Desmatamento na Amazônia é pressionado por soja e carne

Pesquisas mostram que é possível aumentar produção sem desmatar, mas 80% da destruição é para abrir pasto

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Pasto no Mato Grosso, um dos estados da Amazônia. (Imagem: caco.carvalho)

Na cidade amazônica de São Félix do Xingu, no estado do Pará, há quase 20 cabeças de gado para cada habitante. Com mais de dois milhões de animais, São Félix é a cidade com o maior rebanho bovino do Brasil. 

É também a terceira com o maior número de focos de queimada este ano, em que a crise de destruição da Amazônia aterrorizou o mundo.

São Félix é exemplo de como boa parte do fogo que o mundo assiste consumir a Amazônia é usado para abrir espaço para o gado. A pecuária é um dos motores do desmatamento na maior floresta tropical do mundo, com quase 80% da destruição florestal associada à formação de pastagens, segundo um estudo da FAO, Organização de Alimentos e Agricultura da ONU, de 2016.

O Brasil é o maior exportador de carne do mundo, com China e Hong Kong entre seus maiores clientes. O país também mira o posto de maior exportador de outro cultivo destinado aos chineses, a soja — uma cultura que, ao se expandir em outras regiões do país, pressiona fazendeiros e pecuaristas a desbravar nacos cada vez maiores da Amazônia.

O presidente Jair Bolsonaro insiste que o desenvolvimento da região — que está entre as mais pobres do país — deve prevalecer sobre políticas de preservação da floresta. Em reunião com governadores da Amazônia sobre as queimadas na semana passada, disse que a criação de mais reservas teriam por objetivo “inviabilizar” o Brasil.

Mas pesquisas mostram que a destruição da Amazônia pode destruir também o agronegócio brasileiro, mais importante pilar da economia local. 

Segundo André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, IPAM, mais de 90% da agricultura brasileira não é irrigada e depende da chuva gerada pela Amazônia.  Mas o desmatamento da floresta reduz a quantidade de água produzida por evapotranspiração e aumenta a temperatura, com maior emissão de CO2.

“A China é um dos maiores interessados em garantir água produzida pela Amazônia porque barateia produção de commodities”, afirma Guimarães. 

Agronegócio dividido

Alguns membros de organizações que representam o agronegócio brasileiro estão tentando se distanciar dos relatos de desmatamento na Amazônia. Os culpados, dizem eles, são grileiros que buscam lucrar com especulações imobiliárias, e não com negócios legais e lucrativos.

Luiz Cornacchioni, diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio, diz estar em discussões com o governo sobre como tomar medidas mais eficazes contra o desmatamento ilegal e uma de suas principais causas — o roubo de terra.

“Sustentabilidade é o nome do jogo. O setor não pode ser prejudicado por criminosos”, disse ele. “O agronegócio brasileiro já mostrou que é possível produzir e preservar. Temos um Código Florestal que deve ser cumprido. o governo precisa aplicar a lei e as penalidades que estabelece. ”

7.400

Quilômetros quadrados foi a média de desmatamento entre 2007 e 2016

Em 2017, o plantio da soja em área devastada cresceu 27,5%, segundo um relatório da Moratória da Soja — pacto ambiental  entre atores da cadeia produtiva, governo e sociedade civil para não aquisição ou plantio em áreas desmatadas da Amazônia, Mato Grosso, Maranhão, Tocantins, Pará, Rondônia e Amapá. 

Cerca de 76% do grão plantado em área floresta desmatada está no Mato Grosso, líder da produção no país. Apesar disso, as evidências de que a trégua funciona são muitas: a taxa média de desmatamento nos 89 municípios do estado pós-Moratória é 6,5 vezes menor do que no período anterior e que apenas 1% da soja na Amazônia está em áreas desmatadas recentemente. 

Um estudo feito por Ricardo Abramovay, economista na Universidade de São Paulo, mostra que a ideia de que desmatar aumentar a produção é enganosa. O investimento, ele argumenta, não deveria ser em desmatamento, mas em tecnologia.

Entre 1991 e 2017, a produção de grãos subiu 312%, enquanto a área plantada, 61%, segundo dados do Observatório do Clima — mostrando que é possível produzir mais em menos espaço. 

Já o desmatamento não traz grandes resultados. Entre 2007 e 2016 o desmatamento médio de 7,4 mil quilômetros quadrados por ano teve como resultado o acréscimo de 0,013% ao PIB brasileiro, segundo documento do Grupo de Trabalho pelo Desmatamento Zero, apresentado à 23ª COP, em Bonnix.

 “A destruição florestal não é, portanto, premissa para o aumento da produção de soja”, escreveu Abramovay no estudo  “A Amazônia precisa de uma economia do conhecimento da natureza”, publicado em dezembro de 2018.

Para Guimarães, do Ipam, é preciso separar o agronegócio produtivo do crime ambiental cometido na Amazônia.

