Árvore chinesa é ‘planta non grata’ na Colômbia

Popular entre paisagistas, kiri japonês é considerado ameaça por cientistas e autoridades

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chinese empress tree

Paulownia tomentosa (imagem: Linda de Volder)

As abundantes flores de coloração violeta e um aroma delicado elevaram a árvore-princesa ou o kiri japonês, originária da China, à condição de favorita entre jardineiros e paisagistas. Mas cientistas e autoridades na América Latina estão assustados com a novidade, e consideram a planta uma verdadeira ameaça ao meio ambiente local.

Há uma semana a Colômbia recomendou que se declarasse esta frondosa árvore, com o nome científico de Paulownia tomentosa, como de “alto risco de invasão”. Ainda são poucos os espécimes plantados no país, mas a decisão preventiva já gera preocupação em agricultores que a cultivam para a indústria madeireira.

A longa vida da árvore-princesa

Os cientistas colombianos temem que o kiri japonês seja uma potente bomba de efeito retardado. A árvore cresce com impressionante rapidez, produz milhares de sementes que se dispersam ao vento, e seus galhos podem reproduzir novas árvores, além de brotarem com facilidade depois de um incêndio.

As vantagens a transformam em uma espécie incomum, que prolifera em territórios alterados como pastos e margens de rios. Mas isso também significa que a árvore-princesa é uma planta muito difícil de ser controlada.

Há dois meses, o Comitê Nacional de Espécies Exóticas Invasoras do governo colombiano, responsável por avaliar os riscos das espécies não nativas que chegam a este que é o segundo país com maior biodiversidade do mundo, concluiu que é melhor evitar sua proliferação para não lamentar depois.

O Ministério do Meio Ambiente adotou a recomendação do comitê depois que três de seus integrantes – dois institutos científicos estatais e a maior universidade pública do país – apresentaram recomendações técnicas alertando sobre a árvore de folhas pilosas em forma de coração e cuja fruta é uma cápsula ovalada que dispara milhares de minúsculas sementes voadoras.

Ainda não existem notícias de grandes populações selvagens ou cultivos do kiri japonês na Colômbia, diferente do Brasil, Argentina e Paraguai, onde foi introduzido na década de 1950. Mas o governo colombiano optou pela cautela. As advertências mais contundentes vêm dos Estados Unidos, onde –depois de ser introduzida em meados do século XIX- a árvore é considerada hoje uma espécie invasora em doze estados.

“É triste detectar os efeitos das espécies invasoras quando já ocorreram”, diz a ecologista Carolina Castellanos, uma das cientistas do Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt, que avaliou o risco do kiri. “O ideal é pensar de modo preventivo, para evitar que aconteçam.”

Após analisar a informação científica disponível em outros países, o Humboldt concluiu que esta árvore – que começa a ser encontrada em cultivos florestais na Colômbia e cujas sementes são vendidas livremente na internet  – representa um risco significativo para o país.

“O princípio deve ser a precaução: se a espécie possui características biológicas que fazem dela uma invasora, como a rapidez de sua estratégia reprodutiva, é recomendável tratá-la com mais cuidado”, explica Dairon Cárdenas, pesquisador do herbário do Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas Sinchi e um dos botânicos mais reconhecidos do país. Seu instituto, o mais importante da Amazônia, respaldou outra opinião da Universidade Nacional no mesmo sentido.

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Por su flor lila fragante, el árbol kiri se convirtió en un favorito de jardines. Imagen: Matthew Beziat

A luta contra as espécies invasoras

Há uma década, a Colômbia vem tentando controlar as espécies invasoras que mais causam estragos nas florestas e mares do país, incluindo o peixe-leão, a formiga-louca, o caramujo-gigante-africano, a rã-touro-americana e o camarão-tigre-gigante.

“Muitas vezes acreditamos que introduzir uma espécie de fora é uma boa ideia, mas temos antes que mensurar quais são seus potenciais efeitos negativos e o que pode ocorrer se prosperam. Devemos refletir sobre a capacidade que possuímos, como país, para lidar com espécies exóticas”, ressaltou María Piedad Baptiste, uma bióloga do Instituto Humboldt especialista em invasoras.

Um exemplo de como espécies de fora podem ser negativas ou positivas é o tojo, um arbusto lenhoso de flores amarelas e muito ramificado, espinhoso, quase impenetrável, trazido à Colômbia do Mediterrâneo, no começo do século XX, para reflorestar zonas pedregosas com grandes erosões. Um século mais tarde, a planta colonizou os bosques alto-andinos e, inclusive, fixou-se nas bordas dos terrenos onde nascem quase todos os rios do país, incluindo os que alimentam a bacia amazônica. Algo semelhante aconteceu com o eucalipto, plantado amplamente desde 1915 para restaurar a cobertura florestal das então nuas montanhas que cercam Bogotá e que não permite que outras espécies cresçam ao seu redor.

As espécies invasoras são um vetor de perda da biodiversidade, junto com o desmatamento ou a poluição

No caso do kiri japonês, sua história mostra como impactos ambientais herdados do colonialismo europeu ainda são sentidos centenas de anos depois. Foram marinheiros holandeses da Companhia Holandesa das Índias Orientais – que era o braço comercial da frota mercante que povoou a Indonésia e manteve rotas comerciais por toda a Ásia – que levaram suas sementes à Europa em 1830 e o popularizaram como árvore ornamental. (Entretanto, por razões ainda inexplicáveis, seu nome científico e seus nomes populares fazem referência à princesa russa Ana Pavlovna, neta da czarina Catarina, a Grande).

