Xie Zhenhua, negociador climático chinês, deixa o cargo

China Dialogue analisa o legado do maior diplomata climático chinês, um dos principais arquitetos do Acordo de Paris

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Xie Zhenhua Global Climate Action

Xie Zhenhua fala na cúpula Climate Action Summit, 2018 (imagem: Climate Action Summit)

Em meio aos líderes mundiais reunidos em Madri para uma segunda semana de discussões climáticas, um dos rostos mais conhecidos seria o de Xie Zhenhua, principal encarregado das negociações climáticas da China há mais de uma década. Porém, ele não estará lá. Em seu lugar, encabeçando a delegação chinesa, estará Zhao Yingmin, vice-ministro da ecologia e do meio ambiente.

Provavelmente não haverá anúncio oficial, mas, conforme relatado ao China Dialogue por diversas fontes, Xie deixou o cargo de representante especial da China para mudanças climáticas. Como chefe da diplomacia climática chinesa desde 2007, Xie teve um papel essencial nos acordos internacionais de ação climática, elaborados com o objetivo de evitar níveis perigosos de aquecimento global.

Ao longo da última década, a China se tornou a maior fonte mundial de gases do efeito estufa emitidos anualmente. Ainda assim, nesse mesmo período, o país também mudou sua atitude, abandonando a teimosia em defender seu direito ao crescimento descontrolado das emissões e passando a buscar ativamente uma trajetória de baixo carbono. Essa transformação virou estratégia nacional. O papel de Xie Zhenhua como facilitador foi indispensável nesse processo, de acordo com seus antigos colegas, bem como outros negociadores e representantes da sociedade civil.

‘O direito ao desenvolvimento’

Em 2007, Xie Zhenhua se tornou vice-presidente do principal órgão de planejamento econômico da China, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC). A NDRC também se encarregava das políticas climáticas nacionais, até que essa pasta foi transferida para o Ministério da Ecologia e do Meio Ambiente (MEE) em 2018, em meio a uma reforma ministerial generalizada.

Nas discussões climáticas internacionais, Xie é conhecido como um negociador franco e implacável. Em 2011, na cúpula de Durban, o diplomata chinês bateu repetidas vezes em uma mesa ao protestar contra o que considerava ser a hipocrisia dos países ricos, que queriam impor metas de redução obrigatória de emissões na China. O momento foi amplamente divulgado na televisão chinesa.

A cena acima deu o tom do início do mandato de Xie como chefe da diplomacia climática chinesa: um negociador tenaz, defensor do “direito chinês ao desenvolvimento”. Nos anos antes e imediatamente depois das fatídicas discussões climáticas de 2009 em Copenhagen, a China participou de debates ferozes com os países industrializados – por vezes com troca de afrontas – discutindo como deveria ser compartilhado o ônus das medidas para combater o aquecimento global.

O impasse entre Estados Unidos e China, conjuntamente responsáveis por quase 40% de todas as emissões de gases do efeito estufa naquele ano, foi especialmente acalorado. O entrave em Copenhagen gerou uma declaração política e um forte sentimento de fracasso, ao invés do acordo vinculativo que se buscava.

Ele é inusitado e interessante, tem senso de humor e gosta de dar risada

Tanto na China quanto nos Estados Unidos, a narrativa sobre Copenhagen ganhou tons amargos. Xie criticou os países ricos, acusando-os de “conspirar para criar divisões entre as nações em desenvolvimento”, enquanto o americano Todd Stern, enviado especial dos Estados Unidos para o clima entre 2009 e 2016, descreveu a cúpula como “raivosa, nervosa e caótica”.

Tenaz, porém pragmático

Apesar do começo atribulado do relacionamento, Xie e Stern acabaram desenvolvendo um vínculo pessoal. Um visitou a cidade natal do outro, respectivamente Tianjin e Chicago. Até mesmo assistiram a um jogo de baseball juntos. Eles se consideram “velhos amigos”.

“Ele é inusitado e interessante, tem senso de humor e gosta de dar risada. Eu fui com a cara dele imediatamente”, disse Stern ao China Dialogue.

O americano acrescenta que a China e os Estados Unidos chegaram à mesa de negociações com visões muito diferentes, o que naturalmente criou dificuldades – e até mesmo brigas – entre os dois em diversos assuntos. Ao longo dos anos, no entanto, cada um aprendeu os limites do outro.

