Pagamentos digitais podem impulsionar estilo de vida mais ‘verde’

A iniciativa Ant Forest transforma escolhas verdes em árvores, mas será que esse modelo de pagamentos digitais pode ganhar escala?

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Alipay Ant Forest

Um local de florestamento da Ant Forest em Kubuqi, na Mongolia. A placa diz: “Área de plantação: 5.700 hectares; Número total de salgueiros: 171.000” (Imagem: Alamy)

A Ant Forest transforma as ações eco-friendly dos usuários da empresa chinesa Alipay, de pagamentos digitais, em “energia verde”, que depois pode ser usada para plantar e cuidar de uma árvore virtual. Quando a árvore alcança um tamanho determinado, o Alipay planta uma de verdade.

Em setembro, a Ant Forest ganhou dois prêmios das Nações Unidas em reconhecimento das ações climáticas que ela promove.

“A Ant Forest usa a tecnologia para conectar as pessoas ao meio ambiente, permitindo que todos participem de ações para salvar o nosso planeta. Isso tem um impacto enorme”, disse Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

A floresta que viralizou

Lançado em agosto de 2016, este miniaplicativo permite ao usuário acumular energia verde ao realizar atividades de baixo carbono, como caminhar (ativando o pedômetro do smartphone), pedalar em bicicleta compartilhada, realizar teleconferências e rejeitar utensílios descartáveis nos serviços de delivery – todas reduzem, mesmo que minimamente, o desperdício de recursos e a emissão de carbono.

122milhões

número de árvores plantadas pela Ant Forest até agosto de 2019

A energia verde que os usuários ganham na Ant Forest é usada no cultivo das árvores virtuais. Quando a árvore de um usuário cresce o suficiente, é possível pedir para a Alipay plantar uma árvore de verdade ou adotar um pedaço de área protegida. Cada tipo de árvore – saxauls (Haloxylon ammodendron), limoeiros, pinheiros brancos chineses – exige uma quantidade diferente de energia para ser plantada, o que reflete as suas necessidades reais de cultivo. Os usuários recebem um certificado virtual assim que a árvore é plantada.

O plantio e o cultivo das árvores são financiados pela Ant Forest e executado pelas prefeituras, organizações especializadas e agricultores locais. 

A Ant Forest é considerada um aplicativo social.

A energia verde fica disponível por 72 horas e desaparece caso não seja “coletada” dentro desse tempo. Os usuários podem ajudar os amigos, resgatando a energia deles antes que ela expire ou “regando” as suas mudas. Um dos pontos fortes do aplicativo é que ele imprime uma realidade maior ao estilo de vida de baixo carbono, associando-o a árvores de verdade e não apenas a conceitos meramente abstratos, além de aumentar a atividade dos usuários no Alipay.

Uma gravação da interface da Ant Forest. (Vídeo: Alipay weibo)

O aplicativo fez sucesso imediato: em seis meses já tinha mais de 200 milhões de usuários e, em abril, havia superado a marca dos 500 milhões de usuários. O número de serviços que compartilha dados com a Ant Forest não para de crescer e inclui recicladores de celulares, provedores de conferências virtuais, serviços de e-reader e fabricantes de embalagens “verdes”.

Acho muito legal ter a minha própria árvore, plantada em algum lugar do deserto

Em agosto de 2019, a Ant Forest já tinha plantado 122 milhões de árvores em diversas localidades, como na província de Gansu e na Mongólia Interior, compensando 7,9 milhões de toneladas de emissões de carbono, conforme divulgado pelo Ministério de Ecologia e Meio Ambiente da China.

Uma mestranda de 25 anos disse que conseguiu acumular 12 certificados desde que se tornou membro da Ant Forest em 2017: “Eu fazia muita caminhada naquela época, então ganhei bastante energia verde. Acho muito legal ter a minha própria árvore, plantada em algum lugar do deserto”.

Da energia virtual à floresta real

Os chineses têm muito conhecimento sobre as mudanças climáticas, mas isso não se reflete na quantidade de ações que eles tomam nesse sentido. Em um estudo realizado em 2017 pelo Centro da China para Comunicação sobre as Mudanças Climáticas, 90% dos entrevistados afirmaram que acreditavam nas mudanças climáticas, mas apenas 27,5% estavam dispostos a colocar a mão no bolso para compensar as próprias emissões. Wang Binbin, que realizou o estudo, disse: “Precisamos de uma abordagem mais acessível para incentivar o público a agir – as ações precisam ser muito fáceis, não podem dar trabalho”.

