Setor privado discute economia de baixo carbono

Acordo global sobre clima será decidido em Paris, na COP21, em dezembro (image: Moyan Brenn )

Setor privado discute economia de baixo carbono

A iminência de um acordo global que limite as emissões de gases estufa na próxima Conferência do Clima agita o setor privado na América Latina. Vem dessa ala a maioria dos participantes do Fórum Latino-Americano de Carbono, sediado em Santiago do Chile até 11 de setembro.

“O mundo vai ser muito distinto depois do que acontecer em Paris. E as empresas querem a maior quantidade possível de informação já disponível”, explica Eduardo Sanhueza, consultor da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL), uma das organizadoras do evento.

Enquanto os governos trabalham para finalizar um plano nacional de redução das emissões, ou Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida (INDC, na sigla em inglês), diversos setores da economia participam do Fórum para acompanhar as discussões sobre desenvolvimento de baixo carbono e suas consequências para os negócios.

“Antes de uma grande COP, como essa que ocorrerá em Paris, há sempre muita coisa acontecendo nos níveis nacional e regional. É quando os setores público e privado buscam mais informações e formam suas opiniões. Acreditamos que o Fórum ajude a fortalecer posições em alguns itens. E ajude a chamar a atenção para o problema, o desafio de lidar com as mudanças climáticas e seus impactos”, argumenta Neeraj Prasad, do Climate
Change Practice Manager do Banco Mundial.

Segundo Prasad, que coordena o setor de difusão de informação e parcerias na área de Mudanças Climáticas, o Fórum não é um ambiente de tomada de decisões que influenciam as negociações em Paris. “Nós ajudamos principalmente o setor privado a entender o que os governos estão tentando implementar em termos de políticas voltadas para combater as mudanças climáticas”, complementa.

De olho no INDC

Uma das principais preocupações do setor privado é entender como os governos agirão para cumprir o corte de emissão prometido no INDC. Será a primeira vez que países em desenvolvimento assumirão o compromisso de continuar expandindo a economia limitando a carga de carbono despejada na atmosfera. Para cumprir a meta assumida pelos governos, diversos setores da indústria – como energia, mineração, siderurgia e transporte poderão enfrentar ajustes em suas produções.

“Isso vai significar que você tem um compromisso com a forma com que vai se desenvolver nos próximos anos. O mundo inteiro vai ver. A imagem de um país que não cumprir o prometido pode ser arruinada. E no mundo dos negócios, essa imagem é muito importante”, exemplifica Eduardo Sanhueza, que também atua como negociador do governo chileno nas conferências climáticas.

Mudança de foco

O Fórum Latino-Americano de Carbono nasceu em 2006, época em que o mercado mundial de créditos de carbono era bastante ativo. Naquele tempo, o objetivo do encontro se restringia à promoção de transações na área e discussão de metodologias de contagem de carbono, por exemplo.

Com o declínio do mercado nos últimos quatro anos, o Fórum se viu obrigado a ajustar o foco e passou, então, a concentrar o debate na criação de novas políticas de desenvolvimento limpo, troca de tecnologias e oportunidade de financiamento disponível para projetos que promovam a economia de baixo carbono.

“O perfil dos participantes inclui aqueles que buscam oportunidade para investir na América Latina usando um modelo de desenvolvimento limpo. Também existem aqueles que buscam informações sobre tecnologias, ou financiamento, para deixar sua produção mais limpa, mais eficiente em termos de energia”, diz Prasad sobre a mudança de perfil do evento.

Além da versão latino-americana, fóruns regionais semelhantes acontecem anualmente na África e Ásia, além da edição global sediada na Europa.

Acesso a financiamento

O encontro em Santiago também pode ser visto como uma oportunidade de bons negócios. “Várias instituições financeiras presentes permitem a mobilização de recursos para a revolução tecnológica que precisamos”, ressalta Sanhueza.

A presença de instituições financeiras, como o Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) são estratégicas: elas são a principal fonte de financiamento dos países-membros que buscam recursos para projetos de adaptação aos impactos das mudanças climáticas e redução de gases estufa. O BID, por exemplo, afirma que 25% dos empréstimos do banco apoiam operações do tipo.

Na América Latina, as fontes de energia renovável têm um grande potencial para levar a região rumo a um desenvolvimento de baixo carbono. A maior planta de energia solar latino-americana, por exemplo, foi financiada por uma instituição financeira do grupo do Banco Mundial no deserto do Atacama, no Chile.

Economia por todos os lados

Na semana do Fórum Latino-Americano de Carbono, um estudo lançado pela New Climate Economy mostrou que o investimento em tecnologias de baixo carbono pode significar uma economia global de US$ 17 trilhões até 2050. A mudança para meios de transporte mais limpo, construções eficientes em termos energéticos e manejo de resíduos significaria uma redução de 3,6 gigatoneladas de CO2 por ano até 2030 – mais do que o total emitido pela Índia.

As medidas seriam especialmente indicadas para cidades de países em desenvolvimento. “Os investimentos em infraestrutura feitos nesses centros nas próximas décadas levarão o mundo a um caminho de baixa ou alta emissão de carbono. As atmosferas política e de financiamento precisam mudar de modo significativo para que as cidades sigam um desenvolvimento de baixo carbono”, recomenda o estudo.

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