Bolsonaro se elege no Brasil com retórica hostil à China

Mas analistas preveem que pragmatismo deve substituir discurso de campanha

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Eleitores comemoram logo que o resultado de que o candidato teve 55% dos votos foi anunciado. Imagem: Nícolas Chidem

Durante a campanha presidencial brasileira deste ano, as privatizações prometidas pelo candidato Jair Bolsonaro – que derrotou o candidato esquerdista Fernando Haddad no segundo turno das eleições de domingo – foram um dos projetos mais animadores para o mercado financeiro. Seriam 100 estatais vendidas, segundo o candidato alardeava em setembro.

Mas três dias depois do primeiro turno das eleições, no início de outubro, veio um balde de água fria. Em entrevista a uma rede de televisão, Bolsonaro rechaçou uma das privatizações mais esperadas pelo mercado, a da Eletrobras, empresa estatal de energia. Segundo o presidenciável, a geração de energia é estratégica para o Brasil. E ele não quer os bens nacionais nas mãos erradas.

“Quando você vai privatizar, você vai privatizar para qualquer capital do mundo?,” Bolsonaro indagou durante a entrevista. “A China não está comprando no Brasil, ela está comprando o Brasil. Você vai deixar o Brasil na mão do chinês?”

A contradição entre a política econômica liberal prometida por Bolsonaro e sua postura nacionalista tem causado apreensão – principalmente entre os chineses, maiores parceiros comerciais do Brasil.

Bolsonaro se proclamou anticomunista, sugeriu que os investimentos chineses ameaçavam a soberania do país, e ainda foi visitar Taiwan, com cujo governo a China tem uma disputa em relação à sua independência. Por outro lado, demonstrou vontade inconteste de se aproximar dos Estados Unidos, que este ano iniciou uma guerra comercial de graves consequências contra a China.

No domingo passado, os eleitores brasileiros confirmaram sua preferência pelo capitão reformado do exército Jair Bolsonaro, candidato da extrema direita. Dedicaram a ele 55% dos votos. Mas sua vitória criou uma incógnita sobre o futuro das relações entre China e Brasil.

Críticas ferozes à China não tem sido incomuns nas eleições regionais. O agora presidente Maurício Macri as fez em 2015, quando chegou a escrever uma carta para autoridades chinesas dizendo que os acordos entre Argentina e China talvez fossem inconstitucionais. No Chile, em 2017, Sebastián Piñera seguiu o mesmo roteiro, dizendo que a “a presença política forte da China na América Latina não [era] boa.”

Ambos voltaram atrás. A avalanche de investimentos chineses no continente e uma crescente dependência comercial falaram mais alto.

Não importa o que Jair Bolsonaro disse na campanha, eu acho que ele vai adotar uma política amigável com a China.

“Acredito que, uma vez no governo, o enfoque do Bolsonaro seria mais pragmático”, disse Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “Mas é um cenário que tem preocupado bastante os chineses. Bolsonaro é uma incógnita”.

Hu Xijin, editor-chefe da edição chinesa do jornal Global Times também se mostrou descrente de uma guinada anti-China na política externa brasileira.

“Não importa o que Jair Bolsonaro disse na campanha, eu acho que ele vai adotar uma política amigável com a China”, ele escreveu no Twitter. “Caprichos no estilo Trump na política para a China não se alinham aos interesses de seu governo”.

Investimentos chineses no Brasil

Bolsonaro e seus aliados costumam repetir que a China está tentando comprar o Brasil, não comprar do Brasil. Afinal a China não é apenas o maior destino para as exportações brasileiras – posição que ocupam desde 2009 – mas é também quem mais investe no Brasil.

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Ano passado, a China investiu 20,9 bilhões de dólares no Brasil

Ano passado, a China investiu 20,9 bilhões de dólares no Brasil – o maior valor dos últimos sete anos. Os investimentos incluíram, em grande parte, bens na área energética, como a distribuidora de energia CPFL. Com isso a estatal chinesa State Grid se tornou a maior distribuidora de energia elétrica do Brasil.

O país também investe em outras áreas estratégicas para a economia brasileira, como o agronegócio e a infraestrutura necessária para exportar seus produtos.

Faz sentido questionar se o investimento chinês é a melhor forma de atender aos interesses do Brasil no cenário mundial, diz Alexandre Uehara, professor do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). As críticas, no entanto, não têm sido construtivas para a reformulação da política econômica brasileira.

“É leviano dizer que ‘eu não gosto da China’, como no caso da área elétrica. Não é assim”, diz Uehara. “Da maneira como se coloca, a China aparece como grande vilã dos problemas do Brasil”.

As relações entre Brasil e China são uma das políticas externas mais duradouras do Brasil. Iniciada pelo presidente militar Ernesto Geisel durante a ditadura, nos anos 1970, a relação tem se tornado cada vez mais forte, ao longo dos anos. Seus pontos mais altos se deram durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), quando Brasil e China se juntaram para criar os Brics junto com a Índia, a Rússia e a África do Sul.

