Investimento chinês na rede elétrica não consegue evitar apagões na Venezuela

China se comprometeu a investir no sistema elétrico da Venezuela, mas resultado ainda é incerto

Compartilhar

Venezuela blackouts

Uma mulher lava pratos no meio de um apagão na cidade de Valência, no estado venezuelano de Carabobo (foto: Juan Carlos Hern)

Pedaços de cabos elétricos descansam no chão ao lado de um carro de 1996, em uma casa em Palo Negro, no estado de Aragua, no norte da Venezuela. A cada queda de energia elétrica, o pedreiro e ajudante de padaria Alberto Jaramillo, 52 anos, utiliza os cabos para conectar a bateria a uma lâmpada incandescente. O jantar com sua esposa e filha já não acontece mais na escuridão, embora a família tenha que comer no pátio, à mercê dos mosquitos.

Cada apagão pode durar de 15 minutos até várias horas. Por isso, é importante economizar velas. Os moradores observam o horizonte para tentar adivinhar quando a eletricidade deve voltar. Verificam se os postes de luz da estrada mais próxima estão acesos, se o apagão afetou também comunidades vizinhas ou a base aérea militar Libertador para prever quando terão luz novamente.

“Quando acaba a luz, eu posso pelo menos continuar a trabalhar em obra durante o dia, mas a padaria vai ficar vazia se a gasolina para a usina acabar. É uma perda para o dono e para mim, que sou forçado a trabalhar um dia sim, outro não”, conta Jaramillo.

A desenvoltura dos venezuelanos em lidar com as interrupções intermitentes de energia desde o apagão de 72 horas em março do ano passado varia do essencial, como ter luz em casa, a inventar opções alternativas de entretenimento. A jornalista Karina Peraza, de 43 anos, tem jogos de tabuleiro para seus filhos e organiza bingos para adultos mais velhos em Barquisimeto, no estado central de Lara. Outras famílias mais abastadas comparam geradores de emergência, que oferecem em várias lojas e redes sociais com preços que vão de 200 a 500 dólares.

A situação é pior em Zulia, estado na fronteira com a Colômbia. Na região mais quente do país, com abundante luz solar e as maiores jazidas de petróleo, as quedas de luz elétrica são muito mais frequentes. Às vezes há apenas quatro horas de eletricidade por dia, e algumas comunidades passam semanas sem luz.

Uma parte importante dos 5,691 bilhões de dólares que a China se comprometeu a investir na Venezuela em 2014 deveria ter fortalecido o sistema elétrico do país. Embora tenham dado início a vários desses projetos, tanto de energia hídrica como térmica, poucos venezuelanos parecem estar vivendo os benefícios desses investimentos cinco anos depois.

90%

de entrevistados afirmaram sofrer cortes de eletricidade

Cerca de 60% das paróquias civis do país, onde vivem 18 milhões de pessoas, estão submetidas a racionamentos elétricos que vão de 3 horas a 10 dias, segundo uma reportagem especial do portal Prodavinci. Dezenas de centros de saúde e de educação perdem entre três e sete dias ao mês por falta de eletricidade, segundo a investigação jornalística.

A reportagem também revela que o racionamento é desigual: os estados com maiores populações indígenas, bem como as capitais Caracas e Vargas, estão fora dos cortes programados. Desde o início da crise elétrica em 2009, o Executivo venezuelano deu prioridade à capital. Quando o governo instituiu os cronogramas de suspensão programada do serviço elétrico, nos quais comunica quando e onde não haverá eletricidade, Caracas está sempre fora da lista.

A empresa Consultores21 divulgou uma pesquisa no final de outubro de 2019 em que 90% dos entrevistados afirmaram sofrer cortes de energia elétrica.

Esses privilégios diminuíram depois do apagão de março de 2019, embora ainda sejam suficientes para atrair um fluxo de migração interna, sobretudo do estado de Zulia. As frequentes falhas elétricas, que atrasaram ou paralisaram a construção do metrô de Caracas quase todas as semanas, fazem com que milhares pessoas que caminhem por horas angustiadas para chegar a suas casas.