Wang Li, funcionário da Ant Forest, contou ao Diálogo Chino que eles não esperavam as centenas de milhões de usuários que hoje são ativos no aplicativo: “Todo mundo quer fazer boas ações, mas as circunstâncias individuais limitam as possibilidades. Executivos urbanos, por exemplo, podem até se importar muito com a natureza e o meio ambiente, mas eles não têm tempo de sair por aí plantando árvores. A Ant Forest ajuda as pessoas a fazerem a diferença de verdade através de pequenas escolhas diárias, promovendo a conscientização ambiental e melhorando o meio ambiente local”.

Para tornar a experiência mais tangível, a Ant Forest proporciona fotos de satélite das plantações e também organiza visitas e expedições para plantar árvores na primavera.

O Alipay tem uma enorme base de usuários – mais de 1,2 bilhão – e isso conferiu à Ant Forest um alicerce sólido. O sucesso da Ant Forest beneficiou o Alipay também: seis meses depois do lançamento do aplicativo, o Alipay teve um aumento de 60% nos usuários ativos por dia.

Deng Guosheng, vice-diretor do Instituto para Filantropia da Universidade de Tsinghua, acredita que as empresas que usam iniciativas de responsabilidade social corporativa como forma de obter aprovação dos clientes, ou mesmo para aumentar o lucro, podem ajudar a alcançar as metas ambientais – uma abordagem sustentável em que todos ganham.

Outros especialistas questionam a viabilidade das florestas plantadas em desertos, uma vez que a escassez de água pode afetar a sua sobrevivência. Outros pensam que a restauração das florestas degradadas é uma estratégia muito mais sustentável. De qualquer forma, as árvores plantadas nos desertos da região nordeste da China – como a Haloxylon ammodendron – toleram bem os climas mais secos. Algumas técnicas inovadoras estão sendo utilizadas para minimizar a necessidade de irrigação.

Qual é o alcance da Ant Forest?

O modelo de participação pública da Ant Forest está sendo testado em outros países também. Em julho, a Ant Forest lançou uma versão nas Filipinas, um país que vem sofrendo muito com o desmatamento nas últimas décadas. A plataforma de pagamentos digitais GCash pretende plantar 365 mil árvores em 365 dias. Segundo Wang Ling, a GCash Forest conta com 1,3 milhão de usuários e plantou uma primeira leva de árvores no dia 12 de outubro.

60%

dos usuários da Ant forest entrevistados em 2017 tinham até 28 anos

Para Deng Guosheng, o modelo “tecnologia + meio ambiente” tem suas limitações. A primeira é que os usuários da Ant Forest tendem a ser jovens. Segundo dados divulgados em 2017, 60% dos usuários têm menos de 28 anos; aqueles com mais de 50 anos eram menos de 20%.

“Os jovens acabam se envolvendo mais nesses tipos de ação, eles entendem melhor como funciona. As pessoas mais velhas, ou aquelas que moram em localidades rurais, não participam tanto”, disse ele.

A Carbonstop, uma consultoria especializada na gestão de emissões, apontou que a forma como a Ant Forest estava contabilizando o carbono estava desequilibrada. Apesar de registrar as atividades de baixo carbono, como andar de bicicleta, o aplicativo não estava registrando as de alto carbono, como dirigir um utilitário esportivo. Isso leva a uma situação em que indivíduos com pegadas de carbono completamente diferentes são recompensados de forma igual. A contabilização do carbono deve incluir a pegada completa de emissões, argumentou a Carbonstop.

Deng afirmou que o tempo e o dinheiro que o Alipay investiu na Ant Forest é muito mais do que a maioria dos projetos ambientais sequer sonharia, então é esperar para ver se o sucesso da iniciativa é fácil de replicar. “Mas a sua inovação deve ser reconhecida”, disse ele. “E espero que todos busquem trabalhar para ampliar a diversidade das abordagens ambientais”.

Esta reportagem foi publicada originalmente por chinadialogue.net