Graças à China, força de trabalho da América Latina aumenta em dois milhões

Comércio e investimento tiveram impacto positivo na geração de empregos, mas há variação entre países

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Um trabalhador instala painéis solares. O investimento chinês em energias renováveis na América Latina é uma importante fonte de empregos. (imagem: Pixabay)

Um período de intensa interação econômica com a China gerou 1,96 milhão de empregos na América Latina, mas a mão de obra é pouco qualificada e o trabalho é distribuído de forma desigual entre os países da região, segundo revelou uma pesquisa realizada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

No período entre 2000 e 2017, 1,6 milhão de pessoas passaram a integrar a força de trabalho do Brasil como resultado do comércio com a China, do investimento estrangeiro direto (IED) chinês e dos projetos de infraestrutura desenvolvidos no país.

O México, por outro lado, teve um destino menos favorável: perdeu 350 mil empregos devido à importação de produtos chineses, que competem com os produtos nacionais, segundo o estudo “Efeitos da China na qualidade e na quantidade de postos de trabalho na América Latina” (Effects of China on the Quality and Quantity of Employment in Latin America).

“Devido à necessidade que a América Latina e o Caribe têm de gerar empregos, dois milhões é um número bastante significativo”, afirmou Enrique Dussel Peters, coautor da pesquisa, que também reúne dados da Argentina, do Peru e do Chile.

A pesquisa foi realizada pela primeira vez em 2016 e os números mais recentes revelam que o comércio foi responsável por gerar a maioria dos novos empregos, seguido do IED e, por último, dos projetos de infraestrutura. O estudo anterior apontava a China como responsável direta pela criação de 2% dos novos postos de trabalho na região, entre 2000 e 2011 – o que equivale a 1,15 milhão de empregos. Esse número tem crescido, mas representa apenas 14% dos empregos gerados nos Estados Unidos através das mesmas fontes durante o mesmo período.

A baixa proporção de mão de obra altamente especializada parece refletir a teimosia de alguns países latino-americanos, que não buscam uma maior diversificação para fugir da exportação de matérias-primas, possivelmente voltando-se para indústrias que agregam mais valor. Os líderes regionais e seus parceiros chineses, no entanto, comprometeram-se a trabalharem juntos para alcançar esse objetivo, conhecido como upgrading.

Vencedores, perdedores e pontos fora da curva

Em termos de empregos, os brasileiros ganharam muito com as trocas econômicas com a China, mas grandes projetos de infraestrutura também tiveram um papel importante. Só a State Grid, uma estatal chinesa de energia, criou 100 mil empregos, incluindo 17 mil na linha de transmissão de 5.000 quilômetros que dividirá a Amazônia em dois.

Dos 69 projetos de infraestrutura que a China desenvolve na região, no entanto, 52 são distribuídos em apenas um punhado de países – Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Trindade e Tobago e Venezuela. Esses países concentram 85% do valor total dos projetos e 88% dos empregos gerados por eles na região.

Apesar disso, o que mais tem impulsionado a geração de empregos na América Latina é a produção de commodities para exportação à China, como petróleo, cobre, minério de ferro e soja.

Em toda a região, a exportação de produtos agrícolas foi o setor que mais contribuiu com a geração de novos empregos desde a virada do século: foram 1,7 milhão de contratações a mais. No entanto, os avanços tecnológicos e a maior eficiência que vem sendo alcançada nesse setor em todo o mundo vêm substituindo os trabalhadores nos últimos anos.

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O Brasil tem atraído mais interesse dos investidores chineses – 48 bilhões de dólares, segundo o Monitor OFDI da Rede Acadêmica da América Latina sobre a China –, mas sua prolongada crise política e econômica tem levado muitos a buscar outros ambientes mais férteis para investimentos.

“As crises no Brasil, na Argentina e na Venezuela tiveram um papel importante nisso, além dos benefícios que as empresas chinesas descobriram no México, tantos os futuros como os atuais”, disse Dussel Peters, referindo-se ao aumento dos fluxos de IED da China para o país norte-americano.

Embora o México tenha perdido alguns empregos devido ao comércio com a China, o país se beneficiou de 5,5 bilhões de dólares em novos IEDs da China em 2017. O valor corresponde a 21% do IED total recebido desde 2000, o que aumentou os empregos em 24% em comparação com os 16 anos anteriores.

O relacionamento do México com a China, ao contrário do que acontece com outros grandes países da América Latina, não é baseado no comércio de matérias-primas. Embora o país tenha aberto o seu setor de energia para o investimento estrangeiro pela primeira vez em 80 anos, a maior parte do IED da China tem como destino o setor de manufatura e o mercado doméstico.

Conflitos trabalhistas

No Peru, a mina de cobre Las Bambas, localizada na região Apurimac, foi o destino de 42% dos novos empregos gerados por intermédio da China no ano passado, apesar dos conflitos relacionados a impactos ambientais terem paralisado as operações em algumas ocasiões. Algumas empresas chinesas presenciaram conflitos violentos com trabalhadores, como duas das maiores empregadoras do setor, a Shougang, cujo problemático empreendimento de minério de ferro foi responsável por 25% dos empregos, e a China Minmetals, proprietária da mina de cobre Toromocho, com 19%.

