México exporta sorgo para a China apesar de crise em produção nacional

Mexicanos se beneficiam da guerra comercial com os EUA, que forneciam 90% do sorgo importado pela China

Compartilhar

Um campo de sorgo no estado de Morelos en México. México está tratando de exportar o grano a China a escutar de todo o país debido ao clima adverso (imagen: Mario Paredes)

A China, país que mais importa sorgo do mundo, deu início aos processos para importar toneladas do grão do México num momento em que o país latino-americano atravessa uma crise em sua produção devido a más condições climáticas.

Ao lado do milho e do trigo, o sorgo é um alimento essencial em muitas partes do mundo em desenvolvimento, e é utilizado tanto para consumo humano como na pecuária – o que aumenta sua demanda internacional.

“A China demanda muitos grãos para alimentar sua enorme população, mas o México é, por sua vez, o quinto importador mundial [de sorgo], atrás apenas da própria China, Espanha, Japão e Sudão”, explica César Soto Morales, professor de relações internacionais da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM).

Para Soto, abrir um mercado de exportação quando a própria demanda nacional é tão grande – mais de 8 milhões de toneladas por ano – é uma incongruência.

Não há regulação para garantir que o México tenha abastecimento suficiente de sorgo

Na China, cerca de um terço da produção de sorgo se destina à fabricação de bebidas alcoólicas, principalmente de um forte licor tradicional. O resto se divide entre o consumo pecuário e humano. 

O país asiático importa 90% do grão dos Estados Unidos, o maior produtor de sorgo do mundo. No entanto, as medidas protecionistas implementadas recentemente pelo presidente norte-americano Donald Trump levaram a China a buscar novos mercados. 

Déficit de sorgo no México

O sorgo é cultivado em quase todo o México, mas os maiores produtores são os estados de Tamaulipas, Sinaloa e Guanajuato. Em 2018, a produção nacional de sorgo foi a mais baixa das últimas duas décadas devido às más condições climáticas. Apenas 4,4 milhões de toneladas foram produzidas, comparadas com 10 milhões de toneladas em 2007.

A situação, contudo, pode não deter os mais 1,5 mil produtores mexicanos que buscam enviar entre 50 mil e 100 mil toneladas de sorgo à China depois que o protocolo de exportação for aprovado. 

“Não há regulação para garantir que o México tenha abastecimento suficiente de sorgo. O governo, tanto o anterior quanto o atual, não está preocupado em manter o fornecimento de grãos para consumo interno, seja milho ou sorgo, e por isso deixa o mercado atuar livremente”, explicou Soto Morales.

5,600,000

A queda em toneladas na produção nacional de sorgo do México entre 2017 e 2018
 

Sem regulação, os produtores de sorgo se voltam para os mercados internacionais, mesmo que o país precise do grão e a exportação aumente o déficit. 

Segundo Soto Morales, o México deveria seguir o exemplo de outros países que cuidam do abastecimento interno de grãos básicos, estabelecendo medidas como uma tarifa ou cota de exportação com o objetivo manter o fornecimento nacional dos grãos consumidos. 

Protocolo de exportação

No momento, o México já exporta sorgo para a China, mas apenas para consumo pecuário. A exportação de sorgo para consumo humano requer o cumprimento de protocolos sanitários entre as autoridades chinesas e mexicanos, o que ainda não foi firmado.

 “Para um produto ser viável para exportação, são necessárias muitas visitas por parte da China; vários especialistas sanitários vêm fazer análises dos campos”, explica Laura Selene Frías Rodríguez, ex-funcionária do governo mexicano que participou da organização da primeira visita do presidente chinês Xi Jinping ao México.

A China já enviou seus especialistas para analisar as plantações mexicanas. Contudo, esses processos às vezes levam de cinco a dez anos, já que os protocolos fitossanitários para importação de produtos frescos são bastante rígidos, com o objetivo de proteger a produção nacional chinesa. 

Para Frías Rodríguez, o governo chinês tem a última palavra.

“Por instrução do presidente Xi, conseguimos avançar bastante em questões comerciais, como no caso da tequila, das berries, do abacate ou da carne de porco. Por exemplo, algumas permissões fitossanitárias demoraram mais de 8 anos para ser homologadas, mas no caso da tequila o processo durou apenas dois ou três anos. Foi a vontade política que encurtou esses prazos”, assegurou Frías Rodríguez, especialista na região Ásia-Pacífico.

“Não podemos deixar essa questão de lado, pois com a China, se você não der atenção aparece outro país, outro mercado, que toma o seu lugar. Temos que aproveitar que já avançamos tanto para assinar o protocolo e seguir o processo; não podemos parar agora”, conclui Frías Rodríguez, que interpretou a importação de sogro como um reflexo do desejo chinês de ampliar suas relações com o México.

Mirando além dos produtos primários

Nos últimos anos, o México começou a se abrir no mercado chinês com produtos como carne de porco, farinha de peixe, algodão, abacate, moluscos, lagostas e camarões, assim como pele de bovinos, entre outras matérias primas que são logo aproveitadas pela indústria asiática.

Temos que mirar para além da exportação de commodities, como o sorgo; vender não apenas bens primários, mas também produtos de alto valor agregado

Frías Rodríguez ressalta que essa é uma oportunidade propor as regras que irão regular as exportações de sorgo.

“Temos que mirar para além da exportação de commodities, como o sorgo; vender não apenas bens primários, mas também produtos de alto valor agregado. Ou seja, temos que exportar não apenas abacate, mas também óleo de abacate”, recomendou Frías Rodríguez. A ideia é que esse tipo de produto gere maiores compensações aos produtores mexicanos.

Diversificar os mercados de exportação para o México é uma necessidade frente à pressão por parte do governo estadunidense. Contudo, é preciso saber negociar bem com a China, um país que leva vantagem no comércio exterior.