Como o e-commerce está transformando a agricultura orgânica na China

Pequenos produtores estão vendendo seus produtos online, mas enfrentam concorrência das gigantes do setor

Compartilhar

Ren Yingying e seu marido Wen Zhiqiang no trabalho (Imagem: Love Village Farm)

Porcos pretos passeiam embaixo das árvores na Love Village, uma propriedade rural de três hectares localizada nos arredores da cidade chinesa de Chingde, na província Hebei. Ren Yingying, de 28 anos, tira algumas fotos no seu celular e posta as imagens no WeChat, para que os seus seguidores possam ver o que os porcos estão fazendo.

A Love Village tem uma barraca na feira de produtores orgânicos, que acontece duas vezes por semana em Pequim. Os proprietários também vendem seus produtos através de uma loja do WeChat. Além de cuidar da fazenda, Ren e seu esposo escrevem posts para o WeChat todos os dias, aceitam encomendas, respondem perguntas e organizam as entregas.

O crescimento da popularidade das compras pela internet beneficia a produção orgânica na China. A Love Village é mais uma entre milhares de pequenas propriedades que estão aproveitando o modelo de vendas direto ao consumidor, viabilizado pela internet, para ganhar clientes. Mas será que as vendas e a base de clientes serão estáveis? De que forma os investimentos das empresas maiores poderá mudar esse cenário? Estas são as perguntas que estão sendo feitas por produtores como Ren Yingying.

Na China, o movimento orgânico começou oficialmente em 2005, após a publicação do primeiro padrão para certificação “orgânica” dos produtos. Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa em Agricultura Orgânica, da Suíça, descobriu que, no final de 2016, a China era um dos países que mais dedicava terras ao cultivo de produtos orgânicos: ocupava o terceiro lugar na classificação mundial, ficando atrás apenas da Austrália e da Argentina. O mercado chinês para orgânicos também crescia a um ritmo de 25% por ano.

Se eu vou comprar um tomate que custa quatro ou cinco vezes mais do que o normal, quero ter certeza de que estou comprando algo que é genuinamente saudável

O governo chinês tem incentivado os produtores a redirecionar o foco da quantidade produzida à qualidade dos produtos. Esse novo olhar é uma resposta aos problemas que o país vem enfrentando, como a contaminação do solo, a perda da biodiversidade e a resistência aos antibióticos. A agricultura orgânica está bem posicionada para se tornar parte da solução porque impõe restrições rígidas aos fertilizantes, pesticidas e reguladores de crescimento.

6.460

O número de comerciantes especializados em produtos orgânicos no site de compras Taobao

Os maiores sites de e-commerce estão reagindo de forma positiva às oportunidades. Em 2005, Jack Ma, dono da empresa Taobao, venceu os concorrentes e se tornou o maior portal de compras da China, principalmente no setor de alimentos. Em 2017, os chineses gastaram 800 bilhões de yuans (ou 119 bilhões de dólares) comprando alimentos e outros produtos agrícolas pela internet, incluindo 139,13 bilhões de yuans em produtos hortifrutigranjeiros. O crescimento anual se manteve em 50%. Hoje, há mais de 50 mil comerciantes vendendo produtos agrícolas no Taobao, sendo que 6.460 se especializam em orgânicos.  

Enquanto isso, o setor de entregas de mercadorias da China foi classificado em 2016 como o terceiro maior do mundo. A rede precisou expandir para alcançar a maior parte das vilas chinesas. Para pessoas com bom poder aquisitivo, comprar produtos orgânicos tornou-se muito simples: basta um clique do mouse.

Reconquistando a confiança

Embora as pessoas optem por produtos orgânicos devido a preocupações com segurança alimentar, os comerciantes de orgânicos genuínos enfrentam muita concorrência de enganadores.

