Novas tendências na relação da China com América Latina

Como serão as relações da China com a América Latina? (image: Agencia de Noticias Andes)

Novas tendências na relação da China com América Latina

Nos primeiros meses de 2016 foram publicadas três importantes obras sobre a interação econômica entre a República Popular da China e a América Latina e o Caribe. Em fevereiro, a Universidade de Boston e o grupo de estudos Inter-American Dialogue, sediado em Washington, lançaram uma nova versão do seu banco de dados de empréstimos bancários chineses para a América Latina. O banco de dados tem números atualizados sobre os empréstimos do China Development Bank e do China ExIm Bank, e talvez seja a fonte não-oficial mais confiável sobre os empréstimos chineses para a região.

Em abril, a Universidade EAFIT de Medellín, Colômbia, apresentou um novo estudo em língua espanhola, “La Presencia de China en América Latina: Comercio, Inversión y Cooperación Económica” (A presença da China na América Latina: Comércio, investimento e cooperação econômica). O estudo examina detalhadamente os padrões de aumento do comércio, do investimento e dos empréstimos feitos por entidades chinesas na América Latina.

Também durante o mês de abril, a “Rede Acadêmica da América Latina e do Caribe sobre a China”, baseada na Universidade Autônoma do México (UNAM), publicou um extenso banco de dados sobre os investimentos da RPC na região, ajudando a mitigar a escassez de números confiáveis a respeito nos estudos sobre atividades comerciais da China na América Latina.

Todos esses trabalhos acadêmicos estão contribuindo para uma compreensão mais avançada da atuação da RPC na América Latina. Mas eles também apontam para um novo ambiente estratégico que vem surgindo, afetando as atividades da RPC na região e apresentando desafios tanto para o governo chinês como para suas empresas – e pode modificar profundamente a dinâmica desse relacionamento.

Os desafios que a China enfrenta na região refletem dois fatores em estreita interação: de um lado, uma redução na América Latina na percepção que há grande atrativo em de se fazer negócios com empresas chinesas; e um ambiente regional em evolução que vem confrontando empresas e entidades governamentais chinesas, envolvendo maior incerteza política e parceiros mais exigentes.

Se alguma vez houve um período de lua de mel no casamento entre a América Latina e China, consagrado em 2001 com a entrada desta na Organização Mundial do Comércio, essa lua de mel já terminou. Embora a quantidade de produtos exportados da América Latina para a China continue crescendo, a queda no preço das commodities derrubou a renda desses produtos na região em cerca de 38% em relação ao ano passado. A região vem questionando cada vez mais os benefícios de priorizar a exportação desses bens para a RPC.

Embora as firmas chinesas já tenham produzido muitos produtos de qualidade, e tido sucesso em muitos empreendimentos, há na região uma cautela cada vez maior em relação aos produtos e projetos chineses. A fraca atuação de certas firmas chinesas em relação à conformidade ambiental e à corrupção é cada vez mais visível. Entre os projetos chineses de grande envergadura já anunciados, porém atrasados ou não realizados, se incluem as refinarias de Recope, na Costa Rica; de Cienfuegos, em Cuba, e a do Pacífico, no Equador. Também incluem projetos de “canal seco” unindo a costa do Atlântico à do Pacífico em todo o sul do México, Guatemala, Honduras e Colômbia, bem como a proposta ferrovia Bioceânica entre o Brasil e o Peru (possivelmente incluindo um segmento através da Bolívia). Embora haja estudos em andamento para vários fundos de empréstimos multilaterais chineses, os US$ 35 bilhões em empréstimos para a região anunciados pelo presidente Xi em sua visita ao Brasil, em julho de 2014, ainda não se concretizaram.

Além dos projetos adiados ou não realizados, a imagem pública das firmas chinesas na região também sofre o impacto negativo dos problemas incessantes em projetos de alto perfil. Entre os exemplos, o fracasso do projeto de resort Baha Mar, nas Bahamas, de US$ 3,5 bilhões; acusações de má conduta contra a madeireira chinesa Bai Shan Lin, na Guiana; problemas ambientais envolvendo as mineradoras Chinese Minmetals e Chinalco, no Peru, e Jungie, na Bolívia; e ainda agitações trabalhistas como cinco greves contra a chinesa Sinohydro na construção da estrada Ivirgarzama-Ichilo na Bolívia. Outros exemplos incluem mortes em um acidente grave durante a construção da barragem Coca Codo Sinclair, no Equador pela chinesa Sinohydro, e ainda o cancelamento feito pelo governo boliviano dos contratos com a Chinese Railroad Road e CAMCE, por não conseguirem executar o trabalho numa ferrovia de Montero a Bulo Bulo para o qual foram contratadas.

