Contradições da Califórnia: entre políticas verdes e a indústria do petróleo

Imagem: Amazon Watch

Contradições da Califórnia: entre políticas verdes e a indústria do petróleo

Considerada a quinta economia mundial, o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, é visto por muitos como um modelo a ser seguido na batalha contra as mudanças climáticas. Sua reputação se deve ao pacote de políticas públicas implantadas a partir de 2005, que incluiu a redução de emissões, o estímulo às energias renováveis e o desenvolvimento de tecnologias limpas.

Mesmo assim centenas de manifestantes se reuniram em São Francisco para protestar contra o governador Jerry Brown, durante a Cúpula da Ação Climática Global (GCAS, na sigla em inglês) esta semana. O evento foi organizado pela Califórnia para reforçar a liderança climática que o estado assumiu junto a outras cidades e regiões do mundo.

“Somos 40 milhões de pessoas com alto poder aquisitivo e capacidade para criar um mercado de investimento e inovação. Desenvolvemos muita tecnologia e políticas que fizeram diferença no mundo”, argumentou a ex-senadora Fran Pavley. “Mas a Califórnia deve fazer mais, especialmente agora”.

A GCAS consistiu em três dias de reuniões e discursos de representantes de todo o mundo. Mas foi entendida, sobretudo, como uma celebração do legado de Brown na proteção do meio ambiente. Ele terminará seu mandato no fim deste ano, depois de uma longa carreira politica nos Estados Unidos.

O governador seguiu o caminho trilhado por seu antecessor Arnold Schwarzenegger, que brigou por leis mais duras para enfrentar as mudanças climáticas. A Califórnia se comprometeu a reduzir em 40% suas emissões até 2030 e implantou um programa de incentivos financeiros para tornar as empresas do estado menos poluentes.

Leis aprovadas recentemente também determinara que, até 2045, o estado terá uma matriz energética de zero carbono, e Brown assinou um decreto para descarbonizar a economia californiana inteira no mesmo período.

É um grande desafio. Entre 2006 e 2016, a economia cresceu 16%, a população aumentou 9% e as emissões só foram reduzidas em 11%, segundo um relatório recente da consultoria ambiental Next 10.

“Descarbonizar a economia será uma grande revolução para a Califórnia. É ambicioso, mas já alcançamos metas mais importantes no passado”, afirmou Noel Perry, fundador da Next 10. “Somos líderes em energias renováveis, eficiência energética, tecnologia limpa e políticas ambientais”.

Para mais da metade dos californianos, é muito importante que o estado seja líder mundial em ações contra as mudanças climáticas, de acordo com uma pesquisa recente do Instituto de Politicas Públicas da Califórnia. Dois de cada três entrevistados consideram que os efeitos das mudanças climáticas já podem ser sentidos, e 80% as avaliam como um problema sério.

Apesar disso, ainda existem grandes desafios, e um dos principais é o setor de transportes, responsável por 40% das emissões do estado. Com uma população de 40 milhões, a Califórnia conta com apenas 400 mil carros elétricos entre os 32 milhões de veículos nas ruas, segundo estatísticas oficiais.

As emissões do transporte aumentaram nos últimos quatro anos como resulta da tendência dos californianos de fazerem viagens cada vez mais longas do trabalho para casa. As distâncias mais longas são consequência do aumento de preços das moradias nas principais cidades, que força milhões a viverem mais longe dos centros urbanos. A quantidade de usuários do transporte público também caiu, em quatro das cinco maiores áreas metropolitanas do estado.

“Dirigimos 555 bilhões de quilômetros por ano na Califórnia. Não fizemos muito progresso no setor de transporte e precisamos avançar. Para tal, temos que voltar a ser mais verdes no setor energético e impulsionar os carros elétricos”, afirmou Ken Alex, assessor de políticas ambientais do governador Brown. “A Califórnia conseguiu muitas coisas nas questões de clima e meio ambiente, mas estamos longe de ser perfeitos. Queremos transformar nossa economia para que o resto do mundo siga nosso caminho”.

China, petróleo e Amazônia

Os combustíveis fósseis foram o foco dos protestos contra Brown durante a Cúpula da Ação Climática Global. A Califórnia é o sexto estado produtor de petróleo e gás natural nos Estados Unidos e autorizou a exploração de 53.825 novos poços em terra e 238 na água entre 2012 e 2016, de acordo com um relatório recente da Fracktracker Alliance.

O estado é o terceiro maior do país em capacidade de refino de petróleo, e importa combustível para este processo. Segundo a Amazon Watch, metade das exportações de petróleo da bacia amazônica ocidental do Equador são compradas por refinarias californianas.

A extração de petróleo na região amazônica é conduzida por empresas estatais e bancos de desenvolvimento da China, que autorizaram US$15,2 bilhões em empréstimos desde 2010. Eles serão pagos exatamente com a venda de petróleo, segundo informa a Amazon Watch.

“A grande maioria do petróleo exportado da Amazônia vem para as refinarias da Califórnia, vinculando o estado diretamente com a destruição das florestas tropicais”, reconheceu Moira Birss, porta-voz da Amazon Watch. “As comunidades próximas dos locais de exploração são as mais afetadas”.

O impacto da extração de petróleo na Amazônia é significativo, tanto para a biodiversidade como para os povos indígenas, muitos dos quais repeliram os projetos de exploração em suas terras. A gestão sustentável de extensas florestas por estes povos é uma das maiores contribuições para atenuar as mudanças climáticas.

Durante a GCAS, representantes indígenas do Equador e do Peru solicitaram a Brown, em repetidas oportunidades, que refreasse o uso de combustíveis fósseis na Califórnia e se comprometesse com uma economia completamente livre deles – algo que boa parte dos especialistas não acredita ser possível ainda.

“Participo desta grande manifestação com meus irmãos e irmãs de todo o planeta porque entendemos que é preciso deixar os combustíveis fósseis debaixo da terra, tanto na Amazônia como em todo o mundo”, declarou Mirian Cisneros, chefe do povo Kichwa de Sarayaku, na Amazônia equatoriana.

Também um grupo de vencedores do Prêmios Nobel e mais de 800 representantes de movimentos sociais e ambientais enviaram uma carta a Brown, felicitando-o por sua liderança em matéria climática, mas ressaltando a “responsabilidade moral” do estado que governa em impedir a exploração de combustíveis fósseis.

Impactos climáticos

Assim como em todas as regiões do planeta, nos últimos anos, a Califórnia também se viu exposta aos impactos das mudanças climáticas, já ressaltados em diversas pesquisas.

A temperatura do estado subiu entre 1 e 2 graus centígrados desde o começo do século XX, como resultado das emissões de gases do efeito estufa, comprovada pela quarta e mais recente análise de mudanças climáticas realizada pelo governo californiano.

A temperatura poderia aumentar entre 6 e 9 graus centígrados até 2100, dependendo da quantidade e da velocidade das ações a serem empreendidas. Essa alta viria acompanhada de uma elevação do nível do mar e do dobro de incêndios florestais.

Estes prognósticos poderiam ser ao menos amenizados pelos planos de Brown de descarbonizar totalmente a economia. Para isso, será essencial avançar sobre a indústria do petróleo e do transporte, promovendo o uso de veículos elétricos tanto para passageiros como para carga, segundo especialistas.

“A indústria de petróleo é muito poderosa na Califórnia. Emprega muitas pessoas e costuma alavancar bastante a economia, mas estamos nos afastando disso”, concluiu Julie Cart, jornalista ambiental do CALmatters. “O estado não abordou a questão do transporte, movemos muitos produtos à base de combustíveis fósseis”.

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