Argentina vê oportunidade em crise da peste suína na China

País aguarda investimentos chineses para criar até 100 milhões de porcos por ano

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swine fever pushed up pork prices in China

Os preços da carne de porco na China aumentaram desde um surto de peste suína africana em 2018 e produtores estrangeiros como a Argentina estão tentando tirar vantagem (image: SCJiang)

Ao contrário de outros países da América Latina, a Argentina hoje é um exportador minoritário de carne suína, destinando 95% de seus seis milhões de porcos abatidos anualmente ao mercado doméstico. Contudo, isso pode mudar em médio prazo graças à China e à peste suína.

A peste suína africana (ASF, na sigla em inglês) reduziu em um terço a população de porcos na China, uma perda estimada em 100 milhões de animais. Como consequência, os preços do porco subiram e o país aumentou o número de importações para suprir a demanda.

100milhão

o número estimado de porcos que a Argentina exportará para a China, com o objetivo de recuperar sua população atingida pela peste suína

Na América Latina, esse cenário significou mais exportação de carne suína por parte dos principais países produtores, como México e Brasil — e, em menor quantidade, da Argentina, que exportou pela primeira vez à China em 2019. Mas potencial é muito em um país com grande oferta de terras e grãos.

Por iniciativa do setor privado, a Argentina e a China estão prestes a assinar este ano um acordo bilateral para impulsionar investimentos no setor, que poderiam chegar aos 27 bilhões de dólares e levariam a um aumento na produção argentina de 100 milhões de porcos nos próximos oito anos.

“Temos que pôr a Argentina no mapa da indústria suína e, com esse investimento, isso se torna possível. Estamos gerando trabalho, renda para o país e valor agregado para a produção de grãos”, argumenta Lisandro Culasso, presidente da Associação Argentina de Produtores Suínos (AAPP, na sigla em espanhol).

Argentina na mira da China

O projeto de aumentar a produção de carne suína na Argentina e a exportação para a China é resultado de um trabalho conjunto entre vários atores, como a AAPP e a Biogénesis Bagó, empresa dedicada à saúde animal com forte presença na China e no sudeste asiático.

Esteban Turic, CEO da Biogénesis Bagó, morou quatro anos na China fazendo a conexão entre os produtores argentinos e chineses. Como uma vacina contra a peste suína pode demorar até 10 anos, Turic observou uma oportunidade de mercado para a Argentina.

“A China precisa resolver a questão do abastecimento de carne suína, e a Argentina hoje não tem uma produção razoável. Mas temos um potencial enorme de insumos e recursos, o que falta é investimento”, explica Turic. “Os produtores chineses querem vir para a Argentina.”

Após o contato de Turic, a AAPP assinou um memorando de entendimento com a Associação Chinesa para a Promoção e Desenvolvimento Industrial da China (CAPID, na sigla em inglês). O passo seguinte será um convênio entre os dois países e a visita de empresários chineses à Argentina, que ocorrerá em março.

O projeto conta com o apoio do governo argentino e poderia gerar até 100 mil empregos diretos, segundo estimativas iniciais. Além disso, pode gerar um impacto positivo na economia com a construção de numerosas unidades para criação e engorda.

$1.70

o custo de produzir um quilo de porco na China, o dobro do que custa na Argentina (US$)

Segundo Culasso, o custo de produção na Argentina é menor do que em outros países produtores. Há fazendas na Argentina que produzem carne suína a 85 centavos de dólar por quilo, ao passo que nos Estados Unidos o custo é de 1,10 dólar e, na China, de 1,70 dólar.

“Fizemos um levantamento das principais empresas chinesas e o interesse é real. Estamos preparando tudo para receber os empresários interessados nos próximos meses”, conta Culasso. “É um montante de investimento ao qual não estamos acostumados na Argentina.”

Um salto na produção

Nos últimos sete anos, a Argentina duplicou sua produção de carne suína de 280 mil a 565 mil toneladas devido ao crescimento do consumo interno. O país foi autorizado a exportar porcos para a China em 2019, após realizar os primeiros envios.

Há mais de 100 mil fazendas de criação suína no país, a maioria na região central. A atividade conta com inúmeras vantagens, como a disponibilidade de milho e soja, que são a base da alimentação do porco, o clima favorável e a ausência de ameaças sanitárias.

As instalações devem ter medidas de biossegurança para prevenir doenças, tratamento de efluentes e ventilação adequada

Embora a Argentina não esteja exposta a doenças como a ASF, ainda há desafios para alcançar um uso racional de antibióticos e para levar mais em conta o bem-estar animal na produção, conta Jorge Brunori, especialista em porcos do Instituto de Tecnologia Agropecuária (INTA).

“O uso de antibióticos ainda é muito alto. O consumidor está pressionando a cadeia de produção para mudar esse cenário. É uma atividade que usa muitos produtos químicos, e pode haver no futuro leis que regulamentem a produção”, afirma.

O salto de 6 milhões a 100 milhões de porcos em poucos anos significaria um enorme desafio para a Argentina. Como hoje toda a capacidade instalada do setor é utilizada, seria necessário construir novas plantas industriais para processar esses níveis de produção com os padrões de qualidade adequados.

“As instalações devem ter medidas de biossegurança para prevenir doenças, tratamento de efluentes e ventilação adequada, além de uma circulação correta de animais. Se não obedece esses critérios, o produtor se expõe a riscos sanitários”, explica Turic.

Ao mesmo tempo, aumentar a produção representaria um desafio climático para a Argentina. Mais porcos significaria mais resíduos, que consequentemente poderiam gerar maiores emissões de dióxido de carbono.

O setor de agricultura, pecuária, silvicultura e usos da terra representa 39% das emissões da Argentina, segundo o estudo mais recente sobre o assunto. Produtores agropecuários argentinos se comprometeram a neutralizar a pegada de carbono de seus exportadores.

“Em fazendas concentradas, onde a eficiência é maior, a alimentação deve evitar monocultivos intensivos em carbono, seja dentro do país ou no exterior. Também é difícil manejar a grande quantidade de resíduos animais, o que leva a maiores emissões”, afirma Wanqing Shou, membro da ONG Brighter Green.