No norte do México, escolhe-se entre água e cerveja

Conflitos por recursos hídricos emergem, enquanto exportação de cerveja para a China duplica em volume

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Mexicali beer

Cidadaos de Mexicali protesstam contra Constellation Brands Imagem: Mauricio Villa


Constellation Brands — uma cervejaria em construção há mais de dois anos no norte do México — parece o terreno de um enorme festival de música no deserto. A propriedade, que está completamente cercada e se estende por mais de 350 hectares, pode vir a abrigar uma das maiores cervejarias do país, se os residentes de Mexicali não impedirem sua construção.

Quando me aproximo para tirar uma foto do local, um homem que protege a grade metálica salta de sua cadeira enquanto atrás dele surge uma van de segurança particular. Do outro lado, aparece um terceiro segurança com um pastor alemão. Ele saca o celular do bolso e tira uma foto minha e da placa do carro de onde eu havia saído. A mensagem era clara: este lugar é protegido e vigiamos quem nos vigia.

Constellation Brands Imagem: Alejandra Cuéllar

A empresa norte-americana Constellation Brands comprou em 2006 os direitos do Grupo Modelo para produzir as icônicas cervejas mexicanas Corona, Victoria, Pacífico e Modelo. Em 2015, chegou à cidade de Mexicali, exatamente na fronteira com os Estados Unidos, iniciando um violento conflito por água. Os opositores à construção declaram que a empresa não tem as permissões necessárias para uso da água, colocando a saúde ambiental desta zona desértica em risco. A empresa, por sua vez, garante que cumpre todos os requisitos para dar início às operações.

“Seria ruim se a Constellation Brands saísse da região porque mandaria uma mensagem negativa para os investidores”, argumenta José Sánchez Días, arquiteto da região, ecoando o medo de muitos residentes: expulsar uma empresa que investiu 1,5 bilhão de dólares pode abrir o precedente de que não é possível fazer negócios em Mexicali.

“No entanto, se eles não fazem as coisas direito desde o começo, é melhor que não fiquem”, acrescenta.

México exporta cerveja para a China

 A construção da nova cervejaria acontece em um momento em que o mercado cresce, também impulsionado pelo aumento das exportações para a China. No ano passado, as exportações de cerveja mexicana para o país duplicaram em volume, passando de 770 mil para 1,7 milhões de hectolitros, segundo a Câmara da Cerveja, Cervejeiros de México, gerando perguntas sobre a sustentabilidade do negócio.

A China abriga o maior mercado de cervejas do mundo, tanto em consumo como em exportação. Os chineses tomam 45 bilhões de litros de cerveja por ano, segundo dados de 2018 da empresa Euromonitor International. O mercado está dominado por cervejas locais, entre as quais figuram Snow e Tsingtao. Contudo, cervejas como Corona têm ganhado popularidade nos últimos anos.

A Constellation Brands não exporta diretamente para a China: tem direitos de exportação apenas para os Estados Unidos. A Anheuser-Busch InBev, outra empresa belga e multinacional, detém os direitos para exportar as cervejas do Grupo Modelo a outros países. No entanto, a Constellation Brands é parte da rede de cervejarias que estão neste momento envolvidas em conflitos ambientais no México em meio a um aumento exponencial de produção.

Para responder à alta demanda, nos últimos dois anos foram construídas quatro novas fábricas nos estados de Chihuahua, Yucatán e Hidalgo. Outras seis fábricas têm planos de expansão na mesma zona onde estám a Constellation Brands.

“A produção de cerveja no México é uma das atividades econômicas mais importantes do país”, explica Ernesto Granados, professor de meio ambiente da Universidad Iberoamericana.

“Entretanto, estamos num país onde há uma corrupção generalizada, e as cervejeiras são parte dessa corrupção”, conta Granados. “Embora falem muito das consultas ambientais, não incluem a população na tomada de decisões, e o consumo de água não é transparente. Isso gera problemas graves.”

Com um mercado que cresce a passos gigantescos, o impacto sobre o meio ambiente ainda é um ponto de interrogação. Contudo, as consequências da escassez de água certamente se manifestarão na próxima década de maneira mais pronunciada.

O problema da água em Mexicali

A cidade de Mexicali se abastece com a água do rio Colorado, que nasce nas Montanhas Rochosas, nos Estados Unidos. Segundo o tratado assinado entre os dois países, o México recebe 1,8 bilhão de metros cúbicos da água do rio por ano. Nas últimas décadas, contudo, esse recurso tem diminuído.

“O fenômeno das mudanças climáticas provoca uma tendência de seca e de diminuição no volume de água que se verifica marcadamente desde 1999”, explica Alfonso Cortez Lara, doutor em Desenvolvimento de Recursos da Universidade do Estado de Michigan, nos Estados Unidos.

