Desenvolvimento sustentável, o novo foco da cooperação sul-sul

Na Argentina, países concordaram em redobrar esforços para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

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O presidente da Argentina, Mauricio Macri, cumprimenta o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, e a presidente da Assembléia Geral, María Fernanda Espinosa (imagem UNOSSC)

Representantes de mais de 190 países estiveram em Buenos Aires na semana passada para a Conferência das Nações Unidas sobre Cooperação Sul-Sul. Foi a segunda conferência do tipo já realizada e, desta vez, tinha o objetivo específico de fomentar a cooperação entre países para o desenvolvimento sustentável e a agenda 2030.

No encontro, representantes dos países do Sul trocaram conhecimentos técnicos para resolver problemas domésticos e assinaram acordos bilaterais ou multilaterais em diversos temas, como mudanças climáticas, meio ambiente, segurança alimentar, direitos humanos e agricultura.

“Novas alianças foram formadas, e estamos criando novas oportunidades. Saímos daqui com mais trabalho para realizar e novas oportunidades. Temos que levar tudo que discutimos para o próximo nível”, afirmou Achim Steiner, administrador do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas.

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela ONU em 2015, ocuparam um papel transversal ao longo dos três dias de trabalho. Os países ressaltaram como a cooperação sul-sul pode ajudar a alcançar seu cumprimento graças à cooperação regional e coordenação.

Os avanços globais no cumprimento dos ODS têm sido limitados, segundo o informe anual mais recente de avanços da ONU. Três de cada dez pessoas não têm acesso a água segura, milhões morrem todos os anos devido a poluição atmosférica, e a ação climática não é ambiciosa o suficiente, entre outros problemas.

“A cooperação sul-sul pode contribuir para a transformação das economias que dependem de combustíveis fósseis, usando estratégias para reforçar o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente. Se não fizermos um bom trabalho, vamos ter mais emissões no futuro”, argumentou Antonio Guterres, secretário geral da ONU.

Como resultado da conferência, os governos assinaram um documento final no qual pedem que os países desenvolvidos e em desenvolvimento “redobrem esforços” para implementar os ODS mediante a “promoção das dimensões econômica, social e ambiental da sustentabilidade.”

“A escassez de recursos continua servindo de obstáculo para a expansão da cooperação Sul-Sul e para a cooperação triangular. Por isso, sublinhamos a necessidade de que mais recursos sejam mobilizados, e que haja mais participação, sobretudo do setor privado”, afirma o documento.

Tempos de mudança

A conferência, que recebeu os presidentes do Uruguai, Paraguai e Chile e a muitos chanceleres, é a segunda desse tipo em 40 anos. A primeira também ocorreu em Buenos Aires e serviu para esboçar os pontos centrais da cooperação sul-sul por meio do Plano de Ação de Buenos Aires (PABA).

Desta vez, houve debates sobre as futuras regras da cooperação em um plano de trabalho visando a 2030 que também incorpore os princípios do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.

40

O número de anos desde a última Cúpula Sul-Sul organizada pela Onu

A assistência técnica entre países não é apenas uma mostra de solidariedade dos governos. Por meio das agendas de trabalho no exterior, os países desenvolvem sua política externa e adquirem uma maior relevância no cenário internacional em determinados temas.

Em 1990, o Sul representava um terço da produção mundial. Hoje, representa cerca de metade. O comércio sul-sul triplicou em volume, e a proporção de investimentos sul-sul cresceu de 20% para 50%. Há relativamente menos ajuda norte-sul, porém mais opções sul-sul e de cooperação triangular.

“A cooperação é uma grande ferramenta para promover laços entre países com diferentes níveis de desenvolvimento, como ficou claro em dezembro passado, quando decidimos comunicar ao G20 o papel da cooperação”, afirmou o presidente argentino Mauricio Macri na abertura do evento.

Ao longo dos anos, a cooperação sul-sul alcançou avanços significativos em várias áreas. Por exemplo, a Bolívia conseguiu combater uma praga de lagostas que ameaçou destruir milhares de quilômetros de criação do crustáceo. A Argentina é o país líder na cooperação desse tipo, com mais de 180 projetos em 40 países.

A cúpula não substitui a cooperação norte-sul, mas a complementa e enriquece. A cooperação sul-sul é a coluna vertebral da integração regional, aproxima os povos e facilita os processos de articulação política”, explicou María Fernanda Espinosa, presidente da Assembleia Geral da ONU e ex-ministra equatoriana.

Desenvolvimento sustentável, eixo central da agenda

A conferência de cooperação deu lugar a 22 sessões plenárias e a mais de 100 reuniões de trabalho paralelas, várias das quais tiveram em sua agenda o desenvolvimento sustentável e a agenda 2030. Foram analisados casos de sucesso em diferentes partes do mundo, bem como novas maneiras de promover a cooperação entre os países para avançar a implementação dos ODS.

“Estamos colocando o planeta e nossas economias em situação de risco. Os governos precisam desenvolver novas maneiras de proteger o uso sustentável de seus recursos e a biodiversidade, já que o mundo sobrevive graças a ela”, afirmou Steiner.

Em uma sessão plenária dedicada ao desenvolvimento sustentável, os representantes dos países representados na conferência debateram os desfios e oportunidades na implementação dos ODS. Todos ressaltaram a necessidade de maior cooperação sul-sul para atingir as metas da ONU e a agenda 2030.

“Temos que apoiar uns aos outros e promover colaboração. Precisamos de mais multilateralismo. É a única maneira de ter paz e implementar a agenda 2030. Compartilhar recursos, experiência se informação é chave para alcançar os ODS, os quais todos os países deveriam estar comprometidos”, sustentou Teresa Rivero, chanceler de Portugal.

Ao mesmo tempo, Marc-André Blanchard, representante do Canadá na ONU e moderador da sessão plenária, afirmou: “Todos podem se beneficiar do desenvolvimento sustentável. Não é uma agenda de governo, é de todos os cidadãos. O tempo está acabando e temos que atuar com projetos concretos o mais cedo possível.”

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A América Latina contém 40% da biodiversidade do mundo
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Durante a cúpula, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresentou o informe Perspectivas Econômicas da América Latina 2019, no qual ressaltou as ameaças ambientais da região como uma das quatro “armadilhas do desenvolvimento”.

A América Latina possui 40% da biodiversidade do planeta e tem uma das pegadas ecológicas mais baixas do mundo, afirmou a OCDE em seu informe. No entanto, a região sofre boa parte das consequências da falta de ação coletiva em escala mundial.