Insuficiência elétrica

Segundo o governo de Maduro, problemas elétricos não deveriam existir. A Segunda Comunicação Nacional em Mudanças Climáticas afirma, citando números do Ministério de Energia Elétrica, que no fim de 2014 havia uma capacidade instalada de geração de 30,5 mil MW, dos quais 14,9 mil MW são hidráulicos, 15,5 mil MW são térmicos e 50,2 MW são eólicos. O sistema venezuelano também contava com 3.388 sistemas de energia solar, oito térmicas afastadas e seis microcentrais hidroelétricas, para um total de 60,8 MW instalados.

A falta de informações oficiais sobre o funcionamento do sistema elétrico impossibilita conhecer a real situação do sistema. O documento que o governo venezuelano apresentou à ONU, criticado por ambientalistas por seu conteúdo político e impreciso, garante que a hidrelétrica Tocoma — já finalizada porém inutilizável — está em operação, assim como a geração de energia alternativa. O apagão de março revelou que não há sistemas separados ou independentes da hidrelétrica de Guri funcionando — nem os parques eólicos, nem os painéis solares.

O governo admite que 84% dos 243,4 mil Gg de CO2 equivalente provêm do setor de energia, dos quais 61% são gerados apenas por queima de energia, mas atribui o aumento de emissões desde 1999 ao crescimento da população, ao parque automotor e à economia. Vale destacar que 39% dos gases emitidos por produção de energia provêm da queima de gás natural, em parte porque a Venezuela tem em Punta de Mata a maior queima de gás natural do mundo.

Nós nunca passamos por isso antes, nem nas piores épocas. Eu gostaria de poder dar mais para a minha família

Em meio à escuridão estatística, não é possível nem mesmo conhecer o nível de água da barragem de Guri desde maio de 2016, já que o Ministério de Energia Elétrica parou de publicá-lo e acusou a mídia de criar controvérsias.

A última vez em que o Ministério de Energia Elétrica prestou contas de suas atividades foi em 2015. Em seu relatório, o ministério admitiu não ter executado a totalidade do orçamento em nenhum dos projetos planejados, ressaltando o descumprimento de projetos maiores como a “modernização dos despachos de carga” com 0% de progresso físico, o “fortalecimento das habilidades e capacidades técnicas dos funcionários do ministério” com 54,7% de cumprimento ou o “fortalecimento da infraestrutura informática do Ministério”, com 40% ainda pendentes de finalização.

A energia termoelétrica também ficou pendente. Nenhum dos 4,3 mil MW foram instalados, embora o governo tenha gastado metade do montante reservado para esse setor. O documento oficial dá razão às críticas: o “projeto de reabilitação e melhoras de infraestrutura de geração distribuída” apresenta oficialmente um zero duplo: 0% de progresso e 0% de dinheiro utilizado.

Os registros de projetos incluídos no relatório e assinados pelos técnicos são lapidários, o que poderia explicar o mau hábito de não prestar contas e também porque o estado de Zulia é o mais afetado. As obras da usina termoelétrica Termozulia III, que deveria fornecer energia ao estado, progrediram apenas 2,7%. Tampouco se construiu a subestação elétrica de San Francisco-Macaraibo, ou instalou-se o cabo subaquático no Lago de Macaraibo para atender a capital, Macaraibo, com 1,5 milhões de habitantes.

O mesmo aconteceu com a linha de transmissão elétrica Angostura de 400/115v, a expansão da transmissão e distribuição para o sudeste do país e com a linha de transmissão de 400v entre as cidades de Buena Vista e El Venado, que avançou apenas 4%.

Os atrasos não se limitam a 2015. A hidrelétrica Tocoma, iniciada em 2002 a apenas 100 quilômetros de Guri e entregue em 2014 pela empresa argentina IMPSA e pela corrupta multinacional brasileira Odebrecht, esperava dar conta de 70% da demanda elétrica do país. A gigantesca obra conta com um longo histórico de orçamentos inflados, paralizações, conflitos trabalhistas e descumprimentos de contratos. Os custos ultrapassaram os 9,4 bilhões de dólares, deixando apenas uma barragem rachada que nunca entrou em funcionamento.

