Uma conversa sobre cooperação internacional em tempos de coronavírus

Tatiana Rosito, do Cebri, e Qu Yuhui, da Embaixada da China em Brasília, conversam sobre oportunidades de cooperação

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Uma reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban) em Beijing, em maio de 2019 (Foto: Alamy)

Os países da América Latina já começaram a entrar na parte mais aguda da epidemia do novo coronavírus. Enquanto a luz no fim do túnel ainda parece distante, muitos querem aprender com a China, que já deixou há meses a fase mais difícil da epidemia.

Por isso, Tatiana Rosito, que coordena o Grupo de Análise sobre China no Centro Brasil de Relações Internacionais (Cebri), convidou Qu Yuhui, ministro-conselheiro responsável por assuntos políticos na Embaixada da China em Brasília, para uma conversa sobre os desafios da pandemia e as oportunidades de cooperação. A conversa aconteceu em abril.

Reproduzimos aqui trechos da conversa, publicada em vídeos pelo Cebri. Além da seleção de trechos, as falas foram editadas para torná-las mais objetivas e facilitar a compreensão dos leitores.

Tatiana Rosito: Para dar início a essa nossa conversa, acho que seria interessante você compartilhar com a gente um pouco dessa experiência atual dos dias de hoje na China.

Qu Yuhui: Quando se fala de situação atual agora na China, de coronavírus, a situação está agora muito mais tranquila do que a três, quatro semanas atrás... Mas agora o nosso foco é também tentar impedir casos importados. Porque, senão, os esforços que foram feitos ficam totalmente desperdiçados.

 a concertação internacional já está vindo de forma tardia

TR: Agora começa uma maior coordenação em termos internacionais. Nós já vínhamos contando aí com o trabalho ativo da OMS. Agora vemos uma coordenação ainda inicial, mas bem-vinda, dos líderes mundiais, talvez de forma um pouco tardia, porque essa crise é bastante diferente também da recessão de 2008, 2009... Mas tem alguma possibilidade de que a China faça um pacote de apoio tão poderoso quanto aquele de quase 600 bilhões de dólares lá da crise financeira?

QY: Eu normalmente não sou uma pessoa pessimista, mas dessa vez eu não estou sendo muito otimista em relação ao cenário futuro, porque diferente do cenário de 2008, quando o mundo sofreu sobretudo a crise financeira, acho que desta vez o mundo vai sofrer várias crises.

A crise financeira acho que já está tomando o seu contorno... E desta vez provavelmente vamos ter uma recessão da economia real porque estamos sendo afetados não só no lado de oferta, mas também no lado de procura, por causa do coronavírus. Também as medidas tomadas por muitos países, que injetaram mais liquidez de capitais podem servir no curto prazo, mas ninguém pode prever quais são os seus resultados no curto, no médio e no longo prazo para a economia mundial.

Por outro lado, temos também fatores políticos. Acho que a geopolítica está muito mais complexa em relação a 2008, protecionismo, populismo, unilateralismo, conservadorismo estão com uma voz muito vívida, muito alta no mundo de hoje. E a concertação internacional já está vindo de forma tardia. Portanto, todos esses fatores fazem com que nós estejamos vivendo um momento extremamente complexo…

Mas enfim, acho que a boa notícia é que a comunidade internacional finalmente consegue tomar ou começar tomar algumas medidas para tentar analisar, interpretar melhor a situação. Essa cúpula extraordinária do G20 é uma boa notícia [a reunião foi posteriormente cancelada], a conferência telefônica entre o presidente Xi e o presidente Trump é outra boa notícia – claro temos também a conversa entre o presidente Xi e o presidente Jair Bolsonaro.

Acho que a comunidade internacional está mais ciente da necessidade de uma maior concertação internacional, para juntos respondermos. Mas precisamos fazer muito mais. Como podemos produzir em conjunto políticas macroeconômicas que poderiam ser mais sensatas? Porque não é só aumentar investimento, imprimir mais dinheiro...

TR: Uma das questões que a gente discutiu bastante no Cebri e no grupo China no ano passado foi justamente as consequências que a guerra comercial — que agora parece uma coisa distante diante de tudo que estamos vivendo… Primeiro, se a fase 1 do acordo com os Estados Unidos está mantida… E como fazer para que esse acordo, se é possível, não se dê em detrimento de outros parceiros, e também siga regras da OMS...

QY: A situação evoluiu tão rápido que um tema que chamava tanta atenção hoje quase todo mundo já esqueceu, que é esse acordo comercial entre a China e os Estados Unidos, na sua fase 1. Acho que o coronavírus certamente vai causar alguns impactos na implementação deste acordo… Sinceramente, eu não sei… Mas pelo menos eu diria que ele agora não é a prioridade número um nas relações entre China e Estados Unidos. A prioridade número 1 é como a China e os Estados Unidos possam colaborar, coordenar em vez de concorrer no combate ao coronavírus. Portanto ainda tem uma série de dúvidas sobre a fase 1 do acordo entre China e Estados Unidos...

