O fator China nas eleições presidenciais do Peru

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Na fria serra de Huancabamba, ao norte do Peru, a discussão em torno de um projeto de mineração com capitais chineses resume os ânimos e a agenda política do atual processo eleitoral para eleger o próximo Presidente da República. Nessa região distante, próxima da fronteira com o Equador, rodeada de extensas e misteriosas terras vazias, as comunidades camponesas se opõem à operação mineradora Rio Blanco Copper, da companhia chinesa Zijin Mining Group. Cada vez que algum dos candidatos visita esta região e os camponeses perguntam pelo projeto de mineração, todos eles prometem melhorar o diálogo. O salto econômico do Peru nos últimos anos está associado ao investimento na atividade mineradora e teve como protagonista o capital chinês. Rio Blanco, na serra da Piura, é somente um dos 145 conflitos socioambientais registrados, que o próximo presidente eleito terá de resolver em um contexto de desaceleração econômica e com, pelo menos, cinco outros projetos mineradores estacionados. Qual será o futuro desses projetos? Este domingo, os peruanos vão eleger dois dos 10 candidatos que passarão ao segundo turno, que será realizado em 5 de junho, para competir pela cadeira  presidencial. Os favoritos são Keiko Fujimori (da Força Popular, que encabeça as pesquisas, com 33% das intenções de voto), Pedro Pablo Kuczynski (Peruanos Pela Mudança, com 16%) e Verónica Mendoza (Frente Ampla, com 15%). Em quarto e quinto lugares, com menos de 10%, se encontram Alfredo Barnechea (Ação Popular) e o ex-presidente Alan Garcia (Aliança Popular). Em uma campanha acidentada, na qual o Tribunal Nacional Eleitoral excluiu dois candidatos que, inicialmente, competiam em intenção de voto com Keiko Fujimori, e com os outros sete com menos de 10%, os analistas concordam ao afirmar que o segundo turno eleitoral será bastante disputado. A China é o principal investidor do Peru, com US$ 19 bilhões de dólares, que representa 34% do total dos investimentos estrangeiros. Em segundo lugar estão os Estados Unidos e o Canadá, com US$ 10 e US$ 8 bilhões respectivamente. Votos em conflitos Keiko Fujimori, candidata pelo partido Força Popular e filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que atualmente cumpre pena por corrupção e violação dos direitos humanos, lidera as pesquisas. Sobre os conflitos sociais, por rejeição às atividades mineradoras, o discurso de Keiko Fujimori foi se tornando conciliador nos últimos meses. Se durante a campanha de 2011 Fujimori propunha um desenvolvimento baseado no investimento minerador, durante o atual processo eleitoral a candidata fala da necessidade de dialogar com as localidades afetadas e sobre o estabelecimento dos processos de consulta prévia nas comunidades indígenas. No caso da mina Rio Blanco e outros projetos paralisados, Fujimori disse que buscará o diálogo permanente para evitar futuros conflitos e “conseguir uma convivência sadia entre a agricultura e a mineração”. Uma postura semelhante tem o candidato de Peruanos Pela Mudança, Pedro Pablo Kuczynski, que disputa o segundo lugar nas pesquisas. “Existem pessoas que não aprovam a mineração. Sempre há alguém que não gosta de ter uma escavação ao lado de sua casa. Isso é compreensível. A mineração produz trabalho e dinheiro. Mas deve ser bem limpa, nada de poeira ou fumaça”, declarou a uma rádio local. Entretanto, a candidata que mais conseguiu capitalizar o descontentamento nas zonas de conflito com a mineração foi Verónica Mendoza, da Frente Ampla, uma coalizão de organizações de esquerda que, nas últimas semanas, viu aumentar suas intenções de voto e luta agora pela possibilidade de passar ao segundo turno. Mendoza questionou duramente as práticas ambientais do setor minerador e, quando visitou regiões como a de Rio Blanco e Las Bambas (de capitais MMG Ltda., filial da China Minmetals Corp. e Guoxin Investment Corp.International), afirmou que estes projetos só terão continuidade se tiverem a aprovação da população. Temores ambientais: uma carga pesada A América Latina é, depois da Ásia, o segundo destino mais importante para a China. E o Peru é um dos que concentra mais investimentos, principalmente no setor extrativo. O gigante asiático é, há alguns anos, um dos atores protagonistas da indústria extrativa. Porém, a desaceleração econômica, associada à estagnação do crescimento chinês, desenha um cenário de incertezas. As cifras oficiais assinalam que o principal investidor no Peru, nos próximos anos, vai ser a China. Consultado sobre como vê as relações comerciais com este país nos próximos anos, José de Echave, integrante da equipe técnica da Frente Ampla, comentou com Diálogo Chino que, ainda que o setor minerador tenha vários problemas e os preços despencado, “estamos falando de um ator central, que é fundamental e que, diferente das empresas norte-americanas e europeias ou australianas, as chinesas têm autonomia financeira e um