Petrolíferas chinesas enfrentam problemas na Amazônia

Petrolíferas chinesas enfrentam problemas na Amazônia

Esta é a sexta de uma serie especial de matérias sobre o papel da China no desenvolvimento pacífico e sustentável da Colômbia

A cordilheira dos Andes corre ao longo da borda oeste da América do Sul como um grande quebra-vento. Em direção ao interior do continente, ao leste, suaves planícies dão lugar a densas florestas e, eventualmente, à vasta Amazônia. Um décimo das espécies conhecidas do mundo vive aqui, e a respiração de centenas de milhões de árvores deu à região sua reputação de “pulmão do mundo”.

Ao pé dos Andes, no extremo norte da Amazônia colombiana, fica a pequena cidade de Florencia, capital da província de Caquetá. Florencia é uma das portas de entrada para a floresta no país montanhoso. Na praça central, vemos altas palmeiras se empinando contra o pano de fundo da cordilheira, visível ao longe.

Em 08 de junho de 2011, 150 quilômetros ao noroeste daqui, em um lugar chamado San Vincente del Caguán, quatro engenheiros chineses foram sequestrados por homens armados e mantidos em cativeiro no meio das montanhas. Os quatro eram empregados de uma empresa subcontratada pela Emerald Energy, subsidiária do grupo chinês Sinochem. Os sequestradores eram membros das FARC, a guerrilha esquerdista radical da Colômbia.

Desde o início de sua luta armada contra o governo, em 1964, as FARC usaram os sequestros e o tráfico de drogas para controlar territórios fora do alcance governamental e tentar alcançar objetivos políticos que, segundo o grupo, representavam o povo. De acordo com estatísticas, 220.000 colombianos morreram e cerca de 7,3 milhões foram obrigados a deixar suas casas ao longo dos 52 anos do conflito – um alto preço, para um país com população de apenas 48 milhões.

Em Caquetá, então controlada pelas FARC, trabalhadores de empresas petrolíferas chinesas se viram no meio de um conflito civil em uma terra estrangeira. Em novembro de 2012, após 17 meses em cativeiro, os quatro trabalhadores foram libertados – não pelo pagamento, nem por nenhuma operação heroica de resgate, mas por conta de uma mudança política fundamental: em outubro de 2012, as FARC e o governo haviam iniciado históricas discussões de paz, e a soltura dos reféns estrangeiros remanescentes seria um símbolo de boa-fé.

Quatro anos depois, o país passou por outra mudança histórica.

Uma oportunidade histórica de paz – e negócios

Em 30 de novembro de 2016, após quatro anos de conversas, os dois lados chegaram a um acordo geral de paz, após a rejeição em um referendo anterior e a renegociação de um novo acordo com alterações significativas. Após meio século de confrontos, as FARC e o governo declararam um cessar-fogo e a Colômbia entrou na era pós-conflito ou, pelo menos, pós-acordo de paz. O grupo militante baixou as armas e se transformou em um partido político legítimo. Em 10 de dezembro, o presidente colombiano Juan Manuel Santos fez um discurso comovente em Oslo, na Noruega, ao aceitar o Prêmio Nobel da Paz.

Há muito a ser reconstruído na Colômbia. A reintegração dos soldados das FARC em uma sociedade pacífica será um processo difícil, e ainda há muito ressentimento. Mas o processo começou. Como disse Santos, em seu discurso: “O longamente aguardado processo de implementação já começou, com o apoio inestimável das Nações Unidas. Com este novo acordo, termina o conflito armado mais antigo, e o último, do Hemisfério Ocidental. Com esse acordo, começa o desmantelamento de um exército – neste caso, um exército irregular – e sua conversão em um movimento político legal”.

A paz levou oportunidades muito reais para as elites política e empresarial da Colômbia. Quando as conversas de paz começaram em 2012, Santos embarcou em um “roadshow” em Shanghai, na China, convidando empresas chinesas a investirem na Colômbia como parte da estratégia de “internacionalização” do país. Na véspera do referendo sobre o acordo de paz, o embaixador colombiano na China, Oscar Rueda Garcia, disse em uma entrevista à agência de notícias Xinhua que as mudanças positivas trazidas pelo processo de paz significariam mais oportunidades de investimento e parceria para as empresas chinesas, inclusive na reconstrução das áreas rurais e de conflito.

