Demanda chinesa anima indústria brasileira de etanol

Inclusão do etanol em gasolina chinesa diminuirá emissões, mas pode causar desmatamento no Brasil

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Plantação de cana para produção de etanol em São Paulo: produção brasileira na safra 2018/2019 foi de mais de 30 milhões de toneladas. (Imagem: Department of Energy and Climante Change)

Trezentos e trinta e dois milhões de carros. Essa é a frota chinesa, a maior do mundo. Atualmente, a maior parte deles roda com gasolina pura. Porém, a partir do ano que vem, a China acrescentará 10% de etanol à gasolina.

O enorme potencial do mercado consumidor chinês animou a indústria de biocombustíveis do Brasil, a segunda maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Frequentemente afetada por mudanças políticas e econômicas no Brasil, a indústria vê uma chance de respirar mais tranquila com a entrada dos chineses no mercado.

Em maio, um conflito em relação a sobretaxas do açúcar brasileiro exportado para a China também foi resolvida, aumentando ainda mais o otimismo do setor.  O Brasil havia questionado a China na Organização Mundial do Comércio (OMC) a aplicação de sobretaxas às importações em setembro do ano passado.

Ambientalistas também comemoram: a inclusão do etanol na gasolina chinesa, que deve significar um corte importante nas emissões de gases de efeito estufa no país. Por outro lado, no Brasil, ambientalistas são mais cautelosos. Dependente de grandes plantações de milho e cana-de-açúcar, a indústria pode ser mais uma pressão no aumento dos índices de desmatamento.

“É possível dobrar a produção de etanol atual sem comprometer a de alimentos. Isso mostra o potencial de produção de um combustível de baixo carbono no Brasil”, explica Ricardo Junqueira Fujii, analista de conservação do WWF-Brasil. “Mas também aumenta a responsabilidade do governo e da sociedade brasileira sobre a definição de políticas públicas adequadas para o uso da terra e conservação da Amazônia, Cerrado e outros biomas brasileiros”, disse.

“Corre-se o risco de trocar um problema – a substituição de combustíveis fósseis — por outro, muito pior: o desmatamento”.

A medida foi anunciada pelo governo chinês em setembro de 2017 como um aceno ao comprometimento do país em reduzir o consumo de combustíveis fósseis estipulado pelo Acordo de Paris. Também é um meio de reduzir a dependência de importação de derivados do petróleo.

Combustível mais limpo

O etanol é um combustível consideravelmente mais limpo do que a gasolina. “A sua adição aumenta o grau de octanagem do combustível, melhorando o rendimento, evita o uso de metais pesados (especialmente chumbo) e reduz as emissões globais de gás carbônico”, diz ldo Sauer, professor da Universidade de São Paulo e membro da Câmara de Comércio Brasil-China (CCIBC) entre 2003 e 2005.

Mas a plantação de matérias-primas para a produção de etanol pode comprometer o uso da terra.

Desde 2009, o Brasil conta com o Zoneamento Agroecológico da Cana, que veda o avanço do cultivo sobre áreas indígenas ou de vegetação nativa, permitindo a plantação apenas em áreas de pastagem degradadas. Mas a bancada ruralista já pressionou por uma mudança.

Em 2017, uma proposição legislativa do senador Flexa Ribeiro que buscava abrir terras de cerrado e campos gerais na Amazônia Legal ao cultivo de cana-de-açúcar foi resgatada. A pressão de ambientalistas e até mesmo de alguns produtores acabou levando ao arquivamento do projeto em 2018.

Mas a região planejada para a expansão de cana não é a Amazônia, e sim a área conhecida como Matopiba (intersecção entre o Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), no Cerrado brasileiro — já combalido pela expansão da soja.

Enquanto isso, os órgãos de controle ainda brigam para implementar as regras de proteção existentes.

“O prazo para o cadastramento ambiental rural foi adiado várias vezes e é baixa a adesão aos Programas de Regularização Ambiental, etapa na qual os produtores apresentam seus planos para solucionar o passivo ambiental identificado”, diz Fujii, da WWF.

33.000.000

de toneladas foi a produção de etanol no Brasil na última safra

Soma-se a isso a preocupação com as condições de trabalho. Atualmente, boa parte da colheita é mecanizada, o que reduziu significativamente o trabalho escravo ou similares nos canaviais. Por outro lado, houve um aumento significativo do desemprego no campo.

