Em meio a crise de peste suína, China importa da América Latina

Brasil, Argentina e Chile querem aumentar exportações em meio a desafios de capacidade produtiva

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Fiscais em uma fazenda de porcos no Chile, um dos países latino-americanos que querem se aproveitar da crise na China (imagem:Ministerio de Agricultura de Chile)

Segundo o calendário lunar chinês, 2019 é o ano do porco. Supõe-se que seja um ano promissor. Para a indústria suína chinesa, é o contrário

A Peste Suína Africana (PSA) está dizimando a indústria de porcos da China, de longe a maior do mundo. A população de porcos no país pode diminuir em um terço este ano, ou até em 200 milhões de animais, por doenças e abates.

Embora a situação seja difícil para a China, ela representa uma oportunidade de comércio para a América Latina, já que países como Brasil, Argentina e Chile se preparam para aumentar ou estabelecer exportações.

“Vamos enviar nossos primeiros carregamentos em julho e continuar fechando contratos de vendas. Temos três empresas autorizadas a exportar para a China, e queremos que esse número cresça”, afirma Guillermo Proieto, diretor da Agenpork, um consórcio companhias de exportação de carne suína na Argentina.

Contudo, ativistas na Argentina estão preocupados com o aumento da produção numa indústria que tem padrões ambientais baixos e um histórico de maus tratos de animais.

Cenário sombrio

A China produz e consume dois terços da carne suína mundial. Mas, como Pequim tem destruído rebanhos e bloqueando exportações para dar fim à gripe suína, a produção está diminuindo. Importadores estão preenchendo esse vácuo, e espera-se um aumento de cerca de 40% tanto em preços como em importações este ano.

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porcos morreram na China devido à epidemia da peste suína em agosto do ano passado

A doença foi registrada pela primeira vez em agosto passado, no nordeste da China. Desde então, cerca de um milhão de porcos morreram e a enfermidade se espalhou para 31 das 34 províncias chinesas.

O vírus, que não é transmissível para humanos, pode se espalhar por meio de porcos vivos ou mortos, e por produtos suínos. A morte pode ocorrer uma semana depois da infecção. Não há tratamento ou vacina. A única maneira de impedir a propagação da doença é abater todos os porcos afetados ou expostos ao vírus.

Se isso acontecer, não haverá excedente de carne suína no mundo para atender à esperada redução na produção.

Desde 1970, o consumo per capita de carne suína na China aumentou em mais de quatro vezes, de 25 gramas por dia para mais de 100.

Cerca de metade dos porcos na China são criados em fazendas de suínos de pequeno e médio porte, segundo Wanging Zhou, sócio da ONG Brighter Green.

Essas fazendas sempre foram as mais difíceis de regular em termos de gestão de resíduos, uso de antibióticos e bem-estar animal.

A China ainda importa pouca carne suína – cerca de 2%, ou 3% – em comparação com a produção doméstica do produto. Os Estados Unidos eram a maior fonte de importações, mas recentemente foram substituídos por países europeus como Alemanha e Espanha.

Agora, a América Latina pode ter um papel maior nesse comércio – mas não sem consequências.

“O aumento nas importações gera prejuízo para as diversas fazendas suínas menores e potencialmente mais sustentáveis, uma questão que o governo tem tentado resolver”, conta Zhou.

Em março, o governo chinês disse que a epidemia estava “sob controle”. Numa coletiva de imprensa mês passado, Pequim disse que a peste suína não se estava espalhando tão rapidamente como antes. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, as principais autoridades chinesas tomaram as medidas corretas para controlar o vírus.

Contudo, ainda há complicações. A indústria suína chinesa é fragmentada. Há muitos criadores pequenos que podem não ter tomado as medidas de segurança necessárias para controlar a propagação do vírus. Além disso, o vírus pode sobreviver em produtos suínos por meses, podendo ser reintroduzido nos rebanhos por acidente.

China: o principal objetivo

Para muitos países latino-americanos que produzem carne suína, o mercado chinês é o principal alvo dado seu tamanho e nível de consumo. Os produtores latino-americanos têm tentado conseguir o aval para dar início à exportação ou aumentar o número de empresas autorizadas a exportar.