“As espécies invasoras são um vetor de perda da biodiversidade, junto com o desmatamento ou a poluição”, analisa a ecologista Carolina Castellanos, que também trabalha com espécies invasoras no Instituto Humboldt. “E por várias razões: porque destroem outras espécies nativas, porque ocupam o espaço de outras espécies com estratégias agressivas de crescimento populacional ou porque transmitem doenças.”

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Andrés Ardila plantou 20.000 kiris no Valle del Cauca como madeira. Imagem: Agropaucol

Madeira ou ecossistemas?

Inicialmente a paulownia real ganhou fama como árvore decorativa, mas sua rápida expansão está hoje vinculada ao seu valor comercial: sua madeira estriada e de cor clara, durável e, também, fácil de esculpir, é muito apreciada na fabricação de móveis finos e instrumentos musicais.

Seu maior atrativo, porém, é poder alcançar uma altura de 15 a 18 metros em apenas cinco anos, enquanto outras, tão valorizadas quanto ela, como a madeira de teca (Tectona grandis L.), demoram décadas. “Parece um bastão no primeiro ano, um guarda-chuva aos três e pode ser cortada em pranchas aos cinco anos”, é o slogan com que a promove a Agropaucol, uma das empresas que tem plantações agroflorestais de kiri japonês na Colômbia.

Mesmo não havendo muitos cultivos, a decisão do governo colombiano de limitar seu comércio poderia criar um conflito entre o setor ambiental e o agropecuário. Se o Ministério do Meio Ambiente teme que a espécie possa fugir ao controle de quem a cultiva, os empresários rurais querem evitar a perda do dinheiro investido.

“Se há alguém que está sofrendo, somos nós. Nossas vendas de mudas e brotos caíram 85% nos últimos três meses. Tivemos que devolver valores em dinheiro que estavam consignados”, conta Andrés Ardila, fundador da Agropaucol, que tem 20 mil árvores plantadas em suas terras em Jamundí (Vale do Cauca).

Ardila teme que seu investimento, que ele estima em 200 mil dólares, possa estar em risco com a resolução do governo. Para ele, o atrativo do kiri japonês é permitir uma negociação agroflorestal de rápido desenvolvimento e que – mesmo não sendo uma árvore nativa –   permite reflorestar, capturar carbono e recuperar solos degradados. É o que permitiu, segundo ele, que hoje existam umas 500 mil árvores em todo o país.

Na verdade, há uma diferença de pontos de vista: enquanto os biólogos temem que árvore ocupe o espaço da flora nativa, ele defende que que ela convia com vegetais comerciais. “Se fosse, realmente, uma invasora, já teria se espalhado por toda a propriedade. Mas a semente cai das árvores no solo e não nasce nada porque trabalhamos com um híbrido. A única maneira de multiplicá-la é através das raízes”, afirma, acrescentando que intercalou o kiri japonês com outros produtos agrícolas como vários tipos de pimenta, tomilho e orégano.

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Paulownia está ganhando força como uma plantação de madeira porque cresce muito mais rápido do que outras árvores de madeira, como a teca. Imagem: Agropaucol

“Eu agi de boa fé. Comprei sementes certificadas. Há mais de dois anos espero, sem sucesso, uma licença de comercialização, que deveria ser expedida pela mesma entidade que agora quer proibi-la”, acrescenta.

Ele atribui todo o problema a uma disputa legal interposta por uma pessoa contra o governo municipal de Nobsa (em Boyacá), a quem Ardila vendeu mil mudas pequenas para deter a degradação causada pela mineração de carvão. Inclusive, acaba de surgir um vídeo no Youtube explicando as vantagens da paulownia.

Além do temor de Ardila e de outros empresários florestais, há uma desarmonia dentro do governo em relação ao tratamento que deve ser dado à planta.

O ICA, ou Instituto Colombiano Agropecuário, autoridade nacional em temas fitossanitários, que Ardila acusa de atrasar sua licença comercial, soltou um comunicado, há três semanas, no qual enfaticamente proibiu a importação da árvore, até que sejam feitos estudos científicos sobre seu comportamento, porém o texto misteriosamente foi apagado de sua página (ainda que vários portais regionais o tenham reproduzido).

Mesmo entre as autoridades ambientais regionais que são, em última análise, responsáveis por controlar as espécies invasoras, as posições são antagônicas. A de Santander anunciava com orgulho, em maio, um piloto de cultura de kiri japonês e o qualificava como “ideal nos processos de reflorestamento”, quando o governo nacional já havia solicitado aos seus institutos científicos avaliar seu risco. Outra delas, do Huila, recomendou tacitamente “não semear este tipo de espécies e informar-se nos setores de meio ambiente dos municípios, ou nas associações profissionais, para que as espécies plantadas sejam nativas e contribuam para a conectividade ambiental da região”.

Os biólogos assinalam outra contradição. “Por que não investimos como Estado em pacotes tecnológicos para tantas espécies de madeiras nativas?” pergunta María Piedad Baptiste. Esse investimento em ciência e tecnologia, argumenta, permitiria entender como cultivar espécies como o ipê-amarelo (Tabebuiaochracea), o carvalho colombiano (Quercushumboldtii ), o guaiaco ou guaiacum (Guaiacum officinale ), que já são parte dos ecossistemas colombianos.

“Na realidade, o risco não é a espécie, mas o cérebro humano: somos nós que criamos o espaço para que uma espécie se converta em invasora e depois é muito difícil eliminá-la”, disse Edgar Linares, professor da Universidade Nacional, que também passou quatro meses avaliando os antecedentes do kiri japonês.

“Por razões econômicas, importamos espécies que transformam nossa paisagem, mas depois quem vai pagar por esses efeitos indesejados? Esse custo vai ser repassado aos colombianos”, conclui.