Polêmicas entre ambientalistas, fazendas de salmão avançam sobre a Patagônia

imagem: Sam Beebe

Polêmicas entre ambientalistas, fazendas de salmão avançam sobre a Patagônia

De olho na crescente demanda global por salmão, o Chile e, agora, a Argentina têm investido na produção do peixe em viveiros mesmo sob denúncias de organizações ambientais de que este modelo de negócio tem impactos importantes na biodiversidade da região da Patagônia.

Parte do interesse dos dois países do Cone Sul no setor se deve ao crescimento do consumo deste peixe na China, o mercado que mais cresceu para o salmão chileno, que duplicou suas exportações para o gigante asiático no primeiro semestre de 2018.

“A China é um mercado muito importante e estamos otimistas com seu crescimento. O consumo está aumentando, e o salmão já é parte de sua dieta. Há tempos esperávamos que isso acontecesse”, afirmou Arturo Clement, presidente do SalmonChile, câmara que agrupa as empresas produtoras do país.

De olho neste mercado, a Argentina começou a realizar estudos de viabilidade para a produção no país, especificamente no Canal de Beagle, na Terra do Fogo. O primeiro passo foi avaliar os lugares potencialmente adequados para a produção, de acordo com informações da Subsecretaria de Pesca e Aquicultura.

Segundo organizações ambientais e especialistas em biodiversidade, tais estudos são mera formalidade, já que o desenvolvimento das fazendas violaria o Convênio de Diversidade Biológica, um acordo internacional firmado por Argentina e Chile, que proíbe a introdução em seu território de espécies exóticas, como o salmão.

“Existem reais possibilidades de que sejam instalados criatórios de salmão, cujo desenvolvimento provocaria danos irreversíveis ao ambiente”, confirmou Alexandra Sapoznikow, coordenadora do Fórum para a Conservação do Mar Patagônico e Áreas de Influência.

Especialistas alertam que não é apenas a saúde dos consumidores estaria em risco com a instalação de fazendas subaquáticas de salmão no mar argentino.  Organismos invertebrados, únicos da região, como corais de água fria e esponjas, também seriam afetados com a introdução da espécie.

No Chile e na Noruega, principais produtores mundiais de salmão, esses peixes são alimentados por rações feitas com farinha de soja –boa parte vai parar no fundo do mar, o que gera excesso de nutrientes e baixa quantidade de oxigênio na água.

Ao mesmo tempo, a diversidade de peixes nativos da zona das fazendas poderia ser alterada: os salmões tendem a escapar das jaulas e, não tendo predadores naturais, alimentam-se de outros peixes, atuando como predadores do mar. O mesmo já ocorreu com as trutas introduzidas nos rios e lagos da Patagônia argentina e chilena há mais de um século.

“O salmão não é uma espécie nativa, e isso traz problemas. Como é carnívoro, devora outras espécies ao seu redor e compete com elas”, apontou Estefanía González, coordenadora de oceanos no Greenpeace Chile. “A Patagônia tem condições geográficas únicas e grande diversidade ambiental. Uma atividade industrial e intensiva de uma espécie exótica não é compatível com essa diversidade”.

Produção chilena

A maior parte do salmão rosado que se come hoje na América Latina provém de fazendas de peixe chilenas. O país do outro lado dos Andes exporta principalmente duas espécies: o salmão salar (mais conhecido como salmão do Atlântico) e o salmão coho (também chamado salmão do Pacífico).

As cifras oficiais indicam que o Chile exporta para o mundo 820.000 toneladas de salmão por ano, o que rende, aproximadamente, US$ 4.700 bilhões. Estados Unidos, Japão, Brasil e Rússia são os maiores destinos dessa exportação, sendo crescente o papel da China, que recebeu 24.000 toneladas na primeira metade de 2018.

“O Chile oferece um salmão mais barato e de pior qualidade que o norueguês. Suas vendas aos mercados mais exigentes, como Estados Unidos, estão caindo, enquanto as exportações para países com regras mais frouxas não param de crescer,” declarou Alex Muñoz, diretor para a América Latina da iniciativa Oceanos Prístinos, da National Geographic.

Diversas práticas utilizadas na produção de salmão são frequentemente questionadas por especialistas. Por exemplo, as jaulas de produção estão rodeadas de redes pintadas com metais pesados, como o cobre, para evitar que organismos marinhos grudem nelas. Tais substâncias são altamente tóxicas e danosas para a biodiversidade.

São utilizados corantes para que a carne do salmão seja rosada, já que, na verdade, ao ser produzido de maneira industrial, a carne do peixe fica de cor branca. O salmão selvagem se alimenta de camarões e caranguejos e isso é o que lhe dá sua cor particular.

“Cada jaula pode ter entre 30 e 50 mil exemplares de salmão que, ao defecar diariamente, contaminam o fundo marinho. As fezes se decompõem e produzem nitrogênio e oxigênio, que alteram a água e favorecem a proliferação de algas tóxicas,” explicou Juan Carlos Cárdenas, diretor da ONG chilena Ecoceanos.

Consumo de antibióticos

A produção industrial de salmão pode significar problemas para a biodiversidade e, também, para os consumidores, expostos aos altos níveis de antibióticos utilizados.

O Chile usa 700 vezes mais antibióticos que a Noruega, que produz o dobro de peixes com a metade dessa quantidade. A cifra mais recente é de 2016, quando o país do Cone Sul consumiu 382 mil quilos das mais diversas substâncias antibióticas. As empresas produtoras não divulgam esses valores, razão pela qual as organizações ambientalistas recorrerem à Justiça para obtê-los.

De acordo com a câmara salmoneira chilena, o salmão chega aos consumidores sem antibióticos, que são usados como promotores de crescimento e não de maneira preventiva.

O produtor deve respeitar um período de carência, ou seja, deixar passar um tempo para que o peixe metabolize o químico e o elimine de seu corpo. Mas isto não acontece em todos os casos. Is antibióticos consumidos por humanos através da carne do salmão podem gerar resistência aos medicamentos.

É por isso que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) pediram às empresas que utilizem antibióticos de maneira responsável.

“É usada uma quantidade exorbitante de antibióticos e não há regras que controlem seu uso. A indústria dá antibióticos a salmões sadios para evitar que adoeçam.

Além disso, há problemas de fiscalização e controle que assegurem o respeito ao período de carência”, revelou Cárdenas, da ONG chilena Oceanos. Ele adverte: “O consumidor não sabe o que está comendo”.

Enquanto na Argentina as portas são abertas, em outras regiões e em nível global, a intenção é restringir a produção de salmão, por causa do impacto gerado por essa indústria.

Ao mesmo tempo, o uso indiscriminado de antibióticos na linha de produção chilena fez grandes cadeias de supermercado dos Estados Unidos e Canadá recusarem o salmão criado no país.

“A Patagônia argentina é um dos últimos ecossistemas selvagens e prístinos do mundo. O país cometeria um erro histórico se desenvolvesse a salmonicultura. É uma espécie exótica e invasora que gera um problema ambiental difícil de resolver”, concluiu Muñoz, da National Geographic.

 

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