Incidente não acontece só porque existem “diferenças culturais”, como é frequentemente apontado, mas porque as empresas chinesas se recusam a cumprir as leis trabalhistas do país de acolhimento

Na Shoutang, os trabalhadores protestaram contra a flexibilização dos horários de trabalho e os conflitos se tornaram violentos em 2015. A empresa foi acusada de contratar agentes provocadores para justificar a tomada de medidas repressivas contra os funcionários insatisfeitos.

Segundo o relatório do OIT, esse tipo de incidente não acontece só porque existem “diferenças culturais”, como é frequentemente apontado, mas porque as empresas chinesas se recusam a cumprir as leis trabalhistas do país de acolhimento.

Conflitos trabalhistas também eclodiram em projetos de infraestrutura que contavam com a colaboração de trabalhadores de baixa qualificação e de gestores, engenheiros e técnicos chineses.

Essas divisões, e a ausência de treinamento e de transferência de conhecimentos da China à América Latina, é um problema de longa data que foi identificado pelos especialistas que monitoram o relacionamento. Eles dizem que os benefícios de longo prazo para a região são muito poucos ainda.

Os pesquisadores da Universidade do Colorado escreveram um artigo, que deverá ser publicado em breve, examinando como a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, afetou o mercado de trabalho do Peru. Eles notaram que o comércio cresceu de forma acentuada, mas relatam que houve impactos “negativos e duradouros” nos empregos do país.

As indústrias que competem com os importados chineses são as que mais sofreram. As mulheres com pouca qualificação profissional foram as mais afetadas, sendo que os seus colegas do sexo oposto quase não foram afetados.

“É cada vez mais importante examinar os impactos da liberalização do comércio sobre ambos os gêneros no mercado de trabalho”, afirmou Andrea Velasquez, coautora da pesquisa e professora de economia. Ela explicou que, devido às suas aptidões limitadas, os trabalhadores que perderam seus empregos, a maioria mulheres, teriam dificuldade para ocupar vagas em setores mais produtivos da economia, mas disse que o governo poderia ajudar.

“Políticas que buscam aumentar a mobilidade profissional das mulheres, como programas de treinamento e educação, poderiam, potencialmente, mitigar os impactos negativos do comércio”, disse Velasquez.

Transição para o baixo carbono

No Chile, o crescimento do setor de energia renovável tem gerado muitas oportunidades de emprego. O investimento chinês de 6 bilhões de dólares criou mais de 10 mil empregos em novos parques eólicos, centrais de energia solar e no setor de iluminação pública de LED.

Alguns grupos têm a ideia preconcebida de que a China só pensa em matérias-primas e isso simplesmente não se sustenta diante da realidade

A Envision Energy, baseada em Pequim, já investiu 33 milhões de dólares em seu parque eólico no Chile, com capacidade instalada de 10 MW. A empresa chinesa JA Solar e a Soventix Chile SPA vão criar, juntas, um grande parque eólico. A Jinko Solar, por outro lado, está trabalhando com a agência nacional de energia do Chile (ENEL) em uma usina de 100 MW. A Sky Solar Holdings planeja acrescentar mais 300 MW.

Segundo Dussel Peters, o papel que a China desempenhará na transição latino-americana para uma economia mais limpa tende a se tornar cada vez mais importante, desmentindo o mito de que as empresas chinesas na região atuam apenas como um monólito sedento de recursos, sem a mínima preocupação com o meio ambiente.

“Alguns grupos têm a ideia preconcebida de que a China só pensa em matérias-primas e isso simplesmente não se sustenta diante da realidade”, disse ele.

Em 2016, o Ministério de Relações Exteriores da China lançou um livro branco em que se comprometia a “alinhar a capacidade de alta qualidade e os equipamentos vantajosos da China com as necessidades dos países da América Latina e do Caribe”.

Alguns países da América Latina poderiam fazer o “upgrade” das suas economias se usassem os investimentos e a tecnologia que a China disponibiliza para desenvolverem suas indústrias secundárias. Essa estratégia também ajudaria os países latino-americanos a reduzirem sua dependência na exportação de matérias-primas. No Chile, por exemplo, os investimentos chineses nas indústrias primárias criaram menos empregos, além de ter gerado menos benefícios de longo prazo, tanto no cenário de empregos como no ambiental.

Até agora, a América Latina tem respondido de forma inadequada às promessas do documento do Ministério das Relações Exteriores da China, bem como às declarações de transferência de conhecimentos, em reuniões de alto nível com a China, como aquelas organizadas pelo bloco regional Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), afirmou Dussel Peters.

“A América Latina e o Caribe, seus governos, elites, ONGs, e muitos outros, simplesmente não desafiam essas propostas”.