As empresas chinesas adotaram um otimismo cauteloso quanto às melhorias no ambiente de investimentos colombiano. De acordo com uma análise divulgada pela Câmara Internacional de Comércio da China para o Setor Privado, as áreas de mineração, turismo e agricultura estariam abertas para investimentos, mas as empresas deveriam tomar cuidado com a criminalidade violenta que poderia ocupar o “vácuo” deixado pelas FARC.

Dissidência nas montanhas

Após o trauma do sequestro, a Sinochem finalmente tinha a paz e a oportunidade pelas quais estava esperando. A empresa presenciou mudanças políticas, econômicas e ambientais na Colômbia, tendo atuado no país desde 2009, quando adquiriu a britânica Emerald Energy, cujos ativos estavam localizados principalmente na Colômbia e na Síria. Com a aquisição, a Sinochem ganhou alguns campos petrolíferos na Colômbia, o que tornou o país um fornecedor confiável de petróleo para o grupo. A Colômbia é a terceira maior produtora de petróleo na América do Sul, depois da Venezuela e do Brasil. Em 2013, com a melhora da situação de segurança, a Emerald Energy anunciou a exploração de três novos campos de petróleo em parceria com a petrolífera estatal colombiana. Entre eles, o bloco Nogal, em Caquetá, era considerado de “baixo risco de prospecção, alto potencial de recursos”.

Mas o desenvolvimento de Nogal não foi recebido totalmente de bom grado em Florencia, nem em Caquetá de maneira geral. O bloco de 240.000 hectares fica um pouco ao sul da cidade e ocupa pedaços das regiões amazônicas de Morelia, Milan e Valparaíso. Antes que as perfurações possam oficialmente começar, a Emerald Energy precisa realizar processos de estratificação e prospecção sísmica em uma área de cerca de 20.000 hectares.

Há muita discussão sobre o projeto no vilarejo de Valparaíso. Para chegar ali, é necessário enfrentar três horas em um ônibus rural, para depois finalizar o trajeto de motocicleta sobre ruas acidentadas. Espalhados sobre as amplas, deslumbrantes planícies de montanha, há manchas de floresta intocada, além de gado e cavalos pastando calmamente. Ali, o casal de agricultores Blanca Barragán e Simeón Cortés construiu uma casa simples, de madeira. As árvores em frente estão carregadas de laranjas maduras, enquanto um papagaio azul-safira descansa entre os galhos. Na cozinha, Blanca prepara o jantar e relembra o dia em que foi eletrocutada por uma arraia, enquanto pescava em um rio na floresta.

Os últimos raios do sol de fim de tarde penetram pelas rachaduras nas paredes, iluminando os rostos morenos dos camponeses reunidos ali.

“Somos agricultores, a indústria do petróleo não significará nada para nós”, disse o jovem Rigoberto Valencia, o mais loquaz do grupo. Ele teme que as atividades de prospecção sísmica possam afetar o abastecimento de água local. O fazendeiro Jose Antonio Saldarriaga contou que cria mais de 100 cabeças de gado e planta milho, banana e mandioca na sua fazenda. Lá, há também uma área de floresta intocada, irrigada por um pequeno córrego e uma nascente. “A fazenda é o nosso único ganha-pão.” Efluentes e potenciais vazamentos dos equipamentos de perfuração de petróleo são motivos de preocupação para os camponeses.

A Emerald Energy não ignorou esses receios. Em 2014, a empresa organizou reuniões em Caquetá para informar representantes da comunidade sobre o projeto. A avaliação de impacto ambiental sobre a prospecção em Nogal foi concluída no final do ano passado. O trabalho avaliou o impacto das atividades sobre as águas, florestas, biodiversidade, comunidade e economia locais. De acordo com o documento, haveria apenas “impactos negativos usuais” sobre a qualidade da água.

