O que os argentinos pensam da presença chinesa no país

Nova pesquisa revela uma visão positiva do impacto econômico da China na Argentina, apesar de projetos controversos

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O presidente argentino, Mauricio Macri, recebe o chinês Xi Jinping na cúpula do G20 de 2018 em Buenos Aires. Imagem: Argentina G20

Em meio às tensões geopolíticas causadas pela disputa comercial entre Estados Unidos e China, a maior parte dos cidadãos argentinos considera positivo o papel da China e de investimentos chineses na Argentina, segundo os resultados de uma pesquisa recente.

Segundo o ArgentinaPulse, projeto da empresa de consultoria Poliarquia e do centro de pesquisa Wilson Center, 80% dos argentinos são a favor dos investimentos chineses no país, enquanto 76% têm uma imagem muito boa ou boa do país asiático.

Ao mesmo tempo, a pesquisa ressaltou que 83% dos que têm uma boa opinião sobre a China são eleitores do atual presidente Mauricio Macri, que tem tentado manter simultaneamente uma boa relação com os Estados Unidos e com a China durante seu mandato.

“Apesar das dúvidas iniciais sobre a relação da Argentina com a China, o presidente Mauricio Macri manteve os estreitos laços estabelecidos por sua predecessora, Cristina Fernández de Kirchner”, afirma Benjamin Gedan, diretor do Argentina Project do Wilson Center.

Apenas 32% dos argentinos acham que o país deve escolher entre Washington e Beijing, segundo a pesquisa. No entanto, entre os que preveem uma ruptura com uma das duas potências mundiais, 54% prefeririam que a Argentina escolhesse a China.

De qualquer maneira, os Estados Unidos encabeçam o ranking dos países considerados prioritários para a política exterior argentina, mencionado em primeiro lugar por 28% dos entrevistados. A China aparece em segundo lugar, de acordo 21% dos entrevistados.

“A sociedade argentina não expressa uma clara preferência por um país acima de outro e prioriza as relações com a China e os Estados Unidos de maneira equânime”, afirmou Alejandro Catterberg, analista político e diretor da empresa de consultoria Poliarquia, ao jornal Perfil.

Laços estreitos

A Argentina possui uma aliança estratégica integral com a China, um tipo de vínculo que os chineses mantêm com poucos países. A relação entre ambos se aprofundou desde o governo da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner, quando foram assinados mais de 20 tratados e projetos de investimento.

Muitos desses tratados foram revisados durante o governo de Macri, que tem tentado aproximar-se de novos parceiros comerciais durante seu mandato. Apesar disso, os projetos chineses finalmente avançaram, como as represas em Santa Cruz ou uma central nuclear em Buenos Aires.

O presidente chinês Xi Xinping visitou Buenos Aires em 2018 no marco do G20 e assinou com Macri um Plano de Ação Conjunta 2019-2023. Contudo, a adesão da Argentina à iniciativa do governo chinês do Cinturão e da Rota continua pendente.

Na última década, a presença de produtos chineses nas importações da Argentina saltou de 5% para 20%. No entanto, as exportações da Argentina à China não seguiram o mesmo padrão de crescimento, mantendo-se entre 8% e 10% das exportações totais. Isso levou a um déficit recorde de mais de 5 bilhões de dólares no comércio entre os dois países.

Outras conclusões

Os resultados da pesquisa na Argentina seguem o cenário observado em outros países latino-americanos, onde o maior volume de investimentos chineses acompanha um olhar positivo para o país asiático.

No Chile, uma pesquisa da empresa CADEM mostrou que 77% dos chilenos têm uma imagem positiva da China, 16% mais que a imagem positiva dos Estados Unidos. Além disso, 51% consideram que o Chile deveria aprofundar os laços com a China. No México, 57% dos entrevistados têm uma opinião favorável sobre a China, em comparação com 43% que têm uma opinião favorável dos Estados Unidos, segundo uma pesquisa do Latinobarómetro de 2018.

Desde 2005, estima-se que a China emprestou 140 bilhões de dólares à América Latina—90% desse valor foram destinados principalmente à Venezuela, Brasil, Argentina e Equador. Contudo, a tendência hoje parece estar se revertendo.

Em relação à quantidade de dinheiro emprestado à região, a China superou organizações multilaterais como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina da CAF.