Argentina sofre as consequências da expansão agropecuária

A insustentabilidade ambiental e econômica do modelo de agroexportação de Macri contribuiu para a mais recente crise da Argentina

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Argentina's soy and beef exports have hurt the environment

O boom da soja e da carne bovina na Argentina pode ter consequências devastadoras a longo prazo para a economia e o meio ambiente (imagem: Jorge Royan)

Após quatro anos, o presidente Mauricio Macri está finalizando seu mandato na Argentina em meio a uma grave crise econômica, tendo promovido um modelo agroexportador centrado em soja e carne, com visíveis consequências ambientais.

A produção agrícola em níveis recorde e o boom da carne argentina na China levaram à perda de matas nativas, à degradação acelerada dos solos e à contaminação da água, entre outras consequências do que especialistas chamam de “mau desenvolvimento”.

O setor agropecuário foi um dos mais beneficiados por Macri. O governo reduziu, e em muitos casos eliminou, os impostos e autorizações para exportação, cancelou restrições cambiárias, desvalorizou o peso argentino e fortaleceu o Ministério da Agricultura, mudando seu nome para Ministério da Agroindústria.

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Exportações argentinas de carne bovina em 2018 para a China em toneladas

A boa relação de Macri com o setor contrasta com a postura de enfrentamento mantida pela ex-presidente Cristina Fernández de Kirshner. No entanto, a exportação de produtos agropecuários também se expandiu durante o mandato de Kirshner, devido aos preços recorde das mercadorias.

Os efeitos das políticas de Macri são evidentes. As exportações de trigo triplicaram, a soja começou a aportar cerca de um terço dos dólares gerados por meio de exportações, e as vendas de carne bovina ao exterior alcançaram um nível recorde em 2018, superando meio milhão de toneladas. A China foi o principal destino da carne.

É um modelo muito negativo, porque não há como conciliar biodiversidade e agricultura

Ainda assim, esse estímulo à agroindústria não levou em conta os fortes impactos negativos do modelo agropecuário sobre o meio ambiente, afirmam especialistas.

“Na Argentina, parece que não havia outra opção além de sementes transgênicas, agroquímicos e a fumigação de comunidades com glifosato”, afirma Enrique Viale, advogado especializado em direito ambiental.

“É evidente que Macri deu estímulos ao agronegócio. Enfraqueceu a industrialização do país com aumentos de tarifas e impostos, e promoveu um modelo agroexportador que atrasa o país em cem anos e que tem a agroindústria como única fonte de renda e desenvolvimento”, acrescenta Viale.

Gabriel Arisnabarreta, engenheiro agrônomo e produtor agroecológico do grupo Ecos de Saladillo, concorda: “No governo de Macri houve um aprofundamento muito claro de tudo que é agronegócio; transformou-se a Argentina num país exportador de matéria-prima barata, sem levar em contas as consequências”.

Ao mesmo tempo, María Eugenia Periago, coordenadora dos programas Pampa y Gran Chaco da Fundação Vida Silvestre Argentina, ressalta a necessidade de um ordenamento ambiental territorial, que organizaria os ecossistemas e a produção agrícola.

“Na região dos pampas, 80% dos ecossistemas naturais já foram afetados. Restam apenas 20% que não são aptos para a agricultura”, exemplifica ela.

Periago enumera as consequências sociais e ambientais de um modelo que não contempla o ordenamento territorial na Argentina: “Desmatamento, perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos, perda de conexão entre diferentes áreas, ambientes fragmentados e deslocamentos de populações. É um modelo muito negativo porque não há maneira de conciliar biodiversidade e agricultura”, resume.

Desmatamento e conflitos

A expansão da fronteira agropecuária tem correlação direta com o desmatamento, que durante o governo Macri superou os 150.000 hectares anuais. Mais de um terço afetou matas nativas protegidas pela Lei de Florestas, segundo relatórios da secretaria de Ambiente.

Mais de 80% do desmatamento total de 2018 ocorreu no nordeste da Argentina, segundo um relatório do Greenpeace. A província mais afetada foi Santiago del Estero, com 34.751 hectares desmatados, dos quais 23.910 eram florestas protegidas.

“A fronteira agropecuária foi avançando a custo de um violentíssimo desmatamento. Isso significou a eliminação de comunidades que viviam nessas matas. Houve expulsão e assassinatos de camponeses que defendiam seu território e um êxodo de pequenos produtores, que deixaram o campo”, descreve Arisnabarreta.

A expansão da agricultura e o aumento da produção levou também a uma maior extração de nutrientes do solo. Sem uma reposição adequada dessas substâncias, o esgotamento dos solos se acelerou, com graves consequências para o meio ambiente e para a atividade produtiva.

