“Alguns proprietários apresentam planos silvipastoris e depois descobrimos que eles cortam mais árvores do que o que foi previamente autorizado. O desmatamento se dispersa no tempo; eles deixam algumas árvores dispersas no terreno”, explica Juan Pedro Cano, Diretor Nacional de Florestas da Secretaria de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Argentina.
Cano admite que os números do informe do Greenpeace são parecidos aos do órgão governamental.
“A causa do desmatamento é a ampliação da fronteira agrícola e pecuária, não apenas a soja. Mais que a demanda, são os preços das commodities que acompanham o desmatamento”, acrescenta Cano.
De acordo com a constituição argentina, as províncias têm soberania sobre seus recursos naturais, embora haja leis de orçamentos mínimos (como a de florestas ou de geleiras). Assim, a Secretaria costuma ir atrás quando ocorre desmatamento, embora seu perfil seja mais produtivista que conservacionista.
“Queremos que as florestas não sejam mais vistas como um obstáculo para a produção econômica”, afirma Cano.
Ele se entusiasma com um sistema de alerta que a cada 15 dias obtém informação por satélite de oito províncias da região chaquenha. Os resultados, por sua vez, são levados à autoridade provincial, que tem poder de polícia para sancionar ou não os desmatamentos não autorizados.
Giardini acrescenta que, quando se detecta um desmatamento ilegal, os empresários pagam multas irrisórias (se é que pagam), “um montante que se soma ao custo da limpeza do campo”.
US$50,000
a multa por desmatar 500 hectares de floresta ilegalmente
“Isso depende de cada província, da documentação, do tipo de infração. Mas, por 400 hectares, eles pagam uma multa de dois milhões de pesos (cerca de 50 mil dólares), um valor que não os incomoda”, acrescenta. Por isso, a organização ambientalista apresentou um projeto de lei para reformar o código penal e transformar os delitos ambientais em penais, com possibilidade de prisão para os responsáveis.
Globalização
Quem explica o papel da demanda chinesa no desmatamento que ocorre no norte da Argentina é o economista especializado em relações internacionais Gustavo Girado, diretor da pós-graduação em estudos sobre a China contemporânea da Universidade Nacional de Lanús.
“Não é pertinente associar a demanda chinesa com o desmatamento na Argentina, porque no ano passado o comércio foi triangulado pelos Estados Unidos: os barcos saem com a matéria prima e então são avisados sobre qual porto ir”, explica Girado. Ou seja, não é possível ter certeza de que de fato todas as embarcações tenham a China como destino.
Outra questão, portanto, é saber até que ponto pode crescer a área dedicada à soja no país.
“É difícil determinar”, reconhece Giardini. “Há muitas áreas onde ainda é possível cultivar soja, e é preciso pensar na eventual disponibilidade de modificações genéticas que permitiriam o cultivo em regiões de baixo índice de chuva”.
“Toda a inteligência científica está dedicada a buscar soluções para os grandes produtores e corporações. Não se investe no campo ou na agroecologia. Não nos adaptamos ao ecossistema, apenas fazemos com que o ecossistema se adapte a nós. Só interessa o solo. Quanto a isso, não sou otimista”, acrescentou.
Mas além da discussão técnica sobre o papel dos mercados, há solução possível para evitar o desmatamento num cenário mundial que demanda soja e outros produtos agropecuários só faz crescer? A resposta é que se poderia estabelecer convenções e exigências em função de pedidos dos consumidores e dos estados compradores que venham a se comprometer.
“Houve um compromisso desse tipo por parte de empresas de grãos que não compraram soja da Amazônia. Isso poderia ser estendido à região do Chaco: não comprar se não há garantia de desmatamento zero”, observa Giardini.
Nós não nos adaptamos ao ecossistema, o ecossistema se adapta a nós.
E completa: “De fato é algo que inevitavelmente deveremos fazer se queremos cumprir o Acordo de Paris contra as mudanças climáticas. Na Argentina, as mudanças no uso do solo e a pecuária geram mais das metades dos gases de efeito estufa que o país emite na atmosfera”.