfeito. Ali os projetos de represas, oleodutos, gasodutos e minas de cobre já foram alvo de muitas contestações, mas também foco de diálogo e envolvimento entre as autoridades chinesas, os executivos empresariais e o governo e as comunidades locais.

Por sua vez, os governos e cidadãos de países da África e Sudeste Asiático que têm relacionamentos e desafios semelhantes nas suas relações com a China poderiam aprender com a experiência sul-americana, incluindo lições sobre os benefícios e os custos dos empréstimos feitos de estado para estado e garantidos por recursos naturais. E se a China está realmente interessada em construir uma nova era nas relações com a América Latina, e também com países em desenvolvimento na África, Sudeste Asiático e outras regiões, também faria bem em aplicar mais amplamente as lições da sua experiência nessas regiões.

Para os países no atual itinerário de Xi no exterior, em especial Peru e Equador, onde os investimentos chineses em projetos de mineração, petróleo e barragens tem sido significativos, faz sentido procurar envolver a China nas questões e nos padrões que vêm surgindo dos vínculos da China com outras regiões; não só isso, como também nas iniciativas de desenvolvimento patrocinadas pela China na sua própria parte do mundo. O governo e os executivos chineses estão experimentando novos caminhos e novos padrões para a responsabilidade social corporativa, a avaliação de impacto ambiental e a análise de riscos políticos em países como Camboja e Mianmar. Alguns também estão buscando incorporar essas práticas em novas instituições como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB).

Para os governos latinoamericanos, seus acadêmicos e seus cidadãos, conhecer melhor essas abordagens, essas experiências e esses padrões e procurar garantir que também sejam adotados como melhores práticas nos investimentos e financiamentos de projetos, assim como em novas instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos Brics), decerto marcaria o início de uma estratégia regional para uma nova era de relações com a China.

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