Segundo uma pesquisa da China Youth Daily, realizada em 2018, 70% dos entrevistados acreditava que era fácil falsificar os alimentos orgânicos. Reportagens da mídia local revelaram que, em alguns lugares, a certificação orgânica poderia ser comprada. Em setembro de 2015, a Associação de Consumidores de Tianjin descobriu que 70% das amostras de alimentos orgânicos estavam contaminadas com químicos agrícolas. Por esses motivos, não é suficiente postar os certificados de status orgânico na internet, ou mesmo os resultados de avaliação de qualidade. Nada disso conquista a confiança dos consumidores.   

“Solucionar esse problema de confiança é essencial para convencer mais pessoas a consumir produtos orgânicos. Se eu vou comprar um tomate que custa quatro ou cinco vezes mais do que o normal, quero ter certeza de que estou comprando algo que é genuinamente saudável”, disse Chen Xiaoman ao chinadialogue, enquanto fazia compras na 7Fresh, um supermercado de alta tecnologia que pertence ao JD.com, em Pequim.

Para lidar com essas questões, a 7Fresh exibe os certificados orgânicos na loja e os consumidores podem escanear o código de barras para visualizar as informações de plantio e colheita, entre outros dados.

Enquanto isso, os pequenos produtores estão aproveitando ao máximo a conexão pessoal que as feiras de produtores promovem, bem como o grande alcance da internet: “Mercados offline são muito importantes para nós, pois é onde somos encontrados pela maioria dos nossos clientes. Depois eles se tornam nossos clientes online”, explicou Ren Yingying. “Mas também encontramos novos clientes na internet”.

Os porquinhos correm por entre as árvores, respirando ar puro, comendo capim do pasto ou comida livre de pesticidas e fertilizantes, e tomando água fresquinha da nascente

As distinções entre online e offline já são tênues: os clientes das feiras de produtores seguem as propriedades rurais na internet para ver quais produtos estão disponíveis. Enquanto isso, os clientes da internet trazem os amigos para as feiras para ver o que está à venda.

Liu Wanlan, fundador do pintu360.com, um portal de avaliação de empresas, acredita que será através do modelo de vendas direto ao consumidor que os produtores orgânicos poderão conquistar a confiança dos clientes.

De produtor orgânico a foodie

Ren Yingying e seu marido gostam de receber as pessoas na Love Village para mostrar como asseguram que seus produtos são oriundos de produção orgânica. Ela usa a sua conta no WeChat para mostrar como cultiva e depois transplanta as mudas no campo, que é mantido livre de pesticidas até a colheita. O feed deles é recheado de fotos, vídeos e descrições vívidas, que ajudam os clientes a se sentirem mais próximos da propriedade rural.

Ren descreve para os seguidores um pouco sobre o dia a dia no campo: “Os porquinhos correm por entre as árvores, respirando ar puro, comendo capim do pasto ou comida livre de pesticidas e fertilizantes, e tomando água fresquinha da nascente”.

Há muitas promoções e descontos também. Uma das mensagens fixadas diz: “Carne do primeiro suíno a ser abatido no ano novo, pela metade do preço!”

As conversas em grupo do WeChat também são uma ferramenta popular entre os produtores orgânicos, porque através delas podem vender seus produtos e conectarem-se com os clientes.  No grupo gerido pela Little Willow Farm, uma operação orgânica localizada no distrito Shunyi, em Pequim, um funcionário disponibiliza uma lista com 50 produtos, incluindo verduras, castanhas, ovos de pato e geleias. Todos estarão à venda em uma feira de produtores em Pequim, na próxima terça-feira.

“Aqui está a lista com os nossos produtos disponíveis. Caso queiram comprar alguma coisa, façam seus pedidos com antecedência”.

Cinco minutos depois, Liu Gang, proprietário da Little Willow, já recebeu mais de uma dúzia de pedidos. Ele usa o grupo regularmente para postar fotos da fazenda e dos seus produtos.

