Soluções baseadas na natureza podem diminuir emissões globais

Líder nas discussões globais sobre biodiversidade, China busca soluções naturais para crise climática

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Um guarda florestal inspeciona manguezais em uma reserva natural na cidade de Danzhou, província de Hainan. Os manguezais são uma das inúmeras soluções baseadas na natureza para a crise climática (imagem: Alamy)

As soluções baseadas na natureza (SBN) são ações para a proteção e a gestão sustentável dos ecossistemas naturais. Elas são fundamentais para que possamos enfrentar os inúmeros desafios sociais e ambientais da atualidade, principalmente aqueles relacionados à crise climática.

As SBNs podem mitigar cerca de 12 gigatoneladas de CO2 por ano, contribuindo com um terço do corte necessário das emissões para limitar o aumento da temperatura global em 2ºC até 2030, segundo o Pacto Global da ONU.

Elas são essenciais para que os países consigam cumprir o Acordo de Paris de 2015, descarbonizar as suas economias e construir resiliência.

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... soluções baseadas na natureza vão ter um papel importante nos novos objetivos globais para proteger a biodiversidade

“Muitos países e regiões estão sofrendo os impactos das mudanças climáticas. Precisamos tomar ações para aprimorar a cooperação e encorajar a ambição e a transparência”, disse Ma Aimin, vice-diretor geral do Centro Nacional de Estratégias para Mudanças Climáticas e Cooperação Internacional (NCSC) da China, durante a conferência do clima da ONU realizada em dezembro na cidade de Madrid.

A China quer construir apoio para as SBNs na próxima discussão mundial sobre a biodiversidade, conhecida como COP15, que acontecerá em Kunming no final deste ano. O primeiro rascunho de um novo conjunto de 20 metas de conservação, para substituir as metas não atendidas de Aichi, foi lançado em 12 de janeiro e diz: "A biodiversidade e os benefícios que ela oferece são fundamentais para o bem-estar humano e um planeta saudável".

As SBNs aparecem em várias das novas metas propostas. Além de mitigar cerca de 30% do carbono emitido na atmosfera, a natureza beneficia populações em todo o mundo, melhorando a nutrição, fornecendo água limpa e contribuindo para uma maior resiliência contra desastres naturais, diz o documento.

“[A China] apoiou todas as fases do projeto das SBN com grande sucesso”, afirmou Manuel Pulgar-Vidal, líder da Prática de Mudanças Climáticas e Energia da WWF internacional. “Espero que possamos definir metas novas e mais eficazes na COP15 de Kunming.”

Soluções baseadas na natureza na China

Governos, ONGs e a sociedade civil estão trabalhando juntos para aumentar a ambição das metas e dos compromissos climáticos, mas é preciso fazer ainda mais, diz Ma.

“Precisamos intensificar as contribuições nacionalmente determinadas [os planos climáticos nacionais de cada país] buscando a mitigação, a resiliência e a adaptação em áreas-chave, como na restauração de florestas, na agricultura, na segurança alimentar e na proteção à biodiversidade. A governança climática também é importante, bem como promover incentivos ao financiamento verde”, disse ele.

Uma das SBNs adotadas pela China inclui a conservação dos manguezais que capturam carbono e protegem a faixa costeira da erosão e dos impactos climáticos mais severos. Essa é uma entre várias soluções marinhas naturais que pode frear o aquecimento do planeta. A maioria dos manguezais da China fica na costa das províncias do sul, como Guandgong, Guangxi e Hainan.

A restauração dos manguezais é feita “espontaneamente” pelas comunidades do sul da China desde os anos 50, segundo Chen Guangcheng do Ministério de Recursos Naturais da China. A primeira reserva nacional para proteção de manguezais foi criada em Hainan nos anos 80, mas hoje o país conta com 52 áreas protegidas que, juntas, cobrem 15.944 manguezais.

Não queremos ver a China exportando tecnologia obsoleta, mas sim tecnologia limpa e verde

Wang Yi, vice-presidente do Instituto de Ciência e Desenvolvimento da Academia Chinesa de Ciências, disse que uma abordagem de baixo para cima (“bottom-up”) é crucial para estabelecer e compartilhar as melhores práticas de soluções naturais para combater os efeitos das mudanças climáticas.

