Descoberta de lítio no México é ‘faca de dois gumes’

Novo metal pode acelerar a transição a energias limpas, mas põe recursos hídricos em risco

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Mexico's Sonora state mining impacts lithium

O estado mexicano de Sonora sofreu grandes impactos ambientais da mineração e a descoberta de enormes depósitos de lítio testará sua capacidade de extração responsável (imagem: LuisGutierrez / NortePhoto.com)

Com reservas de cerca de 244 milhões de toneladas, os depósitos de lítio descobertos pela empresa canadense Bacanora, no estado de Sonora, no nordeste do México, são os maiores do mundo. Têm quase 40% mais reservas de lítio do que o Thacker Pass, no estado norte-americano de Nevada, o segundo maior depósito, segundo informou o subsecretário de mineração mexicano, Francisco Quiroga, em dezembro.

O lítio é um componente central das baterias recarregáveis ​​usadas em smartphones e veículos eletrônicos (EV), por isso é essencial para a transição energética global.

A Ganfeng Lithium, maior produtora e fornecedora de compostos de lítio da China para a Tesla, já fez um acordo com a Bacanora para desenvolver a mina em Sonora, que será a primeira mina de lítio do México.

As empresas chinesas querem dominar o mercado global de veículos elétricos, que deve atingir 44 milhões de veículos até 2030.

"O lítio é o novo petróleo", disse Victor Manuel Toledo, secretário do Meio Ambiente do México, anunciando a descoberta de Sonora.

Embora o metal tenha potencial para energia limpa, há armadilhas. A exploração do lítio requer grandes quantidades de água e pode ter sérias conseqüências para o meio ambiente. Sua extração e industrialização também provocaram vigorosos debates nacionais sobre a propriedade e o gerenciamento de recursos em países como Chile e Bolívia.

O México tem o problema adicional de que sua mina de lítio está localizada em uma região controlada por cartéis criminosos que o governo não conseguiu controlar.

A expectativa é de que a extração de depósitos no município de Bacadéhuachi, em Sonora, que atravessa o rio Bavispe, comece em 2022.

China corre atrás do lítio mexicano

"A Ganfeng tem investimentos em recursos naturais em todo o mundo: China, Austrália, Argentina, Irlanda e agora México", disse Joe Lowry, especialista no mercado de lítio, ao Diálogo Chino. Ele observou que a empresa não pode investir em lítio nos Estados Unidos devido a regulamentos sobre controle estrangeiro de recursos estratégicos.

Atualmente, a China domina a cadeia de suprimentos de veículos elétricos e produz cerca de dois terços das baterias de íon-lítio do mundo. Os Estados Unidos produzem apenas 5%. A China também controla a maioria das instalações de processamento de lítio do mundo, de acordo com dados da Benchmark Minerals Intelligence.

Toledo disse que o governo mexicano está começando a fabricar veículos elétricos em fábricas estatais. O secretário de economia do estado de Sonora, Jorge Vidal, também disse que o governo local se reuniu com a Ganfeng para discutir a construção de uma fábrica de baterias próxima à mina.

Quiroga disse que a mina de Bacadéhuachi trará "progresso e bem-estar" a Sonora, um estado com altos índices de corrupção e violência.

Questões de segurança e sustentabilidade

Para Lowry, a localização da mina é “na melhor das hipóteses” desafiadora do ponto de vista da segurança. “Certamente, existem lugares muito melhores [do que Sonora] para investir em um projeto de lítio", acrescentou.

A mina está localizada em uma área afetada pelo crime organizado, a apenas 98 quilômetros de onde homens armados de um cartel de drogas mataram nove mulheres e crianças de dupla nacionalidade americana e mexicana no dia 4 de novembro do ano passado. Segundo a Reuters, a Coparmex, uma influente organização empresarial mexicana, alertou que a violência está fazendo com que os investidores percam a confiança na economia.

75%

O lítio do mundo é encontrado nos desertos do norte do Chile e Argentina e sul da Bolívia

Em 11 de novembro, ladrões armados roubaram ouro e prata sendo transportado de uma mina de Sonora em um incidente que serviu como "um lembrete inconveniente dos riscos de segurança enfrentados por mineradoras no México", escreveu o site de notícias de negócios recentemente BN Américas.

Além disso, especialistas argumentam, os preços mundiais de lítio são voláteis, e o setor de mineração do México, em particular, tem tido problemas para atrair investimentos há mais de uma década.

Escassez de água e derramamentos de produtos químicos

Sonora já enfrenta uma crise de desertificação e é classificada como uma zona de “estresse hídrico com patamar extremamente alto", de acordo com o World Resources Institute. Isso significa que a população já está usando mais de 80% de seu suprimento de água disponível.

Ricardo Durazo, coordenador do grupo de campanhas ambientais Fridays for Future, na capital do estado de Sonora, Hermosillo, disse ao Diálogo Chino que o fornecimento de água é um problema ambiental crítico no estado. A descoberta de depósitos de lítio é "uma faca de dois gumes", disse ele.

"Assim como o lítio é indispensável para a criação e desenvolvimento de energias renováveis, também é um mineral particularmente poluente", afirmou.

O processo de extração de lítio tem um risco inerente de contaminação. No Tibete, onde o lítio é extraído desde a década de 1960, um vazamento químico tóxico da mina de lítio Ganzizhou Rongdaem em 2016 matou peixes e animais dos quais as comunidades agrícolas locais dependiam.

O ácido clorídrico é usado para processar o lítio à medida que os resíduos são filtrados de salmoura, rocha ou argila. Isso gerou conflitos com as comunidades que vivem perto das minas na Argentina e no Chile. A extração de lítio também pode afetar a qualidade do solo e do ar.

"Acho que é um recurso que poderíamos aproveitar aqui no México, tanto para exportação quanto como fonte mais limpa de energia", disse Durazo. "Mas vai depender de políticos, autoridades e empresas de mineração implementar padrões de proteção ambiental".