Geoglifo milenar é destruído por fazendeiro na Amazônia

Episódio revela perigos para sítios arqueológicos em meio à expansão do agronegócio no Acre

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Amazon geoglyph farming

Há mais de 500 geoglifos milenares no Acre. (Imagem: Diego Gurgel/ Secretaria do Estado do Turismo e Lazer)

Por décadas, pesquisadores têm desvendado tesouros arqueológicos para combater crenças de que civilizações complexas inexistissem na Amazônia brasileira antes do período colonial. As evidências mais fascinantes talvez sejam os mais de 500 geoglifos milenares desvendados no Acre a partir dos anos 1970.

Mas, antes mesmo que cientistas descobrissem detalhes sobre as civilizações por trás das enormes figuras geométricas desenhadas no chão, algumas delas vêm sendo destruídas. Em um episódio revelado no início deste mês, um geoglifo de centenas de metros quadrados e milhares de anos foi aterrado para abrir caminho para a pastagem de bois e uma plantação de milho.

O dano foi levado a cabo por funcionários da Fazenda Crixá, onde estava o geoglifo, no fim do ano passado, mas só foi descoberto em uma análise de rotina do paleontólogo Alceu Ranzi, que pesquisa as estruturas há 40 anos.

“Temos aqui um monumento histórico de importância para toda a humanidade”, disse Ranzi, ao lamentar a destruição do geoglifo que ele mesmo descobriu em 2001. ”[Era] um museu a céu aberto que em nada atrapalha o desenvolvimento do agronegócio da região.”

Mas o geoglifo da Fazenda Crixá, no município de Capixaba, não foi o primeiro a sucumbir às máquinas, em meio à expansão agrícola que começa a ganhar força no Acre.

Há alguns anos dois deles foram cortados para a abertura da BR-317, que dá acesso ao município de Boca do Acre, no Amazonas, e da BR-364 para o município de Brasileia, no Acre — uma importante rota para o agronegócio local. Em ambos os casos, os geoglifos só foram descobertos durante as obras.

Amazônia afora, também é comum a destruição de sítios arqueológicos por obras. No Pará, os índios Munduruku tiveram que brigar por anos para reaver urnas sagradas desenterradas durante a construção de uma hidrelétrica.

O proprietário da Fazenda Crixá, Assuero Veronez, que é também presidente da Federação de Agricultura do Acre, disse que a destruição do geoglifo foi um acidente.

“Há uns dois anos eu falei para que eles não interferissem naquela área das valas”, explicou. “Estou disposto a mitigar o máximo possível os danos.”

Veronez agora aguarda uma visita dos técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para avaliar a gravidade do crime ambiental e dos danos ao patrimônio arqueológico no local. A denúncia de Ranzi também mobilizou o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, que abriram investigações sobre o caso.

Geoglifos: patrimônio da humanidade

O sítio arqueológico da Fazenda Crixá está entre os monumentos pré-históricos do Acre na Lista Indicativa a Patrimônio da Humanidade que o governo brasileiro apresentou à Unesco em 2015. Em 2018 o geoglifo de 2.500 anos do sítio arqueológico Jacó Sá, a 50 quilômetros de Rio Branco, capital do Acre, tornou-se o primeiro tombado como patrimônio cultural no país.

A Amazônia é alvo constante de exploradores e a cada fica mais difícil a fiscalização e monitoramento das ações daninhas

Os pesquisadores sabem muito pouco sobre a história por trás dos geoglifos do Acre. Eles estão entre os últimos a serem objeto de pesquisa pelo mundo, diferente, por exemplo, dos geoglifos do Peru e da Inglaterra, descobertos há um século ou mais. As estruturas só começaram a ser descobertas no fim do século 20, quando o crescente desmatamento na região amazônica revelou as enormes figuras desenhadas no chão.

A falta de material genético em suas estruturas dá pistas de que não havia aldeias ali. Alguns estudos aventam a possibilidade de que as estruturas sejam rastros de civilizações que adoravam deuses geométricos, e talvez fizessem ali seus rituais religiosos.

Mas pesquisadores concordam que os geoglifos são essenciais para entender o processo de ocupação e povoamento da região amazônica por civilizações antigas — e talvez até mesmo para desvendar se a Amazônia teria sido uma savana há milhares de anos, quando a vegetação baixa permitiu que fossem feitos os desenhos.

Agricultura em expansão

O governador do Acre, Gladson Cameli, foi empossado em 2019 com a promessa de acabar com os entraves que emperravam o crescimento do agronegócio no Acre. Ele defendia a ampliação da produção de soja e carne, ao exemplo do estado vizinho de Rondônia, o estado mais desmatado da Amazônia.

“Já temos áreas antropizadas em número suficiente para aumentar a produção e fazer do Acre um grande polo de exportação”, explicou o secretário de Produção do Estado, Edivan Maciel.

O novo projeto veio após décadas de gestões à esquerda, que defendiam uma economia sustentável, mas que não conseguiram levar desenvolvimento econômico e social ao estado, um dos mais pobres do Brasil.

A mudança de rumos é motivo de preocupação para o ambientalista da Organização Não Governamental SOS Amazônia, Miguel Scarcello. Segundo ele, toda atividade econômica em grande escala relacionada à exploração da terra põe em risco a região amazônica.

“Infelizmente a Amazônia é alvo constante de exploradores e a cada fica mais difícil a fiscalização e monitoramento das ações daninhas”, lamenta.

Um dos projetos mais importantes da gestão atual é criar uma zona especial de desenvolvimento agropecuário na região aos moldes de Matopiba, um polo agrícola no Cerrado que contribuiu para levar o bioma a perder metade de sua cobertura vegetal nativa.

A zona, ainda no papel, já foi batizada de Amacro, com as iniciais dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Seu idealizador é exatamente Veronez, o proprietário da Fazenda Crixá. Em uma entrevista recente sobre o projeto ao site O Eco, Veronez não escondeu o potencial do projeto de causar destruição ambiental.

“Desmatamento para nós é sinônimo de progresso, por mais que isso possa chocar as pessoas”, disse. “O Acre não tem minério, não tem potencial turístico, o que tem são as melhores terras do Brasil. Só que esta terra tem um problema, uma floresta em cima”.