“Ele realmente entende a questão. É um forte defensor do que ele acredita serem os interesses da China”.

Stern descreve Xie como um negociador tenaz que sabe ouvir os outros. Essas qualidades o ajudaram a conquistar a confiança de seus pares em outros grandes países emergentes. Xie era capaz de apaziguar os ânimos quando as negociações entravam em etapas críticas. “Ele conseguia persuadir os outros países em desenvolvimento. Eu acho que ninguém é mais influente do que ele”, disse Stern.

Nas horas finais da cúpula anual do clima no ano passado, em Katowice, na Polônia, as discussões sobre as regras de implantação do Acordo de Paris chegaram a um impasse quando o Brasil se opôs à criação de um mercado global de carbono. O pacote inteiro ameaçava colapsar, pois a prática usual nas negociações da ONU é “só haver acordo quando todos concordam”.

Em uma entrevista à Televisão Central da China, Xie disse que o presidente da conferência havia confiado à delegação chinesa a tarefa de garantir a comunicação com as outras partes. “Após seis horas de discussões… conseguimos vencer o último obstáculo para se chegar a um acordo”, disse Xie, referindo-se à decisão de adiar as discussões sobre o mercado de carbono para a cúpula climática desse ano. Com isso, as regras do Acordo de Paris puderam ser aprovadas.

Um adepto do clima

Stern diz que Xie protegia os interesses de seu país – como todo negociador –, mas também se importava profundamente com o meio ambiente. “Tínhamos visões muito diferentes sobre o que precisava ser feito, mas nunca tive dúvidas de que ele negociava com preocupação sobre as mudanças climáticas e querendo que as coisas fossem feitas”, disse o americano.

Na comunidade climática da China, Xie é conhecido por seu compromisso pessoal com as questões ligadas ao tema, muito além da mesa de negociações. O diplomata visitou pequenos países-ilha, como Tuvalu e Fiji, bem como as regiões polares. “Eu testemunhei o impacto climático sobre as geleiras e vi o sofrimento dos ursos polares”, disse Xie a estudantes da Universidade Tsinghua, em um discurso recente.

Durante o seu mandato, o posicionamento climático da China se afastou cada vez mais da defesa do “direito de emitir”, passando a promover uma estratégia nacional de desenvolvimento de baixo carbono.

A velha narrativa dominante na mídia chinesa por volta de 2009 – a de que as mudanças climáticas eram uma conspiração dos países desenvolvidos para frear a ascensão do país – efetivamente desapareceu nos anos seguintes. Foi trocada por uma pressão crescente pela “revolução energética”, que significaria a implantação maciça de energias renováveis e um afastamento decisivo da queima de carvão mineral.

59%

é a participação do carvão na matriz energética chinesa, que caiu vertiginosamente, de 72% em 2005

O consumo de carvão voltou a aumentar nos últimos dois anos, mas não voltou ao nível registrado em 2013-2014, um pico ao qual a China não mais retornará, de acordo com muitos especialistas. Além disso, a participação do carvão na matriz energética chinesa caiu vertiginosamente, de 72% em 2005 para 59% em 2018.

Essa mudança tão grande na política energética não foi obra de um único homem. Ela coincidiu com a piora da crise de poluição atmosférica que pressionou as lideranças chinesas a promoverem arrojados cortes nas emissões. Mas alguns observadores, inclusive antigos colegas de governo que pediram anonimato, acreditam que as mudanças não teriam sido sequer imagináveis sem a contribuição de Xie.

Como vice-presidente da NDRC, ele conseguiu aproveitar as pressões internacionais direcionadas pessoalmente a ele, alavancando-as para buscar mudanças nas principais políticas climáticas da China. No papel de oficial com autoridade de ministro, seu compromisso pessoal teve um grande peso na elaboração de importantes políticas nacionais, como a criação de um mercado nacional de carbono, de acordo com observadores.

“A carreira de Xie será lembrada por sua liderança e dedicação ao desenvolvimento sustentável do país”, disse Li Shuo, assessor sênior para políticas globais da organização Greenpeace no leste asiático. “Seus esforços evidenciam o poder que um indivíduo comprometido pode ter, no sentido de criar mudanças e moldar a percepção mundial sobre a China. Este é, talvez, seu maior legado”.