Chegará um momento em que os países compradores medirão nossa pegada de carbono

Hernán Sainz Rozas, pesquisador do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), relata que sucessivos levantamentos realizados desde 2005 mostraram que a matéria orgânica dos solos agrícolas diminuiu.

“Se comparamos um solo virgem com um solo usado na agricultura, estamos falando de perdas de matéria orgânica — um indicador-chave da saúde do solo — de entre 30% e 50%”, explica.

Além disso, acrescenta o pesquisador, junto com o aumento do cultivo de soja houve também uma diminuição em um terço dos níveis de fósforo no solo, comparado com os níveis de 30 anos atrás. “Os produtores não repõem o que as plantações consomem”, explica.

No último estudo, realizado em 2018, viu-se uma queda geral em todos os nutrientes, conta Sainz Rozas. A maior surpresa foi a acidificação acelerada dos solos, com valores limitantes para alguns deles.

“Os plantios tiveram rendimentos mais altos, mas não repuseram os nutrientes em igual proporção”, avalia o especialista, acrescentando: “As tendências indicam que, por exemplo, dentro de quatro ou cindo anos em Entre Ríos vai haver uma alta porcentagem de solos com valores de nutrientes inferiores ao que as plantações requerem”.

A isso se soma um problema associado ao uso de fertilizantes orgânicos. A sua aplicação é aconselhada para que o plantio não dependa de fertilizantes sintéticos e para reciclar nutrientes. Porém, quando utilizada em excesso, a versão orgânica tem impactos muito negativos no meio ambiente e nas comunidades.

“Nos cinturões hortícolas e nas regiões próximas, como é o caso de Mar del Plata, aplica-se fertilizante orgânico em excesso, que se torna fonte de contaminação. Há muitas regiões onde os lençóis freáticos apresentam níveis de nitratos muito acima do recomendado, o que pode ser prejudicial para a saúde da população”, adverte o especialista.

Crise climática

A agricultura é uma atividade econômica altamente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas. Evidências científicas preveem na Argentina uma maior frequência e intensidade de eventos climáticos como chuvas e secas.

Ao mesmo tempo, 40% dos gases responsáveis pelas mudanças climáticas na Argentina são gerados pela agricultura, pecuária, silvicultura e outros usos da terra, segundo um estudo recente.

Especialistas garantem que serão necessárias ações de adaptação para adequar a produção a novos cenários meteorológicos, além de medidas de mitigação para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

“Vai chegar um momento em que os países compradores vão medir nossa pegada de carbono”, estima Sainz Rozas.

No marco do Acordo de Paris, a Argentina se comprometeu a reduzir 18% de suas emissões de dióxido de carbono de maneira incondicional até 2030, uma porcentagem que poderia aumentar para 37% no caso de que o país consiga financiamento internacional.

O futuro já demanda mudanças

Especialistas concordam que todos esses impactos negativos limitarão o próprio modelo agroexportador no futuro. Serão necessárias políticas e práticas mais sustentáveis para manter a rentabilidade.

“A Argentina era — e ainda é — muito competitiva porque seus solos eram muito férteis, mas a competitividade futura está ameaçada: a rentabilidade vai ser menor porque vamos ter que gastar mais para fertilizar nossos solos”, antecipa Sainz Rozas, do INTA.

Da mesma maneira, Periago vislumbra um futuro no qual os países compradores exercerão um poder de polícia e de comprador. “A União Europeia vai exigir critérios ambientais mais altos para que suas redes de fornecimento não tenham ligação com o desmatamento”, argumenta.

“No caso da China, que muitas vezes é vista como um monstro que não se importa com sustentabilidade, há um acordo de 64 frigoríficos que querem começar a analisar sua rede de fornecedores: de onde vem a soja com que eles alimentam o gado e de onde vem o gado que importam”, explica.

No último congresso da Associação Argentina de Produtores de Plantio Direto (Aapresid), conta Arisnabarreta, alguém disse que seria necessário adaptar a produção agrícola “porque os países do primeiro mundo estavam exigindo cada vez menos resíduos de agrotóxicos”.

Modelo de mau desenvolvimento

Viale critica o conceito hegemônico de desenvolvimento, ao que chama de “mau desenvolvimento”. Esse conceito, afirma o advogado, se caracteriza por “um modelo que provoca o deslocamento de comunidades indígenas, gera uma grande degradação ambiental e também sociocultural, não permite o desenvolvimento de economias regionais, expulsa gente do campo para a cidade e gera poluição e deterioração institucional”.

“As relações do agronegócio com o poder obscurecem as regras democráticas; a democracia se enfraquece e quem resiste ao sistema e tenta outras coisas, é perseguido”, afirma.

Nesse sentido, Viale assegura que “temos que apostar em outras maneiras de produzir alimentos saudáveis, seguros e baratos, que gerem mão de obra e o retorno da população ao campo. Esse é o grande desafio do país”, conclui.