A crise da peste suína é uma oportunidade para que todo esse trabalho valha a pena, mas também é um desafio. Os mesmos países que desejam exportar carne suína para a China podem ter seus envios de soja e milho diminuir, à medida que a redução no volume de porcos na China requer menos alimento.

No Brasil, a indústria espera 2 bilhões de dólares em perdas este ano por causa dessa situação. Contudo, se a criação de porcos pode compensar parte dessa perda, o resultado será positivo, pois a indústria suína gera mais empregos do que a de soja.

Enquanto isso, a Argentina, que recentemente recebeu autorização para começar a exportar carne suína para a China, teria uma redução de até três milhões de toneladas de soja ano que vem, segundo um relatório da Buenos Aires Grain Exchange. A perda seria em parte compensada pelas mais de 18.000 toneladas de carne de porco que o país espera exportar.

“Até 70% do que exportamos de carne suína até agora vai para a Rússia. Temos níveis de produção comparáveis aos países que mais exportam, mas há questões que ainda precisamos resolver, como a redução no uso de antibióticos e uma melhor administração de resíduos”, conta Jorge Brunori, especialista em carne suína no Instituto de Tecnologia Agrícola (INTA).

Embora a Argentina não esteja exposta a doenças como a peste suína, ainda está longe de um uso racional de antibióticos, e não considera o bem-estar animal em suas práticas, segundo Soledad Barruti, autora de Malcomidos, uma investigação da produção de alimentos no país.

Aumentar a produção de maneira segura para exportar para a China pode ser um desafio.

“A Argentina está exportando carne de porco de baixa qualidade passa por critérios ambientais muito baixos”, diz Barruti. “É carne barata, mas não contempla os custos envolvidos no caso de toda uma população adoecer pelo combo tóxico aos quais os porcos estão expostos”.

Nos últimos sete anos, a Argentina duplicou sua produção de carne suína de 280 mil para 565 mil toneladas para atender ao consumo interno crescente. Agora, contudo, exportações desempenham um papel mais importante, com um aumento de 53% nos primeiros quatro meses do ano, segundo o Ministério da Agricultura.

Há mais de 100 mil criações de porcos na Argentina, a maioria das quais está localizada no centro do país. Apesar da expansão, a produção ainda é insuficiente para atender à demanda nacional, e o país importa carne suína do Brasil. Produtores esperam eliminar a necessidade de importação.

“Houve uma grande expansão nos últimos 15 anos, mas focada no mercado interno. Agora é hora de ficar de olho em outros países, e a China estava no topo da nossa lista”, afirma Proietto.

Chile expande produção

O Chile é hoje o quinto maior exportador de carne suína do mundo. Os exportadores do país estão agrupados sob a associação ChilePork, que conseguiu aplicar estratégias de marketing em feiras de negócios na Ásia para aumentar a fama de seus produtos.

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A produção atual do Chile em toneladas, um aumento de dez vezes o que era em 1984

O Chile é hoje o quinto maior exportador de carne suína do mundo. Os exportadores do país estão agrupados sob a associação ChilePork, que conseguiu aplicar estratégias de marketing em feiras de negócios na Ásia para aumentar a fama de seus produtos.

A produção de carne suína no Chile cresceu de 59.000 toneladas em 1984 para 534.000 hoje. Carne de porco é agora o quarto produto mais exportado do país. Mais de 60% da produção é exportada, e a China — que recebeu 73.000 de toneladas ano passado — é o principal mercado.

“Países produtores como nós podem se beneficiar de uma maior demanda por carne de porco. Mas se a situação for mais séria do que se diz, não vai haver produção suficiente para atender à demanda chinesa. Os preços da carne suína e de outras carnes vão crescer”, diz Juan Carlos Domínguez, diretor da ChilePork.

O Brasil também tem aumentado o volume de exportação de carne suína. Apenas em maio, o país exportou 41% mais em relação a 2018, de 47 mil toneladas para 67 mil.

Luizinho Caron, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), afirma que a maior demanda significa preços mais altos e mais lucro. Contudo, os produtores sabem que a alta é temporária e, por isso, não querem investir em expandir sua produção.

Com as portas da China abertas, muitos estão adaptando suas produções para se adequar aos padrões dos importadores chineses.

“Nem todos os produtores estão prontos para exportar”, conta Caron. “Essa situação pode estimulá-los a aprender o know-how”.