No entanto, as reuniões não foram suficientes para convencer a população. “Pareceu mais uma palestra unilateral”, reclamou Saldarriaga. Os moradores do vilarejo também criticam algumas das conclusões do relatório, particularmente aquelas referentes a um dos animais ameaçados da região, um macaco conhecido como titi de Caquetá (Callicebus caquetensis). De acordo com o relatório, “apesar de existirem dados demonstrando que o macaco vive nessa região, nenhum foi observado durante o período de avaliação”.

Os moradores acham que isso pode ter sido proposital. “Nós ouvimos [os macacos] nas árvores em nossas fazendas!”, disse Luis Eduardo Ortiz, abrindo a porta e apontando para a floresta. De acordo com Javier Garcia, biólogo da Universidad de la Amazonia e descobridor dessa espécie de primata, o animal é, sim, encontrado ali – e sua vocalização característica pode ser facilmente identificada.

Oposição crescente

Os moradores do vilarejo vivem há muito tempo na sombra do conflito armado, e não são apenas as preocupações ambientais que trazem desconfiança sobre a indústria do petróleo. Antes de 2006, as FARC ocuparam as florestas nas montanhas de Caquetá, e milícias privadas (chamadas de grupos paramilitares na Colômbia) apareceram para combater as guerrilhas. Os combates constantes forçaram muitos habitantes a abandonarem o local.

Eles temem que a chegada das empresas de petróleo coloque fim à paz pela qual tanto esperaram e que o influxo de dinheiro desencadeie um desastre. “As milícias assinaram um acordo com o governo há 10 anos e se desarmaram – mas não completamente. A tentação do dinheiro do petróleo poderá atrair alguns deles de volta ao crime organizado”, disse Yolima Salazar, chefe da área de relações comunitárias da Igreja Católica em Morelia.

Em junho de 2015, os habitantes apreensivos de Valparaíso decidiram intensificar seus esforços, bloqueando a única estrada que leva a um dos pontos de prospecção sísmica, para evitar que a empresa realizasse o trabalho. As tropas de choque foram enviadas ao local e usaram gás lacrimogênio para dispersar os camponeses. Um dos moradores, Juan Pablo Chavez, teve um sangramento grave após ser atingido por uma granada do gás. Muitos outros ficaram feridos. A violência havia retornado ao vilarejo nas montanhas, ainda que por motivos diferentes.

Meditando na Amazônia

Jorge Reinel Pulecio é o chefe do “Departamento de Coordenação de Paz” na Universidad de la Amazonia. O departamento tem como objetivo abordar todas as partes envolvidas no acordo de paz e aproximá-las das áreas de educação e pesquisa, para ajudar a encontrar uma trajetória de avanço para este local devastado pelo conflito. A respeito da controvérsia sobre Nogal, ele disse: “O acordo de paz foi um divisor de águas. Por um lado, os moradores do vilarejo acham que deveriam ter mais direito de serem ouvidos, como prometido no acordo de paz; por outro, o governo e as grandes empresas veem uma chance de reduzir custos”. Antes do cessar-fogo, os custos de segurança e até mesmo o pagamento de resgates eram parte da realidade de fazer negócios nas áreas controladas pelas FARC – um preço que as empresas não precisam mais pagar.

A Sinochem e a comunidade local talvez tenham opiniões divergentes sobre a intensidade real da oposição ao projeto em Nogal. Como signatária do Pacto Global da ONU, uma iniciativa de sustentabilidade corporativa, a Sinochem inclui em seus relatórios anuais de responsabilidade social corporativa as atividades de bem-estar público que a empresa promove na região, entre eles o apoio a capacitações em técnicas de marcenaria tradicionais da região e a construção de estradas. A Emerald Energy também realizou as reuniões de costume para tratar do projeto. Em setembro desse ano, a empresa contratou uma organização externa, o Instituto de la Conversación, para conversar com representantes locais, ONGs e acadêmicos. De acordo com Carlos Ramirez, oficial do governo regional de Caquetá, que presenciou essas conversas, a empresa tem reconhecido o problema que enfrenta quanto à opinião pública negativa.