Venezuela_electricidade_China

Yuanes perdidos

Em 21 de julho de 2014, o presidente chinês Xi Jinping visitou a Venezuela em uma visita de Estado na qual se comprometeu a investir 5,7 bilhões de dólares em acordos de cooperação.

Intitulado “XIII Comissão Mista de Alto Nível Venezuela-China”, o evento incluiu a assinatura de compromissos em seis setores estratégicos. No setor elétrico, os acordos incluíram o desenvolvimento de projetos de geração, transmissão e distribuição de energia, despacho de carga e energias alternativas na Venezuela. Desse montante, 4 bilhões de dólares seriam destinados ao chamado Fundo China-Venezuela, sem especificar detalhes de investimento.

No relatório de 2015 do Ministério de Energia, que revela a falta de cumprimento em todos os projetos do setor elétrico desse ano, um dos projetos recebeu investimentos do governo chinês.
As obras de transmissão vinculadas à construção da usina termoelétrica Don Luis Zambrano “El Vigía” de 570 MW no estado de Mérida, um dos mais afetados pelos frequentes apagões, avançaram apenas 12% nesse ano. O governo realizou estudos, desenvolvimento e inspeção de obras, mas o resultado foram apenas 600 metros de uma linha de transmissão e nenhuma das subestações requeridas, segundo o registro do projeto no Relatório 2015 do Ministério de Energia Elétrica.

O registro indica que o valor total do projeto foi modificado em até 9,1 bilhões de bolívares (cerca de 827 milhões de dólares à época), mas que foram gastos apenas montantes de cerca de 2 bilhões de bolívares (182 milhões de dólares). Por isso, entre as observações financeiras, recomenda-se pagar adiantamentos e avaliações “para acelerar as obras”.

Essa usina de ciclo combinado, que recebeu inicialmente 112 milhões de dólares do Fundo Chinês, foi anunciada em meados de 2012 como uma das “pontas de lança” do convênio China-Venezuela no setor elétrico. O governo anunciou com orgulhou o projeto incluía 720 funcionários chineses e venezuelanos, uma turbina e uma grua industrial que vieram do gigante asiático para a construção da usina.

Inaugurada em 10 de maio de 2014 com a primeira turbina de 200 MW, a usina ligou a terceira turbina de 180 MW apenas em janeiro de 2015. As obras de transmissão deveriam ter sido terminadas em meados do ano seguinte.

Quando a Assembleia Nacional formou uma comissão especial de deputados para o estudo da crise elétrica, que causou um desvio de 26 bilhões de dólares, convocaram-se todos os contratadores privados das obras construídas desde 2000. Em 4 de maio de 2016, Julio Peng Wei compareceu à comissão em nome da empresa chinesa CAMC Engineering para explicar detalhes das mudanças no orçamento da termoelétrica Luis Zambrano.

No relatório final de janeiro de 2017, a comissão revelou que, segundo Peng Wei, o custo total do projeto foi de 1 bilhão de dólares. O aumento se deveu à inclusão de uma linha de transmissão de 56kv, ao uso de tecnologias mais avançadas e ao encarecimento das obras de mapeamento e construção devido às condições geográficas da região montanhosa.

O executivo chinês também admitiu que a termoelétrica não tem entrada de gás, apesar de esta constar no projeto original, e por isso utilizava diesel e requeria manutenção mais frequente. A comissão encontrou um superfaturamento de 60% na obra, o equivalente a 317 milhões de dólares.

Em 2017, a estatal Corpoelec também encontrou irregularidades e desautorizou a empresa de assinar contratos com o governo, acusando-a de ter apresentado “documentação falsa” para a licitação do projeto de expansão do sistema de transmissão e distribuição elétrica de Los Valles del Tuy, no estado de Miranda. Esse tipo de controle veio tarde.