Uma abordagem mais aberta

O fracasso em Copenhagen também levou a China a repensar sua abordagem durante as conversas internacionais. Durante o mandato de Xie, foi estabelecido um mecanismo de diálogo regular entre as delegações chinesas, a sociedade civil e a mídia, tanto na China como em outros países.

“Os negociadores climáticos [antes de Xie] não eram completamente inacessíveis, mas geralmente isso dependia de suas preferências pessoais: alguns estavam dispostos a conversar, outros não”, disse uma observadora veterana, membro de uma ONG, que tem participado nas discussões climáticas internacionais desde 2004 e preferiu manter o anonimato. “Porém, sob a orientação de Xie, foi criado um mecanismo para garantir que esses diálogos acontecessem todo ano, o que aumentou muito a compreensão mútua entre a China e a comunidade internacional”, ela completou.

De acordo com Bi Xinxin, então coordenadora do braço chinês da Rede de Ação Climática, a NDRC naquela época “não tinha o apoio necessário vindo de baixo para cima, nem a experiência para aumentar a conscientização sobre as políticas climáticas e promover o desenvolvimento de baixo carbono”. Por isso, a comissão estava disposta a ouvir as experiências práticas das organizações internacionais da sociedade civil, ela acrescentou.

“O diálogo se estende a assuntos nacionais, como a legislação para mudanças climáticas e os avanços nos ensaios-piloto de cidades de baixo carbono, bem como os recém-iniciados sistemas chineses de comércio de emissões”, escreveu Bi, referindo-se ao ensaio-piloto de mercados regionais de carbono, que abriu o caminho para a criação do mercado nacional.

Xie tem se mostrado disposto a responder perguntas e participar de entrevistas para a mídia nas cúpulas climáticas anuais. Esse tipo de acessibilidade é raro entre os oficiais ministeriais da China. Muitos acreditam que isso criou um precedente que aumenta a transparência da elaboração das políticas climáticas chinesas.

Quem irá substituir Xie Zhenhua?

A carreira de Xie como diplomata climático sênior chegou ao fim, mas ele não saiu completamente de cena. Em 2017, Xie recebeu o prêmio Lui Che Woo e doou o valor da premiação para sua alma mater, a Universidade Tsinghua, na esperança de que os 20 milhões de dólares de Hong Kong (2,5 milhões de dólares americanos) ajudem a fomentar a próxima geração de líderes climáticos na China. Ele também é o atual presidente do Instituto de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável na mesma universidade.

O título de chefe da delegação chinesa foi passado para o vice-ministro Zhao Yingmin. No entanto, muitos observadores questionam se as lideranças chinesas manterão um representante especial para mudanças climáticas, um cargo com responsabilidades mais amplas e maior flexibilidade diplomática do que o de vice-ministro. Isso poderá afetar a diplomacia climática da China, em um momento em que a maioria dos países precisa reforçar drasticamente seus compromissos climáticos, se quiserem reduzir as emissões o suficiente para atender a meta do Acordo de Paris, de 2 graus Celsius.

No passado, Zhao Yingmin foi assistente e protegido de Xie Zhenhua, quando Xie era diretor do órgão então conhecido como Administração Estatal de Proteção Ambiental, na década de 1990. Zhao foi responsável por departamentos de administração de normas ambientais e prevenção de poluição, antes de se tornar vice-ministro em 2016. Ainda não se sabe se ele terá a mesma abertura e entusiasmo de Xie em relação à mídia e às ONGs.

No entanto, alguns observadores já apontaram que o Ministério de Ecologia e Meio Ambiente tem menos força do que a NDRC no que diz respeito a influenciar o processo decisório sobre transformações no sistema energético chinês. Apesar do ministério ter montado uma equipe fiscalizadora forte nos últimos anos, as emissões de carbono ainda não são reguladas como poluentes na China.

À medida que o país enfrenta desafios econômicos cada vez maiores em casa, começam a aparecer sinais preocupantes de uma retomada do carvão mineral. Mais do que nunca, é preciso haver uma liderança forte para defender a ação climática durante as discussões internas do governo, e também para representar a China nesta etapa crucial das discussões mundiais, que exige uma ampliação das ambições.

Esta reportagem foi publicada originalmente pelo China Dialogue