“Mais de 90% do desmatamento é ilegal, resultado da ação criminosa de grileiros, madeireiros e garimpeiro”, disse. “Se é bandidagem, as forças corretas e honestas tem que estar todas alinhadas para isso, inclusive os compradores de commodities brasileiras”.

Pesquisadores dizem que as regiões mais vulneráveis da Amazônia produzem muito mais carne e soja para o mercado doméstico do que para a exportação. Mas, ao mesmo tempo, a demanda externa por produtos de outras partes do país, em que a agricultura é menos associada à desmatamento, empurra os compradores domésticos para regiões com alto índice de desmatamento.

65%

Das áreas desmatadas são usadas para pastagens de baixa qualidade

A complexidade da cadeia produtiva da carne e a falta de transparência dos frigoríficos também favorecem más práticas — chamada de lavagem de gado — de frigoríficos e seus fornecedores diretos e indiretos. 

Um levantamento feito pela Repórter Brasil mostrou que grandes empresas do setor, como JBS, Marfrig e Frigol, compram gado de pecuaristas multados em regiões campeãs de desmatamento, e que hoje estão no epicentro das queimadas na Amazônia. 

A pecuária na Amazônia tem outra característica: falta de produtividade. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) revelou que 65% da área desmatada é usada para pastagens de baixa qualidade. Na prática, significa que, em média, cada cabeça de gado na Amazônia ocupa uma área semelhante a um campo de futebol.

Enquanto isso, o desmatamento na Amazônia já corresponde ao dobro da superfície do território da Alemanha, segundo estudo de Abramovay.  Quase um quinto da Amazônia já foi destruído — em 1960, era 1%. 

O Brasil já mostrou que consegue frear o desmatamento, o que ocorreu de 2003 a 2012, quando as taxas caíram em 80%. 

Desde 2012, no entanto, o ritmo voltou a crescer, e o Brasil passou a desumprir o que prometeu internacionalmente — chegar a 3,8 mil quilômetros quadrados de desmatamento em 2020.

Segundo algumas projeções, o desmatamento da Amazônia neste ano pode passar de 10 mil quilômetros quadrados.

China se movimenta

Distantes da eloquência presidente francês Emmanuel Macron — que fez da proteção da Amazônia sua mais nova bandeira política —, os chineses têm se movimentado de forma mais silenciosa.

No entanto, o governo chinês subestimou as sugestões de que o país tem alguma responsabilidade por impulsionar o desmatamento na Amazônia.

“A correlação é nova para mim”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, em uma entrevista coletiva em 26 de agosto, em resposta a uma pergunta sobre o consumo global de carne bovina e os incêndios, que observou o possível papel da China como grande importadora.

A China estava ciente dos incêndios e apoiou o governo brasileiro em seus esforços para combatê-los, acrescentou ele.

Em reunião com representantes do agronegócio brasileiro no mês passado, Jingtao Chi, presidente da COFCO Internacional, maior empresa de trading da China, que importa um quarto da soja brasileira, repetiu a palavra “sustentabilidade” várias vezes, segundo Guimarães do Ipam.

Em janeiro deste ano, o presidente da empresa Jun Lyu, já havia surpreendido ao publicar um artigo em que conclamou a comunidade internacional a unir esforços para combater o desmatamento. 

Segundo Isabel Nepstad, consultora sênior da Rede Solidariedad, organização internacional com 50 anos de experiência no monitoramento da sustentabilidade de cadeias produtivas globais, ao se juntar ao ranking das grandes tradings internacionais, a Cofco tem ajudando a pavimentar o caminho para que outras empresas chineses comecem a dar bons exemplos.

“Seus anúncios chamaram a atenção de outras empresas na China e no exterior”, conta Nepstad. “No entanto, como outras empresas ainda não possuem um departamento de sustentabilidade, e a COFCO está em vantagem como empresa estatal com operações globais, levará tempo para ver publicamente mais compromissos praticados por jogadores chineses”.

A organização internacional Global Canopy, que mapeia cadeias produtivas que impactam o desmatamento das florestas tropicais, buscou explorar as cadeias de fornecimento da carne de vaca e do couro Brasil-China expostas a riscos de desmatamento. 

Descobriram que as 20 empresas chinesas mais relevantes nesse comércio não possuem política de sustentabilidade relacionada ao desmatamento, apesar de seu grande impacto.

“É de fato um mercado consumidor que impacta diretamente na expansão do agronegócio brasileiro”, afirma André Vasconcelos, pesquisador da América Latina da Global Canopy, responsável pela Trase junto com o Stockholm Environment Institute.

No cenário político, a ordem chinesa parece ser colocar panos quentes na crise. Em entrevista ao UOL, o ministro-conselheiro da China, Qu Yuhui, disse que a crise atual foi “um pouquinho fabricada” e que o Brasil tem um dos melhores padrões de preservação ambiental do mundo.

“O Brasil tem sido consistente na proteção do Meio Ambiente,” disse. “Não sou quem reconhece, mas a autoridade chinesa reconhece”.