Mel chinês ameaça apicultura latino-americana

Adulterado e infiltrado nos mercados globais, mel chinês falso ameaça subsistência de produtores mexicanos

Compartilhar

Mexico honey

imagem: Robert Schmidt

A colônia de abelhas de Jesús Pech-Chei, em Yucatán, México, é vibrante: centenas de abelhas voam enquanto o mel sedoso escorre das colmeias. Jesús produz mel puro de abelhas há 15 anos, e seus filhos e sobrinhos querem manter o negócio, que já é tradição familiar.

Mas a aparente abundância esconde um futuro incerto. Apicultores como Jesús estão competindo com mel barato e impuro de fabricação chinesa, misturado com xarope de açúcar e desprovido das propriedades medicinais da variedade orgânica que imita.

"Nós vemos isso como uma séria ameaça à nossa produção", disse Jesús, acrescentando que o mel chinês adulterado é apenas a mais recente ameaça para os produtores de mel, que já são atingidos pelas mudanças climáticas e pelo uso de pesticidas.

60-70%

acredita-se que o mel vendido na China seja impuro

Três de cada quatro frascos de mel à venda no mercado mexicano são adulterados, diz Ignacio Vadillo, diretor de marketing do Ministério do Desenvolvimento Rural do México (Sagarpa). O mesmo fenômeno ocorre na Europa e nos Estados Unidos. O mel é o terceiro alimento mais falsificado do mundo, segundo explica Larry Olmsted em seu livro Fake Food Real Food, e está causado problemas em todo o mundo.

No México, existem 42 mil apicultores que produzem cerca de 57 mil toneladas de mel por ano, de acordo com o Sagarpa. A apicultura é um dos pilares de uma economia rural estimada em 100 milhões de dólares anuais. Mas, apesar de um aumento em 2018, a produção caiu nos últimos anos.

A China é o maior produtor e exportador de mel do mundo — além de ser o maior adulterador do produto. Os falsificadores chineses desenvolveram métodos ao longo de mais de três décadas, permeando os mercados internacionais.

A história do mel adulterado

O fenômeno do mel adulterado não é novo. A China possui cerca de um oitavo das colônias de abelhas do mundo, mas lutou para superar sua reputação de produtos baratos e de baixa qualidade, de acordo com um relatório da publicação de notícias Sina Finance.

Na década de 1990, os mais de sete milhões de colmeias da China começaram a produzir grandes quantidades de mel barato e a vender para os Estados Unidos, minando os produtores locais e levando a impostos pesados.

Como a participação da China no mercado global começou a diminuir, os fabricantes de mel começaram a adulterar os produtos – adicionando amido de milho e arroz -– para reduzir os custos de produção. Vídeos com instruções sobre como adicionar adoçantes e outros xaropes à mistura foram amplamente compartilhados on-line. Os padrões introduzidos em 2011, que se concentravam em segurança e qualidade, diferenciavam mel de 'produtos de mel', permitindo que muitos produtos duvidosos fossem vendidos legalmente.

Especialistas do setor estimaram que, em 2014, de 60 a 70% do mel chinês foi adulterado, segundo informou o Sina Finance. Muito dessa produção já chegou à América Latina.

À medida que os métodos de adulteração se tornaram mais sofisticados, a detecção se tornou mais difícil. Supostamente, existem vários métodos para determinar a pureza do mel, desde testar sua inflamabilidade (o mel autêntico deve captar luz) até misturar mel adulterado com iodo, o deve torná-lo azul.

No entanto, nenhum desses métodos comprova de fato se o mel é autêntico, segundo Ángel López Ramírez, pesquisador da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNAM. Não é fácil detectar a pureza ou a origem de mel, e só é possível fazê-lo em laboratório. O mel que contém pólen pode ser analisado para que se identifique a origem, mas se for filtrado — uma prática muito comum —, é impossível determinar onde foi produzido.

O mel chinês frequentemente contém cloranfenicol, um antibiótico poderoso que pode levar a um transtorno potencialmente mortal da medula óssea, razão pela qual o medicamento não é aprovado para consumo nos Estados Unidos. 

O preço do mel

O mel adulterado pode ser vendido pela metade do preço do produto autêntico, reduzindo os preços a patamares inferiores aos necessários para recuperar os investimentos, de acordo com Vadillo.

"Isso nos afeta muito. É uma concorrência ruim", disse ele, acrescentando que os preços caíram de 40 pesos (2 dólares) por quilo para 20 pesos em três anos.

Ao pagar mais, o mel será melhor, e o impacto na natureza será mais positivo

David Ekmul, um coletor de mel local, diz que os preços caíram até três vezes no mesmo período, com base em elevações de 65 pesos (3 dólares) por quilo. Ele disse que geralmente é possível detectar mel falso, porque o preço cai pela metade.

Anastasio Oliveros, presidente da União das Sociedades de Apicultura Ecológica de Calakmul (Usaec), disse que um controle governamental mais rigoroso sobre o mel importado e mais apoio aos produtores locais são necessários para proteger a indústria.

Arturo Lonighi, ecologista da Universidade de Exeter, no Reino Unido, disse que preços mais justos podem incentivar melhores práticas.

“Hoje o mel é muito barato, e o apicultor deve receber o preço justo por isso. Ao pagar mais, o mel será melhor, e o impacto na natureza será mais positivo”, afirmou.

Vadillo disse: "Se o mel convencional já é uma bagunça, a maneira de dar valor ao mercado e fazê-lo funcionar é aumentar a produção orgânica porque você precisa provar que a produziu de maneira justa".

Jesús, de Yucatán, enquanto isso, pediu aos consumidores que apoiassem o autêntico comércio de mel.

"Estamos procurando canais de marketing que não nos matem", disse ele.