Argentina aposta em neutralidade de carbono para não perder mercados

Produtores agropecuários buscam zerar a pegada de carbono de sua produção

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Argentina carbon neutral agriculture

O Programa Carbono Neutro da Argentina para agricultura foi lançado em novembro (imagem: Programa Argentina Carbono Neutro)

“Estamos diante de uma transformação importante no setor produtivo argentino. O desafio agora é, ao finalizar uma campanha agrícola, não apenas perguntar: ‘Quanto rendeu o trigo?’, ‘Como foi a soja?’, mas sim: ‘Como foi seu balanço de carbono este ano?’”.

Foi assim que Eduardo Serantes, representante do Grupo de Países Produtores do Sul (GPS), apresentou o novo Programa Argentino de Carbono Neutro, uma iniciativa ambiciosa do setor privado que busca colocar a Argentina um passo à frente em questões ambientais para mercados internacionais.

O objetivo do Programa Argentino de Carbono Neutro é neutralizar a pegada de carbono dos alimentos, bebidas e bioenergias de exportação. Isso significa reduzir e compensar a quantidade de gases de efeito estufa emitidos durante o ciclo de vida desses produtos, desde sua produção até sua destituição.

Impulsionado pelas bolsas de cereais e de comércio do país, o programa inclui um mapeamento ambiental da produção — ou seja, um cálculo da pegada de carbono de cada setor — e também autenticar o balanço de carbono dos produtos argentinos de exportação.

“Precisamos levar em conta esse novo paradigma produtivo, se queremos vender mais. Os padrões públicos e privados repercutem no acesso a mercados, em nossa competitividade, em nossos custos de produção e na percepção que os consumidores e as cadeias de comercialização têm de nós”, argumenta Sabine Papendieck, consultora em negócios internacionais.

Papendieck reconhece que, além de ganhar mercados, o programa pretende que a Argentina não perca os que já tem. “Dez anos atrás, era um plus, mas agora é para não perder mercados. Agora, os padrões ambientais são uma condição de acesso exigida pelos mercados europeus, mas que também começamos a ver em países como a China”, explica.

José Martins, presidente da Bolsa de Cereais de Buenos Aires, concorda: “Não se trata de vender um valor adicional, mas de acompanhar as novas demandas mundiais de certificação ambiental”.

Embora a participação no programa seja voluntária, Martins está otimista em relação ao desafio produtivo que essa mudança acarreta. “Queremos alinhar toda a cadeia agroindustrial a todas as bolsas do país na busca de um objetivo comum: trabalhar no cuidado do meio ambiente, um tema que nos preocupa muito”, assegurou Martins ao Diálogo Chino.

Como se produz um alimento “carbono neutro”

Pode-se atingir a neutralidade de carbono de três maneiras, segundo Ramiro Costa, subdiretor executivo da Bolsa de Cereais de Buenos Aires.

Os produtores podem gerar maior eficiência investindo em tecnologia limpa, implementando compensações diretas por suas emissões (por meio do plantio de árvores ou da mudança do uso do solo), ou comprando títulos que compensem o carbono emitido. Para Costa, trata-se de “uma oportunidade” para as empresas.

“Para nós, os benefícios são evidentes porque a demanda dos consumidores aponta nessa direção, e dessa maneira ficamos mais bem posicionados no mercado. Além disso, essas medidas acarretam melhoras na eficiência do produtor e aumentam seu acesso a mercados; vai ser mais fácil competir com outros países”, considera.

As empresas que decidam reduzir suas emissões podem ser incluídas em listas de empresas verdes de bancos de investimentos e de crédito, além de receber financiamento com taxas diferenciadas, argumenta Costa. “Assim, não se trata apenas de entrar num mercado internacional, mas também de eficiência produtiva e financeira”.

Resposta a novos consumidores

Os responsáveis pelo programa e os especialistas consultados concordam que essas mudanças produtivas são uma resposta às novas demandas dos consumidores de produtos argentinos no exterior.

Em negócios com países da União Europeia, Estados Unidos ou China, os empresários devem levar em conta cada vez mais variáveis de responsabilidade ambiental em sua cadeia de produção, transporte, armazenamento, distribuição e destino final.

“Os consumidores da maioria dos países compradores estão cada vez mais preocupados com questões ambientais, e os pedidos de certificação ambiental vêm crescendo”, afirma Costa.

Miguel Ángel Cinquantini, coordenador do Programa da Pegada de Carbono Corporativo da Rede Argentina de Municípios frente às Mudanças Climáticas (RAMCC, na sigla em espanhol), concorda: “As mudanças climáticas estão muito presentes na mente dos consumidores porque se trata de um problema angustiante”, opina.

A China é um bom exemplo do surgimento de novos consumidores que valorizam o cuidado com o meio ambiente nos produtos que adquirem.

Assim explicou ao Diálogo Chino Ernesto Fernández Taboada, diretor executivo da Câmara de Produção, Indústria e Comércio Argentina-China: “Mais da metade da população chinesa já é urbana, a classe média cresceu e tem um nível de vida melhor. Isso lhes permite experimentar novos produtos e ampliar sua dieta. Esses novos consumidores, em sua maioria jovens, têm uma preferência por produtos ecológicos”.

Para Fernández Taboada, o certificado de carbono neutro será uma nova realidade para muitos produtores no futuro próximo: “A evolução dos mercados internacionais, sobretudo o chinês, é vertiginosa. A Argentina está dando um passo à frente com um programa desse tipo”.

O setor privado frente às mudanças climáticas

Segundo o mais recente inventário de gases de efeito estufa, a agricultura, a pecuária (junto à silvicultura e outros usos da terra) são responsáveis por cerca de 40% das emissões poluentes da Argentina

Uma redução nas emissões dessas atividades por meio das medidas propostas pelo programa ajudaria no cumprimento dos objetivos de mitigação de mudanças climáticas, aos quais a Argentina se comprometeu frente à ONU.

De qualquer maneira, os países compradores de alimentos e matérias primas buscam reduzir as “emissões importadas” geradas na produção desses produtos.

Foi isso que se expressou no recente Informe sobre a Lacuna de Emissões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA): “...o fluxo líquido de carbono incorporado vai dos países em desenvolvimento para os desenvolvidos. Inclusive quando os países desenvolvidos reduzem suas emissões territoriais, a importação de carbono incorporado anula esse efeito...”

Para Cinquantini, da Rede Argentina de Municípios frente às Mudanças Climáticas, “com o Acordo de Paris de 2015 ficou claro que as medidas tomadas pelos governos nacionais e locais não são suficientes, e o setor privado precisa envolver-se de maneira contundente”.

Jorge Segura Mora, presidente da Planeta Carbono Neutro, empresa de consultoria que confere certificados ambientais a empresas na região, elogiou a iniciativa: “Em um mundo cada vez mais preocupado com o futuro do planeta, é de se esperar que este programa torne os produtos argentinos mais atrativos para os mercados internacionais”.

O governo federal também celebrou o lançamento do programa. O secretário de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável, Carlos Gentile, afirmou: “Esse é o tipo de iniciativa que o setor privado tem que promover. É uma maneira de mostrar uma radiografia do setor em relação a emissões. Tem muito potencial e se adianta a eventuais medidas restritivas do comércio internacional”.