enorme fundo de investimento que lhes permitirá, em circunstâncias adversas, seguir comprando projetos e adquirindo consórcios mineradores de porte mundial”. O crescimento chinês propiciou o recente boom de matérias primas da América Latina que, por sua vez, foram uma grave causa de degradação ambiental na região e uma fonte significativa de conflitos sociais. Esta é uma das conclusões do estudo elaborado no ano passado pela Global Economic Governance Initiative (GEGI), da Universidade de Boston (UB) e pela Universidade do Pacifico (UP), do Peru. Echave reconhece que a aplicação do dinheiro da China “tem uma carga muito pesada em termos ambientais e carrega a ideia de não ter os melhores padrões sociais e ambientais”. O especialista e antigo vice-ministro do Ambiente acredita que o investidor chinês vai se comportar como qualquer outro investidor: “vai cumprir as leis ambientais e sociais existentes no país. Por isso, nossa tarefa é melhorar os padrões industriais e ambientais, para que os novos operadores de mineração tenham um desempenho aceitável”. Sobre este tema, o representante da Aliança Popular, Enrique Cornejo, afirma que “a China está aprendendo e melhorando seus padrões. Algumas vezes, não cumprem normas ambientais, mas isso vai se modificar, como está mudando a qualidade dos produtos chineses”. Perspectivas de futuro A equipe técnica da Força Popular não quis responder as perguntas sobre como vê em seu partido as relações com a China, se porventura chegar ao poder, mas Keiko Fujimori é a que tem a melhor relação com a China. Reuniu-se em várias oportunidades com representantes do Partido Comunista Chinês, a última vez em julho do ano passado. “Os investimentos chineses predominam no setor extrativo e têm uma visão de médio e longo prazo. A China está pensando nos próximos 30, 40 anos. Diferente dos investimentos norte-americanos, os da China têm uma lógica mais estratégica”, afirma José de Echave. No Peru, os projetos e investimentos chineses estão localizados, principalmente, nos Andes: Projeto Galeno, fronteiriço ao polêmico projeto Conga (Mineradora Yanacocha); ampliação do Toromocho (Junín); Las Bambas (Apurimac); Pampa de Pongo (Arequipa); Don Javier (Arequipa) e Rio Blanco (Piura). O investimento estimado para esses projetos chega a US$ 1.5 bilhões. “O Peru tem um instrumento de cooperação e de associação muito potente com a China e não o aproveita. O que há 30 anos representava os Estados Unidos, hoje é a China: o gigante asiático é o primeiro sócio comercial do Peru. Tem projetos pesqueiros, de mineração e energéticos. Seria necessário pensar em alguma possibilidade de que essa presença possa ser muito mais interessante em outros setores estratégicos como, por exemplo, a petroquímica, que significa desenvolvimento energético e, para os chineses, é um tipo de negócio bastante acessível”, disse Enrique Cornejo. Outro dos assuntos que o representante da equipe técnica de Alan Garcia menciona tem a ver com os desafios frente a estas novas relações comerciais. “Existem pontos que são mais complicados pelo fato de que o tamanho da China faz com que a concorrência conosco não seja tão equilibrada. Os têxteis peruanos sofrem muito com algumas importações que já chegam com dumping”, enfatiza Cornejo. Dependência de matérias primas Mina, sim ou não? Essa é a pergunta que desafia o discurso politico dos candidatos. A Frente Ampla diz: “70% de conflitos não são conflitos de rejeição à mineração, são conflitos de convivência. Um percentual de 30%, sim, é uma rejeição. Ninguém disse que a mineração deve desaparecer. Preocupa-nos o atual modelo extrativista, onde a mineração tem um papel central, porém com um marco favorável para proteger os direitos das populações”, confirma Echave. Os representantes do partido Aliança Popular, que tem como representante o ex-presidente da República, Alan Garcia, foi um dos principais críticos das propostas da Frente Ampla sobre o investimento em mineração. Enrique Cornejo critica a organização política de Verónika Mendoza, que “afirma que a mineração não é boa e que deve ser trocada pela agricultura. No mundo, há muitos países que têm agricultura e mineração de qualidade, é preciso ser inteligente e observar o que fizeram outros países, como o Canadá. Antes de entrar em conflito, muitas coisas podem ser feitas e quem deve fazê-las é o Estado e, em nosso governo, o Estado teria que desempenhar essa tarefa e não atribuí-la a um terceiro, a uma ONG ou à própria empresa privada”. Outro dos tópicos associados aos conflitos é a implantação da Consulta Prévia. Os planos de governo dos candidatos a mencionam, ainda que com diferentes enfoques. Tanto Keiko Fujimori como Pedro Pablo Kuczynski mencionaram que esta ferramenta – que busca o diálogo entre as comunidades indígenas e o Estado, antes da exploração de uma indústria – será aplicada nas localidades onde seja necessária. Enquanto isso, Verónika Mendoza afirma que será aplicada em todas as comunidades indígenas.