No começo deste ano, o presidente Donald Trump reconheceu a situação e assinou uma lei para formalizar planos de contingência para a seca do rio, declarando que haverá uma redução nas entregas de água para todos os estados receptores nos EUA.

Foi nesse contexto de estresse hídrico que chegou Constellation Brands, empresa que requer ao menos 20 milhões de metros cúbicos de água ao ano para a produção de cerveja. O dado vem de um documento assinado por funcionários do estado de Baixa Califórnia, ao que pertence Mexicali, que garantem à empresa essa quantidade de água por ano. O acordo, no entanto, foi assinado a portas fechadas, sem comunicações à população.

Resistência à cerveja

A Constellation Brands surgiu no cenário público quando o governador de Baixa Califórnia, Francisco Vega, aprovou a Lei da Água a portas fechadas em 2016. A lei permitia, entre outras coisas, a privatização de água potável, facilitando o acesso à água pela Constellation Brands.

A lei causou indignação na população, o que levou aos maiores protestos já vistos por Mexicali em muitos anos.

Mexicali protesta contra a Lei da Água Imagem: Mauricio Villa

“Eu ia para as ruas nesses dias, encontrava um amigo e pensava: ‘Nunca pensei que encontraria essa pessoa numa situação como essa'”, conta Martha Fernanda Vildosola, professora universitária de Mexicali. “Nunca tinha visto tanta gente nas ruas antes”, acrescenta. Manifestações em espaços públicos não são comuns na região, mas nesse dia mais de 40 mil pessoas foram às ruas protestar pela água.

O govenador aprovou leis e mais leis, mas esse seria apenas o começo dos enfrentamentos entre governo, cidadãos e a Constellation Brands.

A cervejaria já completou 45% de sua construção e já tentou modificar seus planos para demonstrar que pode, sim, ser sustentável. Diálogo Chino recebeu relatórios de impacto ambiental da companhia, que incluem um estudo do impacto sobre o abastecimento de água em Mexicali realizado pelo Instituto Mexicano de Tecnologia da Água. O estudo declara que há água suficience para abastecimento até 2050.

Contudo, num estudo paralelo solicitado pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (Conacyt), realiado por Alfonso Cortez Lara, é evidente que este e outros relatórios divulgam informações imprecisas.

“Por exemplo, o informe de impacto ambiental apresentado pela empresa estabelece que a demanda por água em Mexicali é de 1,12% e se manterá constante até 2050”, explica Cortez Lara, especialista em temas hídricos. “Mas, com o aumento da população, a demanda cresce. E, com a oferta, não se pode ter 100% de segurança, porque sempre há um fator de risco. Levando isso em conta, percebemos que a crise real da água vai chegar em 10 ou 15 anos.”

A Constellation Brands afirma que a maior parte da água que utilizará na produção de cervejas não sairá do rio Colorado, mas de poços que originalmente eram de uso agrícola. A empresa quer declará-los poços urbanos para, caso se anuncie estado de seca, seus direitos sobre a água permaneçam intocados. Isso porque, segundo a Lei de Águas Nacionais, os usuários urbanos têm preferência pela água, seguidos pelos agrícolas e, finalmente, a indústria. Um advogado de Mexicale, que preferiu manter sua identidade anônima por medo de represálias e da sensibilidade do caso, está processando a empresa por essa questão, que, segundo ele, é ilegal.

Em 2018, quando a empresa tentou construir um aqueduto na propriedade privada de moradores da região, muitos cidadãos se indignaram. Houve um enfrentamento no qual moradores e polícia se agrediram com pedras.

“Eu olhava para meus amigos cheios de sangue e via a polícia protegendo as máquinas”, relata Diana Gabriela Aranguré, manifestante do grupo de oposição Mexicali Resiste. “Estava bem claro o que temos dito todos esses anos. Os governos atuam para o bem das empresas e deixam de lado o bem das pessoas.”

Os manifestantes tentaram deter os caminhões da cervejaria, ocuparam o congresso de Baixa Califórnia várias vezes e criaram seu próprio meio de comunicação para conscientizar a população sobre as ações da empresa.

“Neste momento, as manifestações de rua diminuíram e a oposição está esperando”, explica Mauricio Villa, também integrante do Mexicali Resiste.

Atualmente, grupos de oposição estão promovendo um plebiscito que poderia deter as operações da empresa e pedir uma investigação de impacto ambiental em nível federal. Enquanto isso, a construção avança.

“Agora, precisamos que as pessoas voltem para as ruas, para que não esqueçam”, acrescenta Villa.