Presidente da Colômbia vai à China para fugir da dependência do petróleo

Iván Duque visita China e busca revitalizar uma relação comercial baseada em matérias primas

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A visita de Iván Duque à China é a primeira de um presidente colombiano desde 2012. Imagem: Presidencia de la Republica.

Embora a Colômbia seja até agora o único país andino a não participar da iniciativa do Cinturão e da Rota, o governo do presidente Iván Duque está tentando aproximar-se da China.

Antes da última semana, a Colômbia era um dos poucos países da América Latina e do mundo que não havia feito uma visita de Estado à China durante os quase sete anos do governo de Xi Jinping. Nesse mesmo tempo, países como México, Brasil, Chile, Argentina e Peru já acumulam várias visitas.

A última visita de um mandatário colombiano à China foi em 2012, quando o então presidente Juan Manuel Santos se reuniu com o ex-presidente chinês Hu Jintao. Na cultura diplomática do país asiático, que preza pela confiança e se constrói mediante o contato entre chefes de Estado, essa ausência ajuda a explicar o fato de que os dois países têm uma das relações socioeconômicas menos sólidas da região.

“As instituições e empresários chineses com quem conversamos reclamavam que o governo colombiano levava sete anos sem fazer uma visita à China, e ficaram muito otimistas e contentes com a visita”, conta David Pérez, gerente geral da Prime Flowers, empresa que exporta flores colombianas à China. Pérez, que vive em Beijing há dez anos, é parte de um pequeno grupo de empreendedores colombianos que conhece o meio empresarial chinês.

O boom das commodities

Embora vários países da América Latina tenham a China como principal parceiro comercial, a Colômbia demorou a fazer o mesmo. O país não diversificou suas exportações para a China e teve dificuldades em identificar produtos além do petróleo e minérios que tenham uma boa acolhida nesse mercado.

Dos produtos exportados pela Colômbia para a China, 77,8% são formados por um fluxo de petróleo bastante lucrativo, que quase dobrou de valor entre 2017 e 2018, passando de 2,2 bilhões de dólares para 4 bilhões de dólares, segundo dados da agência de estatística DANE. Outros 18,6% correspondem a metais e ferro-níquel. Entre os 5,5% restantes estão o café, o açúcar e o glicerol bruto.

78%

das exportações totais da Colômbia para a China são de petróleo

A grande promessa adiada desde a visita de Santos em 2012 foi dar um maior protagonismo à agricultura e aos produtos industrializados dela derivados. Com valor agregado, esses produtos poderiam alavancar um maior desenvolvimento do ultrapassado campo colombiano. Nessa visita a Beijing, o ex-presidente que assinou o acordo de paz com as Farc em 2016 anunciou os primeiros passos para um tratado de livre comércio com a China, que jamais tomou forma.

“Os acordos assinados durante a visita do presidente Duque são promissores para melhorar as relações bilaterais. No entanto, é importante lembrar que sete anos atrás o presidente Santos também voltou da China com vários memorandos, e faltou um acompanhamento sério dos assuntos acordados”, argumenta o cientista político Benjamin Creutzfeldt, que morou na Colômbia por mais de uma década e atualmente é bolsista do Woodrow Wilson International Center for Scholars.

Nesse contexto, Duque repetiu alguns dos aspectos da visita de Santos, mas voltou com uma boa notícia.

A aprovação dos requerimentos fitossanitários para o abacate Hass foi o avanço mais concreto no campo da agricultura. Esse tipo de abacate vive uma época dourada na China: seu consumo aumentou em 30 vezes em apenas cinco anos, convertendo a fruta num dos principais produtos de exportação do Chile, México e Peru, ao ponto de gerar preocupações pelo enorme volume de água necessária para o cultivo.

Na Colômbia, o cultivo do abacate Hass aumentou vertiginosamente nos últimos anos. A fruta é hoje considerada um produto ideal para regiões rurais que estão tentando reconstruir suas economias após décadas de violência, mas sua produção se estagnou.

A maior decepção foi o adiamento das permissões para exportar carne bovina, suína e frango, que já levam quase uma década em tramitação sem conseguir aprovação, impedindo a Colômbia de seguir os passos da maioria dos países latino-americanos, que encontraram na China um mercado robusto e lucrativo para a proteína animal. Há anos se escuta que falta pouco para conseguir a permissão, mas a visita do presidente colombiano terminou sem nenhum avanço concreto.

Duque também anunciou acordos para duplicar ou triplicar as exportações de café à China, onde o consumo da bebida tem aumentado de maneira significativa. Como maior produtor de café de alta qualidade do mundo, a Colômbia deixou de aproveitar essa oportunidade, insistindo durante anos em vender cafés de menor qualidade, como o de tipo solúvel.

O governo colombiano também quer multiplicar em 13 vezes o volume de exportação da banana, que está em alta. Entre 2017 e 2018, o país multiplicou suas vendas para a China em quatro vezes (passando de 398 a 1.600 toneladas).