TR Em relação a fluxo normal de comércio, investimentos. Vocês tiveram alguma notícia de interrupções?

QY: Nós temos apenas os dados para os dois primeiros meses. E nos parece um pouco surpreendente porque não está sendo muito afetado pelo coronavírus… Acho que também, não podemos ser tão otimistas para esse ano. Certamente vai ter alguns impactos, com redução de transporte, intercâmbio de pessoas. Área de investimento, não sei, mas talvez vá sofrer algumas dificuldades esse ano.

Essa pandemia torna ainda mais evidente a necessidade de melhorar e reformar o sistema de governança mundial.

TR:  Alguns falam em “diplomacia da máscara”, mas talvez o que importa não seja nem tanto essa cooperação humanitária, mas os efeitos disso no médio e no longo prazo, dos espaços que a China pode ocupar. Como a diplomacia chinesa está vendo isso?

QY: Primeiro ponto, para a China não interessa provocar uma discussão sobre qual seria o melhor modelo de governança, por que o mundo é muito grande, tem muitas culturas, cada país tem sua própria história e não faz muito sentido convencer os outros países que o seu modelo de governança ou o seu regime é o melhor...

Mas, por outro lado, se podemos fazer uma discussão, fazer uma troca de experiências nas nossas maneira de tratar de alguns problemas, aí faz sentido, sobretudo nos temas internacionais, temas globais, aí podemos ver qual seria a solução mais sensata e eficaz para enfrentar alguns problemas. Por exemplo, aqui a questão de se vamos melhorar um pouquinho a nossa governança global.. Aí esse tema interessa, sim, à China. Porque a China não vê o atual sistema de governança mundial, global como um sistema já totalmente perfeito, mas, sim, ainda carece muitas reformas, ainda tem muito espaço para melhorar. E essa pandemia torna ainda mais evidente a necessidade de melhorar e reformar o sistema de governança mundial.

TR: O Brics é um exemplo disso?

QY: É um exemplo. Talvez aí podemos fazer algumas comparações sobre quais seriam as políticas públicas internacionais que podem atender melhor às necessidades que possam melhor responder às emergências… Acho que nesse contexto podemos talvez construir uma discussão não necessariamente conflitante, mas uma discussão construtiva. De como a comunidade internacional pode em conjunto responder melhor a questões tão graves como o coronavírus...

Sem a cooperação entre a China e os Estados Unidos, acho que o mundo não vai poder vencer essa batalha.

A intenção da China é justamente introduzir esse tipo de discussão, não necessariamente para provocar os outros, ou para mostrar que a China é melhor que os outros, mas sim provocar essa discussão para que pouco a pouco a comunidade internacional consiga construir alguns consensos pelo bem maior. Isso também talvez se insira um pouquinho no conceito que a China tem defendido muito fortemente nos últimos anos, a humanidade com futuro compartilhado. Parece ser algo muito utópico, mas perante o atual cenário de coronavírus, talvez a gente possa ter outra leitura sobre esse conceito, em vez de ser uma coisa utópica, mas um dia realmente faz com que a gente pense um pouco melhor sobre como a gente pode compartilhar a nossa vida, né?

TR: Querendo ou não, isso existe… É uma comunidade com futuro compartilhado.

QY: Sim, para o bem e para o mal.

TR: Essa conversa está sendo muito interessante. Queria agradecer, e dar oportunidade para saber se tem alguma mensagem que você queira deixar para a gente.

QY: Primeiro, que pela nossa experiência temos que dar a devida atenção e importância a essa questão… As medidas rigorosas não são necessariamente suficientes para já acabar com o coronavírus, mas sim para ganhar tempo, para que a gente possa fazer pesquisas, utilizar os meios tecnológicos, para que a gente possa achar soluções, e para que ele não afete tanto nossa economia.

E, em segundo lugar, é que essa pandemia pode ser vencida… Em terceiro lugar, acho que devemos buscar um caminho equilibrado no combate ao coronavírus e no desenvolvimento socioeconômico, não são contraditórios… E, em quarto lugar, acho que a cooperação internacional é fundamental. Sobretudo nesse momento, há muitas dúvidas sobretudo em relação à China e aos Estados Unidos, as duas principais economias do mundo. Acho que o mundo inteiro quer ver um esforço conjunto entre as duas economias do mundo, em vez de uma disputa desnecessária entre a China e os Estados Unidos. É algo que a China quer fazer...

Sem a cooperação entre a China e os Estados Unidos, acho que o mundo não vai poder vencer essa batalha. Pela interdependência das duas economias. Pelo grau de cooperação elevado entre as duas economias.  Nesse processo, acho que o Brasil também pode ter um papel importante. Ou seja, o Brasil sempre tem mantido uma política externa independente, de equilíbrio, não é? Tatiana, você sabe melhor que eu. E se continuar a manter esse tipo de política externa equilibrada, acho que também vai pode ajudar na aproximação entre China e Estados Unidos. E isso vai, enfim, beneficiar toda a comunidade internacional.