O site de jornalismo investigativo Armando.info revelou a abundância de contratos da CAMC Engineering desde 2003, apesar de suas repetidas falhas técnicas, de ter apenas 20 funcionários e um pequeno escritório em Caracas. Nada disso lhe havia impedido de obter 3 bilhões de dólares em projetos de eletricidade, agricultura e indústria. A CAMC chegou inclusive a fazer parte da lista de empresas certificadoras de reservas de mineração, embora não tivesse nenhuma expertise na área.

Termozulia
Foto: Corpoelec

 

Escuridão estranha

Os frequentes incidentes reportados em todo o sistema também paralisaram as turbinas 1 e 3 da termoelétrica Luis Zambrano no começo de 2018 devido a um incêndio.

Em uma declaração de agosto de 2019, outro funcionário político do governo, Freddy Bernal, pôs mais lenha na fogueira dos dados oficiais. A termoelétrica seria “reforçada” em 200 MW, uma quantidade menor do que a instalada originalmente, segundo o “protetor político do estado Táchira”, cargo paralelo criado por Maduro para dar contrapeso político à governadora de oposição de Táchira.

Nas duas obras ao encargo da Sinohydro, uma das maiores empresas estatais chinesas, detectaram-se também superfaturamentos de mais de 900 milhões de dólares.

Em outra reportagem investigativa, a Reuters revelou o resultado de um julgamento em Andorra contra mais de 20 pessoas de distintas nacionalidades, incluindo 12 venezuelanos, pelo pagamento de subornos milionários realizados pela Sinohydro e pela China CAMC Engineering para obter contratos públicos como a construção da planta termoelétrica de TermoCarabobo (também conhecida como El Palito) e a ampliação da subestação La Cabrera, ambas localizadas na região central da Venezuela.

Os subornos eram pagos a Diego Salazar Carreño, primo do ex-presidente da estatal petroleira PDVSA e ex-ministro de Petróleo, Rafael Ramírez.

Salazar, que de humilde cantor de salsa e vendedor de seguros tornou-se um magnata graças aos contratos com a PDVSA, está preso desde meados de 2017 nos calabouços da polícia política de Maduro (SEBIN) esperando ser apresentado a um juiz. O ex-diretor desse corpo policial, agora em exílio, Manuel Christopher Figuera, garante que a decisão de deixar Salazar no limbo judicial se deve a incongruências nas acusações.

84%

das emissões de CO2 da Venezuela provêm do setor energético

Um caso também obscuro é o da termoelétrica Planta Centro, localizada no estado central de Carabobo, outrora motor industrial do país. A usina, a maior desse tipo no país com 2 mil MW instalados, funcionava a apenas 27% de sua capacidade em 2016, segundo o relatório da Comissão Mista da Assembleia Nacional, apesar de sucessivos anúncios de reabilitação, melhora e ampliação.

Um desses anúncios foi a assinatura de um contrato em 2013 para acrescentar uma sexta turbina de 600 MW à Planta Centro, o que novamente foi apresentado como um grande avanço da aliança China-Venezuela. Trinta funcionários viajaram para a China para receber treinamento.

A obra durou seis anos, embora devesse terminar em 50 meses. Foi novamente financiada pelo Fundo Chinês, mas desta vez a empresa encarregada foi a China Machinery Engineering Corporation, que decidiu não comparecer diante do Congresso. A comissão mista encontrou um superfaturamento de 125% nessa ampliação, que alcançou um custo total de 1,5 bilhões de dólares.

Apesar do fluxo financeiro, a Planta Centro não está em operação. Em outubro de 2019, o novo ministro de energia elétrica, Freddy Brito, inspecionou as instalações para uma futura reativação. Seu funcionamento, ou o das duas obras a cargo da Sinohydro, teria evitado o apagão nacional de março nos estados de Carabobo e Aragua.

Se isso tivesse acontecido, Alberto Jaramillo e sua família não precisariam da bateria de um carro para gerar sua própria eletricidade durante os próximos apagões.

“Isso que entristece a gente. Esse país era tão próspero. E agora somos miseráveis”, diz Jaramillo. “Nós nunca passamos por isso antes, nem nas piores épocas. Eu gostaria de poder dar mais para a minha família.”