Através dos últimos anos, o estreitamento das relações entre os dois países coincidiu com o fortalecimento do agronegócio brasileiro, que agora vende para um mercado insaciável, e com o enfraquecimento da indústria, prejudicada pela concorrência chinesa – entre outros fatores.

Bolsonaro venceu eleições marcadas por forte rejeição do eleitorado ao governo do PT, cujo candidato, Haddad, ficou em segundo lugar.

Provocações

O crescimento da importância da China para o Brasil nos anos 2000 foi rápido, e causou preocupação entre nacionalistas, principalmente os militares, grupo próximo a Bolsonaro.

“A ideia de que você vai ter setores estratégicos da economia brasileira controlados por estrangeiros, ainda mais um regime como o da China, que, por ser nominalmente, um partido comunista, um governo comunista, sempre provoca algum tipo de reação nas Forças Armadas,” explica Santoro. “Ainda tem um pouco essa visão da Guerra Fria.”

Talvez por isso, Bolsonaro não tenha poupado provocações durante a campanha. Em fevereiro fez um tour entre Coreia do Sul e Japão, dois países com relações complexas com a China, e terminou em Taiwan, cujo governo se diz independente por mais que seu território seria considerado parte da China pelo governo chinês.

A viagem foi planejada pelo deputado federal Onyx Lorenzoni, seu provável ministro da Casa Civil.  Segundo Lorenzoni, o motivo da viagem foi explorar a experiência na área de educação de Taiwan. Mas a mensagem não foi entendida assim pelos chineses.

A embaixada da China no Brasil encaminhou uma carta desaforada para o partido de Lorenzoni, em que classificava a visita como uma “violação do Princípio de Uma Só China, consenso amplo da comunidade internacional e uma política explicitamente defendida pelo governo e congresso brasileiro.”

Aproximação dos Estados Unidos preocupa

Em outubro de 2017, Bolsonaro chamou atenção dos nacionalistas brasileiros, por outro motivo. Bateu continência para a bandeira americana em visita a Miami nos Estados Unidos.

“O Trump serve de exemplo para mim,” Bolsonaro disse a uma plateia nos Estados Unidos, durante visita a outra cidade na mesma viagem. “Sei da distância minha para o Trump, mas pretendo me aproximar dele para o bem do Brasil e dos Estados Unidos.”

Se um conflito com os chineses ainda parece improvável, apesar das falas de Bolsonaro, uma aproximação dos Estados Unidos parece certa. O país deixou de ser o maior parceiro comercial do Brasil em 2009, desbancado pela China.

Analistas conjecturam se os dois poderiam criar uma espécie de aliança direitista na região. Uma aproximação com o Brasil poderia ser importante para Trump, que se viu isolado da comunidade internacional durante sua presidência.

“As cúpulas do G7 (sete maiores economias do mundo) tem dado origem a todo tipo de foto constrangedora,” lembra Santoro. “Você vê que nitidamente as pessoas ali estão embaraçadas pelo convívio com o Trump.”

Mas não só por isso. Desde o início do ano, os Estados Unidos sob Trump vem travando uma guerra comercial de grandes proporções contra a China. O Brasil já começou a lucrar com ela, vendendo ainda mais para a China. Mas, alinhar-se aos Estados Unidos, neste contexto, pode significar um recrudescimento nas relações entre o Brasil e a China.

Não apenas em questões comerciais.

Brasil e China têm sido aliados também na diplomacia internacional. No ano passado, por exemplo, os dois países usaram o Grupo Basic, que integram junto com África do Sul e Índia, para fazer uma espécie de resistência aos prejuízos causados pela saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris.

Mas Bolsonaro enviou sinais trocados sobre o acordo. Disse que não sairia dele, mas discordou dos comprometimentos do Brasil, como a preservação da Amazônia.

Pragmatismo deve prevalecer

Apesar das hostilidades, analistas preveem que o novo governo tenda a continuar a boa relação do Brasil com a China. As razões são pragmáticas. Para se eleger, Bolsonaro teve apoio de mais de duzentos deputados da frente ruralista, que reúne parlamentares defensores do agronegócio, pesadamente dependentes de exportações para chineses.

Portanto, qualquer briga com a China afetaria diretamente a base de apoio do futuro governo Bolsonaro.

“Os Estados Unidos têm cacife para uma briga. É a maior economia do mundo”, explica Uehara, da ESPM. “Não é o caso do Brasil”.

Aliados de Bolsonaro com quem Diálogo Chino conversou nos últimos dias já falam em aproximações com a China, e reuniões com representantes chineses.

Em seu editorial de ontem, o jornal China Daily destacou a vontade dos chineses em estabelecer boas relações com o novo governo.

“Nós nutrimos a sincera esperança de que, a partir do momento em que ele assuma a liderança da oitava maior economia do mundo, Bolsonaro direcione um olhar racional e objetivo ao estado das relações da China com o Brasil”, dizia um trecho.

Vale lembrar que Piñera demorou apenas um dia, depois de eleito, para fazer as pazes com o país parceiro.

“Todos nós sabemos que a China é o principal parceiro comercial do Chile e que nós vamos fortalecer esse relacionamento,” ele disse na época.

Resta saber se, e quando, Bolsonaro fará o mesmo.