Apesar de a população local reclamar de algumas das coisas que a Emerald Energy tem feito durante as atividades de prospecção, como iniciar trabalhos sem permissão dos donos das terras, as acusações são de difícil comprovação.

Mas é certo que existem divergências básicas sobre como a borda da região amazônica deveria ser desenvolvida, e isso alimenta a oposição. De acordo com Jesus Alfredo Gomez, de Morelia, existe uma resistência “fundamental” a ter empresas petrolíferas atuando ali.

Enquanto Gomez fala, Hernando Cuellar entra no quintal e presenteia o repórter com uma fruta redonda, de cor dourada. “Esse é o araçá, que só existe na Amazônia.” A polpa era macia e doce, lembrando um pouco uma manga. “A qualidade das frutas aqui é fantástica, mas não podemos transportá-las, então elas apodrecem no chão”, ele disse, apontando para as frutas espalhadas no quintal.

As famílias rurais da região estão ali há várias gerações e têm suas próprias ideias sobre como a área deveria se desenvolver – ideias que são compartilhadas por outros. O controlador financeiro de Caquetá, Eduardo Moya, acredita que o “caráter único” da região amazônica significa que o governo deveria tratá-la de forma diferenciada. Essa característica única provém de um “ambiente mais vulnerável” e de “produtos com alto valor agregado” – valor esse que deriva da preservação do meio ambiente e de métodos sustentáveis de produção. “Café, coca, frutas, até mesmo peixes de água doce – todos esses têm potencial nos mercados internacionais.”

Lá no casebre de madeira em Valparaíso, Rigoberto falou sobre outras oportunidades de desenvolvimento para Caquetá, se não o petróleo. “Precisamos da chance de trazer os nossos produtos para o mercado, precisamos de boas estradas e tecnologias agrícolas.” Ele apontou para a rua de terra que passava em frente à propriedade. “Como podemos competir com os outros?”

Em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz, o presidente Santos disse: “Que bom poder dizer que o fim do conflito na Colômbia – o país mais biodiverso do mundo por quilômetro quadrado – trará importantes dividendos ambientais.”

Mas, em Florencia, muitos estão em dúvida se o governo nacional está realmente se importando com o meio ambiente. O apoio à perfuração de poços de petróleo na Amazônia tem diminuído o brilho dos compromissos ambientais internacionais tão alardeados – como parte do Acordo de Paris, a Colômbia prometeu chegar ao Desmatamento Líquido Zero até 2020. Em 2014, o país também assinou o Desafio de Bonn, de recuperar um milhão de hectares de floresta até 2020, ação que fixaria um total estimado de 90 milhões de toneladas de gás carbônico.

A oposição em Florencia reflete um desafio fundamental enfrentado pela estratégia de investimentos energéticos da China na Colômbia e até mesmo na América Latina como um todo. Kevin Gallagher, especialista em comércio China-América Latina na Universidade de Boston, calculou que 87% dos investimentos feitos por bancos estatais chineses na América Latina foram destinados às áreas de energia, mineração e infraestrutura – com investimentos significativos em combustíveis fósseis. Em comparação, esses setores representam apenas 34% dos investimentos do Banco Mundial.

Na salinha apertada do Departamento de Coordenação de Paz na Universidad de la Amazonia, o professor Pulecio está aflito: “Todos nós sabemos que a China está investindo enormes quantias em uma transição para energias renováveis em casa, e criou inovações incríveis em tecnologia renovável. Se a China vier para a América Latina, para a Colômbia, a Amazônia, apenas para extrair petróleo e recursos naturais, ao invés de ajudar em uma transição semelhante, isso será um grande fracasso”.

Não há um final à vista para o cabo-de-guerra em Nogal e, em lugares como Morelia e Valparaíso, a disputa chegou aos tribunais. Uma representante da Emerald Energy, Juanita Latorre, recusou o pedido de entrevista enviado via e-mail pelo Diálogo Chino.

Não há como saber se os ventos de insatisfação que sopram das montanhas de Caquetá serão sentidos nas salas das diretorias em Bogotá e Pequim.

 

 

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