O mercado de flores, no qual a Colômbia também é líder mundial, tem gerado expectativas entre exportadores. “O maior impacto da visita em nível comercial foi que o produto entrou no discurso do presidente. É muito importante para o posicionamento do produto que quando a China fale da Colômbia, fale de flores. Houve uma exposição de flores colombianas em cada evento oficial durante a visita e isso teve um bom impacto, porque os empresários não sabiam que a Colômbia exportava flores de tão alta qualidade”, conta David Pérez.

Duque visitou Pequim e Xangai buscando diversificar a matriz exportadora de um país que concentrou 80% de seu comércio com a China em petróleo. (Imagem: Presidencia de la República)

Muito petróleo, pouca energia solar

Ironicamente, enquanto a Colômbia insiste em centrar seu comércio com a China em combustíveis fósseis, não foi capaz de aproveitar o forte desenvolvimento das indústrias de energias renováveis do país.

2,000,000

das 48 milhões de pessoas que vivem na Colômbia não têm eletricidade permanente

Durante a visita, o presidente Duque anunciou que a China doou 3 mil painéis solares para 1,5 mil moradias localizadas em regiões de infraestrutura energética deficiente. Embora o anúncio tenha o objetivo de impulsionar o comércio de painéis fotovoltaicos no país, a realidade é que a Colômbia até agora tem sido muito tímida em estimular o uso de fontes de energia alternativa, em parte devido ao fato de que 70% de sua eletricidade é hídrica e de que a matriz energética colombiana é uma das mais limpas do mundo.

No entanto, num país onde 2 milhões de pessoas (ou 4% da população) ainda não têm acesso a serviços de energia elétrica, segundo a Missão para a Transformação do Campo de 2015, a tecnologia chinesa poderia ajudar. De fato, oferecer luz a essas regiões é uma das metas centrais do capítulo rural do Acordo de paz, bastante criticado por Duque e contra o qual girou sua campanha presidencial.

“A doação mostra o interesse da China como o maior produtor mundial de painéis solares no mercado colombiano. Não é uma doação gigante, mas tampouco é minúscula. É simbólica, mas demonstra interesse na Colômbia, e isso é bom para o governo”, conta Alejandro Lucio, diretor executivo da Óptima Consultores, consultor de energias renováveis e ex-diretor da Associação de Energias Renováveis da Colômbia.

Colômbia quer estradas e turistas chineses

Embora a Colômbia não faça parte da iniciativa chinesa do Cinturão e da Rota — que busca uma maior cooperação econômica e política entre os países e regiões que o compõem —, em sua visita Duque tentou concretizar um maior investimento chinês no setor de infraestrutura, que está no cerne da iniciativa.

Duque anunciou que a China investiria 400 milhões de dólares no projeto rodoviário Mar II, que conectaria Medellín com o golfo de Urabá, graças a um crédito do China Development Bank. O presidente também anunciou a intenção de empresas chinesas de participar de licitações como a do adiado metrô de Bogotá ou da recuperação de navegabilidade do rio Magdalena, que percorre o país. Essas iniciativas se somam às frotas recentemente inauguradas de ônibus elétricos em Cali e Medellín.

Contudo, não houve qualquer sinal de que a Colômbia queira participar do Cinturão e da Rota. Há dois meses, o embaixador chinês na Colômbia escreveu uma coluna de opinião no maior jornal nacional instando ao governo que participe do projeto, mas o Chanceler Carlos Holmes Trujillo tem sido evasivo e reticente ao falar do tema. A visita de Duque não trouxe mais clareza à questão.

Outros anúncios causaram mais espanto. Durante a implementação do Fórum Econômico e Comercial Colômbia-China, Duque disse: “venho falar sobre temas pontuais e concretos. O que podemos alcançar nos próximos anos, o que podemos alcançar em um ano, em dois, em dez e nas próximas quatro décadas. Meu convite a vocês é que neste próximo ano podamos estabelecer o primeiro voo direto entre China e Colômbia”.

Se estabelecido, esse voo bateria o recorde de voo comercial mais longo do mundo, que atualmente é de 17 horas e meia entre Doha e Auckland, duas cidades a 14,5 mil quilômetros de distância. A distância entre Bogotá e Shanhai, que Duque quer cobrir com esse voo, é de 15,7 mil quilômetros.

O turismo chinês para a Colômbia tem aumentado rapidamente, registrando 16,9 mil visitantes em 2017, segundo estatísticas do setor de imigração colombiano. Esse crescimento abre espaço para mercados lucrativos como a fotografia de pássaros. Durante a visita de Duque, Baidu — a empresa chinesa similar ao Google — se comprometeu a promover a Colômbia como destino turístico. No entanto, com um volume de 324 turistas chineses que chegam à Colômbia por semana, restam dúvidas sobre o potencial de sucesso da proposta.

O resultado final da visita de Duque, que está tentando aproximar-se da China sem mostrar propensão a participar do Cinturão e da Rota, são acordos que — se forem levados em frente e concretizados — ajudariam a Colômbia a vender algo além de petróleo para a China.