Conforme dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP (Cepea), a atividade emprega formalmente cerca de 750 mil pessoas, 42% menos que os 1.283.258 trabalhadores formais registrados em 2008.

Eduardo Leão, diretor executivo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), argumenta que o ganho econômico é inegável.

“O setor sucroenergético é fonte importante de emprego e renda. Além disso, em cada município onde uma usina é instalada, a renda per capita aumenta em mil dólares por ano”, diz.

Brasil precisa enfrentar obstáculos

Apesar de prognósticos otimistas da adição de etanol à gasolina chinesa, uma série de fatores pode afetar o fortalecimento das relações China-Brasil no setor, como a trégua na guerra comercial entre americanos e chineses e questões socioambientais.

A quantidade do biocombustível que deve ser consumida na China no ano que vem é de 15 milhões de toneladas. Atualmente, a capacidade produtiva do país é de aproximadamente 3 milhões de toneladas/ano, com capacidade para chegar a 5 milhões em 2020, conforme dados do IHS Markit.

Assim, haveria uma defasagem de pelo menos 10 milhões de toneladas a ser suprida. O Brasil, que tem a China como maior parceiro comercial, é candidato natural a ser um dos principais fornecedores do biocombustível. A produção nacional de etanol na safra 2018/2019 foi de cerca de 33,1 milhões de toneladas.

Artur Yabe Milanez, gerente do Departamento de Biocombustíveis do BNDES, é otimista quanto às possibilidades de negócio:

“As perspectivas são excelentes. O Brasil há anos tem tentado abrir o mercado chinês ao etanol e parece que agora o esforço deu resultados”.

Outro fator que favorece o Brasil é a diversificação das fontes de extração do biocombustível. Além da cana-de-açúcar, utilizada tradicionalmente para produção de etanol no país, o milho surge como alternativa.

“O setor recebe grandes investimentos, especialmente no Mato Grosso e Goiás, inclusive com usinas flex, que operam com milho e cana”, explica Ricardo Tomczyk, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).

Entretanto, alguns segmentos se mantêm cautelosos quanto ao grau da participação brasileira no novo mercado.

“Espera-se que parte importante dessa demanda seja suprida pela produção doméstica [chinesa] de etanol”, explica Leão, da  Unica. “O Brasil, obviamente, está pronto para fortalecer ainda mais a parceria comercial com a China em relação ao etanol e contribuir para suprir a demanda não atendida pela produção local”.

“A China programa-se para produzir o etanol que consumirá, importando a matéria-prima e produzindo lá. Mas, em razão do grande impacto, pode ser que não tenha capacidade para toda essa produção, o que abriria oportunidades ao Brasil”, afirma Tomczyk.

Além da produção doméstica, outro empecilho às exportações brasileiras é a concorrência com outros países. Atualmente, o principal fornecedor de etanol da China são os Estados Unidos, e uma trégua na guerra comercial pode aprofundar as relações entre os dois países no setor de biocombustíveis.

“Os Estados Unidos desejarão ter uma fatia do mercado de etanol, que seguramente está na mesa de negociações da trégua”, afirma Sauer.

Alimentos versus combustível

A cautela é reflexo dos altos e baixos que o setor sofreu ao longo da história. O biocombustível, que hoje é visto como parte importante da política ambiental, na verdade surgiu por razões econômicas.

“A adição de etanol na gasolina é mandatória no Brasil desde 1938, e desde aquela época havia uma barganha dos produtores de cana”, explica Sauer. “Quando o preço do açúcar estava ruim no mercado internacional, havia pressão para que se ampliasse o nível de etanol da gasolina, e isso ocorre até hoje”.

Após um boom de biocombustíveis há uma década que coincidiu com um aumento nos preços globais dos alimentos, ainda há certo desconforto com a indústria.

Um relatório recente da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) destacou como os biocombustíveis podem elevar os preços das safras quando os preços do petróleo sobem.

Hoje, porém, o debate é menos acirrado do que em 2012, quando o então chefe da FAO, José Graziano da Silva, disse que o uso de milho para etanol nos Estados Unidos estava aumentando os preços dos grãos em todo o mundo. Mais tarde, ele suavizou sua postura.

“Precisamos passar do debate alimentos versus combustível para o debate sobre alimentos e combustíveis. Não há dúvida de que a comida vem em primeiro lugar”, disse Graziano em 2015. “Mas os biocombustíveis não devem ser vistos simplesmente como uma ameaça ou como uma solução mágica. Como qualquer outra coisa, eles podem fazer bem ou mal “.