Investigação liga JBS a 'lavagem de gado'

Reportagem revela que JBS transportou gado de área embargada para frigoríficos aprovados por Hong Kong

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A new investigation has linked JBS to a process known as cattle laundering

Uma nova investigação liga a JBS, maior produtora de carne do mundo, a uma triangulação de fornecedores chamada ‘lavagem de gado’ (imagem: Alamy)

Durante anos, a JBS, a maior empresa de carne do mundo, alegou não poder monitorar fornecedores indiretos acusados ​​de atividades ilegais. As alegações permitiram que a empresa se esquivasse da responsabilidade pela “lavagem de gado”, a prática de mover gado de fazendas ligadas ao desmatamento ilegal para outras sem autuações, antes de enviá-lo para matadouros, criando a aparência de uma cadeia de suprimentos livre de ilegalidades.

Mas uma nova investigação da Repórter Brasil, do Bureau of Investigative Journalism (TBIJ) e do Guardian encontrou evidências de que a empresa, cujas vendas para a Europa e Ásia cresceram nos últimos anos, pode estar diretamente implicada. A reportagem revela fotografias publicadas em uma rede social em julho de 2019 que mostram caminhões da JBS transportando gado de uma fazenda embargada por desmatamento ilegal da Amazônia para uma fazenda limpa do mesmo proprietário — um fornecedor aprovado pela JBS.

O embargo, imposto pelo principal órgão de proteção ambiental do Brasil, o Ibama, é tanto uma punição quando uma medida para permitir a recuperação de terras desmatadas. Ele cobre 39% da área da fazenda.

A revelação vem em um momento em que o governo e o agronegócio brasileiros estão sob crescente pressão de investidores internacionais e locais para combater o desmatamento, especialmente na Amazônia. Sob o presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, o desmatamento disparou, e pesquisadores esperam que a temporada de queimadas deste ano seja recorde.

Em nota, a JBS disse que o relatório "não reflete seus padrões operacionais". A empresa também disse ao TBIJ que investigou as evidências apresentadas e descobriu que a fazenda de coleta não estava dentro de nenhuma área embargada, de acordo com seu próprio sistema. A JBS disse que introduziu um novo sistema em 1º de julho que a empresa espera causar "um impacto significativo" na redução da “lavagem de gado”. 

“Estamos trabalhando para uma cadeia de suprimentos completamente transparente”, disse a empresa.

R$2,2mi

a multa que a Estrela do Apurinā recebeu em 2012 for desmatamento ilegal

A investigação descobriu uma postagem de um motorista no Facebook de julho de 2019, na qual ele é visto vestindo um uniforme da JBS, com pelos menos quatro caminhões em trânsito entre duas fazendas. No post, o motorista diz que sua equipe está transportando gado da fazenda Estrela do Apurinã, que foi multada em mais de 2,2 milhões de reais BRL em 2012 por desmatamento ilegal, para a Estrela do Sangue, fornecedora da JBS.

Documentos mostram que 7 mil cabeças de gado foram transportadas entre as duas fazendas entre junho de 2018 e agosto de 2019, diz a reportagem.

A reportagem também revela que registros oficiais de transporte de gado mostram que a fazenda Estrela do Sangue transferiu cerca de 3 mil cabeças de gado para dois abatedouros da JBS no estado de Mato Grosso entre novembro de 2018 e novembro de 2019.

Os dois abatedouros — nas cidades de Juína e Juara — são aprovados para exportar carne bovina para Hong Kong.

De acordo com dados divulgados pela iniciativa de monitoramento da cadeia de suprimentos Trase, quase 4 mil toneladas de carne bovina dos centros de logística da JBS nessas duas cidades terminaram em Hong Kong em 2017, quase 2% das vendas para esse destino naquele ano.

Nos últimos meses, a JBS se tornou uma importante fornecedora de carne bovina para a China, onde o aumento da renda tem alterado as dietas tradicionais e, mais recentemente, o surto de peste suína vem empurrando os fornecedores locais a buscar produtos alternativos no mercado externo.

Se a China der sinais de que se importa, isso faria diferença

As exportações brasileiras de carne bovina para a China cresceram 53% em 2019 e continuaram crescendo em 2020. O resultado foi que, mesmo quando as taxas de desmatamento dispararam no ano passado, o valor de mercado da JBS cresceu — embora, mais recentemente, a pandemia de Covid-19 tenha contido ganhos.

Pesquisadores há muito suspeitam que a JBS participe da prática de “lavagem de gado”. Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon, um centro de pesquisas sobre a Amazônia que rastreia o desmatamento, disse que as evidências no relatório levam as provas do envolvimento da JBS com fornecedores embargados para outro patamar.

Para ele, as novas evidências devem ser investigadas por autoridades e investidores que exigem melhores práticas de empresas do agronegócio.

"Não tenho expectativas de que a empresa faça grandes mudanças, a menos que haja implicações concretas", disse ele.

A JBS tem se defendido de acusações com uma auditoria conduzida de forma independente pela DNV GL, empresa sediada na Noruega, que concluiu que todos os seus fornecedores diretos na Amazônia atendem aos melhores padrões socioambientais.

Mas o auditor sempre disse a empresa não rastreia seus fornecedores indiretos. Em mensagens trocadas com a Anistia Internacional após uma investigação recente, representantes da DNV enfatizaram que sua auditoria não representa evidência de boas práticas na cadeia de suprimentos da JBS.

A JBS já foi acusada de usar fornecedores conectados a práticas ilegais no passado. Em abril de 2017, o Ibama embargou várias plantas da JBS e um exportador, depois de descobrir que a empresa havia comprado 20 mil cabeças de gado de fazendas que foram punidas por desmatamento ilegal. Mas decisões judiciais favoráveis livraram a JBS do pagamento de multas.

Segundo Barreto, nenhuma investigação ou ameaça anterior dos investidores resultou em punições significativas contra a JBS — salvo acusações de envolvimento com corrupção. Mas, segundo explicou, compradores chineses estão em uma posição privilegiada para forçar a empresa a fazer mudança. Ele conta que é comum ouvir fazendeiros diminuírem a importância de investigações e reclamações de ONGs internacionais e investidores da Europa.

"Eles normalmente dizem: 'então a gente vende para a China'", contou Barreto. "Se a China der sinais de que se importa, isso faria diferença."