Por que precisamos comer menos carne para salvar o planeta

Na media, brasileiros comem duas vezes e meia mais carne vermelha que o resto do mundo (image: cookiespi/ Flickr)

Por que precisamos comer menos carne para salvar o planeta

Eu penso nos meus amigos, eles sempre fazem churrasco. Seria difícil. Todo mundo te convida para o churrasco, você precisa ter carne. Como você vai fazer churrasco sem carne?

Esta foi a resposta de um homem de São Paulo, ao participar de um grupo de discussão promovido pela Universidade de Glasgow e pela Chatham House para explorar as atitudes da população quanto à redução do consumo de carne para ajudar a evitar mudanças climáticas perigosas. Grupos similares também foram realizados no Reino Unido, nos Estados Unidos e na China, paralelamente a uma pesquisa online abrangendo 12 países. Em todos os lugares, descobriu-se que muitas pessoas não conhecem a ligação entre dieta e clima. Além disso, existem fortes barreiras sociais à redução do consumo de carne.

Os brasileiros se posicionam consideravelmente acima da média internacional no que diz respeito à consciência ambiental – eles têm um conhecimento especialmente bom sobre a questão do desmatamento, tema que faz parte da vivência da população. No entanto, o impacto da produção de carnes e laticínios sobre a mudança no clima não faz parte da agenda pública: assim como nos outros países pesquisados, existe um baixo nível de conhecimento em geral e um alto grau de confusão.

Os grupos de discussão compõem parte de um novo relatório, publicado hoje, pedindo que os governos se esforcem mais para sensibilizar a população sobre a importância da mudança de dieta para reduzir as emissões globais de dióxido de carbono. O setor pecuário é responsável por 15% das emissões no mundo – o mesmo que a fumaça emitida por todos os tipos de veículos. Mesmo assim, os governos colocam pouquíssima ênfase na mudança da dieta ao falar de soluções para as mudanças climáticas – por medo da repercussão negativa ao tentarem ditar o que as pessoas comem.

No entanto, um dos resultados marcantes apresentados no relatório é que, apesar de muitas pessoas serem apegadas à ideia de comer carne e desconfiarem de intervenções governamentais (especialmente nos preços), coletivamente, elas querem e esperam orientações de seus líderes políticos e não mudarão seus comportamentos se não as receberem. Muitos dos participantes, inclusive no Brasil, disseram que se o governo chegar a introduzir novas políticas para incentivar uma mudança de dieta, a resistência inicial perderia força – assim como aconteceu com outras intervenções sobre a saúde pública, como as restrições ao fumo.

O consumo de carne per capita global já é maior do que os níveis recomendados e deverá aumentar em 76% até 2050. Isto é insustentável e ameaça a nossa saúde, além do planeta. No Brasil, a maioria das pessoas – ricas e pobres – come carne vermelha todos os dias. Ela representa cerca de 11% do consumo total de calorias nos grupos de menor renda, e cerca de 13% nas classes socioeconômicas mais altas. Em média, os brasileiros comem duas e meia vezes mais carne do que a quantidade considerada saudável pelos especialistas, que recomendam um consumo não maior do que 70g de carne vermelha ou processada por dia – mais ou menos a quantidade presente em um hambúrguer pequeno.

O consumo excessivo está associado a uma carga cada vez maior de doenças não transmissíveis, além da obesidade e a exaustão dos recursos naturais. A obesidade no Brasil vem crescendo a uma taxa de cerca de 0,7% ao ano, ou dois milhões de novos obesos por ano. Em 11 ou 12 anos, os níveis de obesidade no país devem chegar aos vistos atualmente nos Estados Unidos, onde o consumo de carne per capita é mais de três vezes maior do que o recomendado.

Veja também: Why the traditional Chinese diet offers lessons to a warming world

Os efeitos ambientais negativos da pecuária no Brasil também são significativos. A abertura de novos pastos leva ao desmatamento e à degradação do solo, enquanto o uso de terras aráveis para o cultivo de grãos utilizados na alimentação dos animais, como soja, está ameaçando a biodiversidade na Amazônia e no Cerrado. A produção intensiva de soja exige quantidades significativas de insumos, como terras, água e energia. Os resíduos gerados pelo gado, pela produção de grãos e pelas atividades de processamento ligadas a ambos os setores contaminam os reservatórios de água e geram emissões de óxido nitroso, um gás particularmente potente do efeito estufa.

A conclusão importante – ainda que não palatável – do relatório é que, manter as mudanças climáticas dentro de limites seguros será impossível se o nosso consumo de carne não for reduzido. Isto não significa que todos devam se tornar vegetarianos. A adoção de uma dieta saudável, com alto teor de alimentos de origem vegetal e pouquíssimos alimentos processados, já é preconizada pelo novo Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado no ano passado.

Se forem cumpridos os compromissos encaminhados pelos países para a conferência da ONU sobre mudança climática, a ser realizada em Paris, o mundo avançará rumo a um aumento mínimo de 2.7 graus na temperatura global, o que ameaçaria o futuro da nossa espécie. Por si só, a mudança de dieta já poderia gerar um quarto das reduções necessárias para manter o aquecimento abaixo do nível perigoso, de 2 graus Celsius.

Os governos precisam quebrar o ciclo de inércia e incentivar as pessoas a comerem menos carne. Para isto, eles enfrentarão grandes desafios, devendo implantar uma ampla gama de políticas para impulsionar a mudança. Campanhas de alerta sobre os riscos à saúde provavelmente funcionarão melhor do que aquelas focadas exclusivamente no meio ambiente. No entanto, também seriam necessárias políticas mais intervencionistas, como restrições à publicidade e um “imposto do carbono” sobre a carne: elas serão impopulares, mas eficazes. Em última instância, é injustificável e perigoso presumir que mudar a dieta seja difícil demais. Algo pode – e deve – ser feito.

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