Wang também defende o que chamou de uma “cadeia de valores mais verde”, uma vez que ela diminuiria os impactos causados pelo setor de alimentos e o de produtos da floresta, incluindo as pegadas de processamento e de transporte.

Pulgar-Vidal disse que a gestão indígena dos recursos naturais é vital para o avanço das SBNs. “Para nós ficou claro que as áreas protegidas são um elemento-chave disso. A gestão das florestas por povos indígenas também vem se mostrando importante para viabilizar as soluções climáticas baseadas na natureza”.

O novo esboço de metas para a proteção da biodiversidade reconhece a importância do conhecimento e da prática tradicionais no gerenciamento de ecossistemas e no compartilhamento dos benefícios dos recursos genéticos.

Segundo Pulgar-Vidal, a China está priorizando as SBNs, portanto ele gostaria de ver iniciativas parecidas serem incluídas no próximo Plano Quinquenal de Desenvolvimento (2021-2025) do país, além de considerações sobre o clima e a biodiversidade na Iniciativa Cinturão e Rota.

“Não queremos ver a China exportando tecnologia obsoleta, mas sim tecnologia limpa e verde”, disse ele.

Comércio sustentável

As autoridades e empresas chinesas também estão conscientes da importância de assegurar a sustentabilidade da madeira importada de florestas tropicais.

Su Haiyin, secretário-geral do Centro para o Comércio Internacional de Produtos da Floresta, parte da Administração Nacional de Recursos Florestais e Pastagem, disse que o país pode vir a “desempenhar um papel ativo na governança global das florestas e em solucionar a exploração madeireira ilegal”.

As empresas chinesas estão sob pressão para “ajustarem e reestruturarem” o comércio de madeira devido às exigências que foram apresentadas pelo governo e às novas demandas do mercado, disse ele.

A demanda chinesa por carne bovina sul-americana está aumentando e está ligada ao desmatamento. Alguns produtores estão adotando métodos agrícolas mais sustentáveis que integram gado e conservação, como a silvicultura, enquanto outros estão comercializando produtos de baixo carbono para chineses preocupados com o meio ambiente.

André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), disse que é grande o potencial do Brasil no desenvolvimento de uma agricultura favorável ao meio ambiente, voltada à proteção da Amazônia, uma vez que a floresta abriga 15% da biodiversidade do planeta.

“O Brasil desempenha um importante papel na segurança alimentar, climática e hídrica do mundo. A nossa agricultura representa mais de 20% do PIB do país (a maior parte vem da pecuária, soja e cereais). O Brasil é o segundo maior exportador de alimentos e abastece as mesas de 1,2 bilhão de pessoas todos os dias”, disse Guimarães.

Temos muito espaço para intensificar o uso das pastagens e para o crescimento da indústria de carne bovina

As mudanças no uso da terra e os agronegócios são responsáveis por 70% das emissões de GEE no Brasil, que é o sétimo maior emissor do mundo. Em média, o país produz menos do que uma cabeça de gado por hectare de pasto.

“Esse número é extremamente baixo. Temos muito espaço para intensificar o uso das pastagens e para o crescimento da indústria de carne bovina. O código florestal ainda não está plenamente instituído e, segundo a nossa legislação, é fundamental manter florestas em terras particulares”, disse ele.

90%

do desmatamento no Brasil é ilegal

O desmatamento aumentou 29.5% este ano e mais de 90% do desmatamento no Brasil é ilegal, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE).

“Este é um desafio muito grande que enfrentaremos nos próximos anos. Em 2018, cerca de 40% do desmatamento aconteceu em terras públicas e isso é crime”, afirmou Guimarães, observando que existe uma correlação entre a proteção das florestas tropicais e o aumento da competitividade no fornecimento de alimentos ecologicamente saudáveis para o mundo.

“Acreditamos que o diálogo é o caminho que vai permitir a harmonização do uso da terra no Brasil. É possível produzir e exportar mais e, ao mesmo tempo, conservar e proteger os recursos naturais, principalmente as florestas tropicais”, disse ele.

Segundo Pulgar-Vidal, além das tendências de mercado, a vontade política também é importante para que a conservação da natureza faça parte das transações comerciais. Como exemplo, ele falou sobre os benefícios da recente proibição do comércio de marfim na China. “Isso é o tipo de sinal político que estamos buscando para sermos eficazes na gestão da natureza. Não só para fins climáticos, mas para benefício da natureza em si.”