Novas perspectivas sobre a atuação internacional da China

Comerciantes chineses querem abastecer o mercado com soja sustentável (imagem: Leonardo F. Freitas)

Novas perspectivas sobre a atuação internacional da China

Há quase 20 anos, a China anunciou sua ambição de “sair para o mundo”, mas no ano passado houve uma expansão significativa das atividades chinesas no exterior. O país vem apoiando novas instituições financeiras, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) e o Novo Banco de Desenvolvimento (ou Banco dos BRICS), além de iniciativas importantes de comércio, investimento e extração de recursos no âmbito de “Um cinturão, uma estrada”. Ao fazer isso, a China está desafiando o chamado sistema de Bretton Woods.

Como já observei em outro artigo no chinadialogue, o apoio aos novos bancos reflete a falta de expansão do papel da China em organizações internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que parecem cada vez menos representativas. E seus investimentos, que procuram construir a conectividade e a cooperação através de toda a Eurásia (a chamada “Rota da Seda Econômica”) e uma grande rede de rotas marítimas (a “Rota da Seda Marítima do Século 21”) sugerem, não apenas uma política externa mais incisiva, como também um desejo de transferir parte do excesso de capacidade da China para novos mercados, na atual “nova normalidade”: um período de menor crescimento que, segundo as esperanças da China, levará a uma mudança estrutural rumo a um desenvolvimento sustentável, com mais qualidade.

Nesse contexto em transformação, uma edição especial da nossa revista reunindo nossos melhores artigos sobre esses temas – disponível aqui para download gratuito – apresenta diversas perspectivas importantes sobre a forma como as atividades da China, financiando o desenvolvimento, construindo infraestrutura ou extraindo recursos, estão mudando ao redor do mundo, e como essas experiências também estão começando a mudar as propostas chinesas para o desenvolvimento.

Além da conhecida retórica da colaboração “vantajosa para todos”, os aspectos ambientais da ascensão da China nem sempre são divulgados – e, portanto, requerem mais atenção neste momento crítico. O relatório e as análises desta edição especial explicam como o capital chinês continua a apoiar a geração de energia a carvão em todo o mundo, desde a Europa do Leste até o Paquistão; como há firmas chinesas envolvidas no desmatamento insustentável, e muitas vezes ilegal, de Moçambique até o Brasil e a Guiana; como os subsídios aos combustíveis beneficiam a sobrepesca das frotas chinesas de pesca em água longínqua; como o desenvolvimento baseado na extração sustenta o conflito no Afeganistão; e por que as barragens financiadas pela China na Mongólia poderiam contestar o título de “verde” da nova “Rota da Seda”.

Mas os artigos desta edição também trazem à luz novas possibilidades: que o AIIB, por exemplo, possa adotar normas internacionais de empréstimos e aceitar a participação das ONGs, embora ainda não tenha um conselho fixo; que as empresas de energia possam interagir com a sociedade civil no exterior para melhorar sua reputação e sua segurança; que as empresas chinesas adotem novos padrões voluntários de boas práticas; e talvez o mais promissor, que os investimentos chineses possam acelerar a transição para uma economia de baixo carbono em todo o mundo.

De fato, a China poderia mudar para melhor todo o panorama energético atual. Com seus investimentos sustentados em tecnologias de energia renovável, ela vem surgindo como líder mundial em fabricação e inovação dos produtos necessários para gerar energia elétrica solar e eólica. É algo que dois eminentes estudiosos da inovação, John Mathews e Hao Tan, concluíram recentemente que pode marcar o início de “um novo paradigma energético, com implicações imensas”.

Em Punjab, no Paquistão, Zofeen Embrahim relata que uma firma chinesa está construindo um parque de energia solar fotovoltaica de 100 megawatts – o primeiro projeto de energia realizado no Corredor Econômico China Paquistão, e a fase piloto do plano de construção do maior parque solar do mundo. Nós também exploramos de que modo as grandes importadoras chinesas de alimentos podem ter um papel importante na luta contra o desmatamento na América Latina, comprometendo-se a abastecer seu mercado interno com soja de origem sustentável.

No contexto dos esforços globais para mitigar a mudança climática após o acordo de Paris, e da renovada arrancada chinesa para criar uma “civilização ecológica” no país, torna-se ainda mais importante compreender esses exemplos. Esperamos que os artigos desta edição especial possam ampliar essa compreensão.

Siga este link para ler o relatório ‘China remakes the map: Green Perspectives’ (“A China refaz o mapa: Perspectivas Verdes”), promovido pela Fundação Henry Luce.

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