Enquanto isso, na feira, clientes novos e antigos podem ver os produtos e fazer perguntas sobre o processo de produção diretamente para Liu Gang.

agricultura orgânica
As hortaliças folhosas atraem a atenção dos frequentadores da feira do produtor que acontece no Hotel Shangri-la, em Pequim. (Imagem: Feira do Produtor Orgânico de Pequim)

Liu Gang vai até o terceiro anel viário de Pequim. Algumas encomendas serão entregues pessoalmente, outras serão enviadas por um serviço de entregas. Ele conta que a ideia para o negócio surgiu porque ele queria realizar o sonho de ajudar as pessoas a comerem de forma mais saudável. “Não adianta pensar que é isso que vai nos enriquecer”, disse ele. Depois de descontar os salários, aluguel, transporte e serviços, não sobra muito lucro. Mas ele espera poder ampliar seus negócios no futuro: “Se tivéssemos várias propriedades, poderíamos contar com mais transportadoras para fazer entregas”.   

Alguns produtores tornaram-se celebridades de internet, graças aos aplicativos de gravação e compartilhamento de vídeo, como o TikTok e o Kuaishou. Parte deles ganhou dezenas de milhares de fãs depois de postar vídeos da suas plantações e colheitas.  

Expansão comercial

Os sites de e-commerce vêm mudando o modelo de varejo de uma forma que os torna concorrentes dos produtores orgânicos.

Em 2016, por exemplo, o portal Alibaba passou a vender hortifrutigranjeiros. No ano seguinte, o Tencent investiu na própria rede de supermercados. Nos próximos cinco anos, a JD.com pretende abrir 1000 supermercados 7Fresh em toda a China.

Esses pesos-pesados da internet estão, simultaneamente, desenvolvendo aplicativos para venda online e abrindo lojas físicas. Por venderem produtos frescos considerados aceitáveis por muitos consumidores, eles precisam de mais pontos de vendas e recursos de marketing do que os pequenos produtores.

“Já fiz uma pesquisa para saber como vender nessas grandes plataformas de e-commerce, mas é muito caro, não vale a pena”, disse Liu Gang. “Não produzimos tanto assim e, se eu trabalhasse com essas plataformas, a minha maior preocupação seria o desperdício gerado ao longo da cadeia logística”.

Chang Tianle, fundador da Feira do Produtor Ogânico de Pequim, concorda que os pequenos produtores geralmente são prejudicados nas grandes plataformas. Logo depois que esses pequenos players começaram a se inscrever, as plataformas adicionaram mais itens de produção em massa, oriundos dos grandes produtores. Em seguida, decidiram parar de cooperar com os pequenos produtores. Os clientes que começam a depender dos sites de e-commerce acabam se tornando menos propensos a usarem os canais de venda direta dos produtores.

“Alguns produtores acham que uma plataforma nova significa mais vendas, mas logo descobrem que estão sendo usados”, explicou Chang Tianle.

Os grandes investidores não se contentam em criar plataformas de vendas, o que muitos realmente querem é entrar no ramo de produção agrícola. Em 2010, a Lenovo investiu bilhões de yuans no mercado de produção orgânica. A JD.com recentemente anunciou que vai produzir culturas hidropônicas de verduras, mais baratas do que as vertentes orgânicas, com o benefício de que não precisam ser lavadas.

Ao ser questionado sobre o que pensa a respeito dessa produção orgânica encabeçada por investidores, Jian Yi, fundador da Good Food Academy, declarou que ele prefere os pequenos produtores.

“A agricultura não é só uma indústria, ela é uma parte importante do nosso sistema social. Os produtos cultivados por pequenos produtores sustentam famílias e nos mantém conectados à terra”, disse ele. “A questão vai muito além do ser orgânico ou não, tem a ver com saber de onde a nossa comida vem, enxergar o impacto do nosso consumo, incluindo o impacto do estilo de vida associado à produção agrícola sustentável”.