Enquanto muitos governos e empresários da região estão superando os desafios de fazer negócios com firmas chinesas para poder colher os benefícios, a RPC enfrenta parceiros latino-americanos cada vez mais pragmáticos e exigentes, obrigando o país a mudar seu tipo de relacionamento se quiser ser bem sucedido.

Se avaliar e administrar os riscos nos diversos locais de atuação tem sido um ponto fraco nos negócios chineses, nos últimos anos o ambiente na região ficou ainda mais complicado. Muitos parceiros próximos da China na região estão passando por profundas crises econômicas e políticas, incluindo o Brasil e a Venezuela. Além disso, o Peru, um dos mais importantes parceiros de mineração da China na região, está em meio a uma eleição que vai substituir o governo de Ollanta Humala, relativamente favorável à China, por um governo de direita ou neoliberal, dependendo de qual candidato sairá vitorioso. Também a Nicarágua, possível parceira na construção de um novo canal transoceânico (apesar da falta de relações diplomáticas formais) realizará eleições este ano, enquanto os presidentes dos três outros países da ALBA (pró-China) – Equador, Bolívia e Cuba – deixarão o poder quando expirarem seus mandatos.

A tendência recente tem sido eleger governos que monitoram de forma mais crítica as práticas de negócios e fortalecem as instituições e as políticas pró-mercado, exigindo que as firmas chinesas entrem na competição das licitações públicas abertas para ganhar projetos, em vez de consegui-los através dos costumeiros arranjos de governo para governo. Na Guiana, desde a eleição de David Granger, em 2015, as empresas chinesas com relações especiais com o governo anterior, tais como Bai Shan Lin e China Harbor, vêm recebendo fiscalização particular em relação à sua conformidade com as leis e regulamentos. Na Argentina, a eleição de Mauricio Macri iniciou uma revisão dos contratos públicos assinados pelo governo anterior com entidades chinesas, incluindo os destinados à modernização do sistema ferroviário Belgrano-Cargas, à construção de duas usinas hidrelétricas no rio Santa Cruz, e à construção de dois reatores nucleares no complexo Atucha.

Apesar dessas dificuldades, as empresas chinesas têm demonstrado sua capacidade de aprender e competir com sucesso em países com instituições fortes e uma robusta economia de mercado. No Peru, apesar do transbordamento de um reservatório de rejeitos, em março de 2014, que contaminou os lençóis d’água locais e obrigou o fechamento da mina de Toromocho, a China Aluminum Corporation (Chinalco) tem tido sucesso, de modo geral, na operação da usina, incluindo convencer 5.000 pessoas a se mudar de sua aldeia, Morococha, localizada no topo da área a ser explorada.

Embora diversas firmas chinesas já tenham demonstrado que conseguem atuar com sucesso nesse ambiente de negócios latino-americano tão desafiador, ainda há muito a fazer. Especificamente, as empresas chinesas precisam melhorar sua capacidade de analisar os riscos em um ambiente político pluralista. Também é preciso dar mais liberdade de ação às suas operações na região para poderem se adaptar às condições locais, bem como trabalhar de forma inteligente com consultorias e firmas associadas locais. Outro aspecto: as companhias chinesas também poderiam melhorar sua maneira de preparar o pessoal técnico e administrativo que envia para a região, incluindo familiaridade com a língua e a cultura do país e uma melhor integração da empresa e dos funcionários com a comunidade local.

As empresas chinesas não são, inerentemente, menos capazes que suas congêneres internacionais de obter sucesso neste novo ambiente mais exigente. As estatais contam com o apoio financeiro de parceiros com fartos recursos e o apoio político do seu governo e podem complementar esses benefícios abraçando as normas e práticas internacionais.

Embora o novo ambiente latino-americano apresente dificuldades para as empresas chinesas, pode trazer benefícios importantes a longo prazo, em especial se os novos governos com quem trabalham tiverem instituições que funcionem melhor. Dessa maneira, os parceiros latino-americanos da China poderão ser mais transparentes nas negociações e na execução dos acordos. Isso vai mitigar as preocupações no Ocidente; além disso, ficará dentro de um quadro jurídico e institucional que dá à China mais confiança em que seus parceiros vão honrar os acordos que fizeram, seja qual for a orientação ideológica do partido no poder.

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