China e América Latina: dependência no século XXI?

A especialista em relações internacionais Barbara Stallings fala com Diálogo Chino sobre seu novo livro que dá nova vida a uma ideia antiquada

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China e Venezuela assinaram acordos de bastidores com pouca transparência, disse a professora de relações internacionais Barbara Stallings a Diálogo Chino (imagem: Alamy)

Nos anos 1960, alguns estudiosos estavam frustrados com suposições de que as economias e sociedades latino-americanas acabariam se desenvolvendo e se tornando "modernas", assim como os países ricos. Por isso, eles criaram a teoria de que havia uma dinâmica de dependência entre os dois grupos há séculos – e que isso impedia o desenvolvimento dos países pobres.

Os teóricos da dependência afirmavam que desde a integração da América Latina na economia mundial capitalista no século XVI, principalmente como exportador de commodities, seu destino estava nas mãos das elites, situadas tanto no "núcleo" industrializado como em seus próprios países "periféricos". A Europa representou o primeiro centro e, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como o poder hegemônico global.

A teoria da dependência fez importantes contribuições para o estudo das relações internacionais, especialmente pelo chileno Enzo Faletto e pelo brasileiro Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde se tornaria o presidente do seu país. No entanto, ela caiu em desgraça nas décadas de 1980 e 1990, quando um consenso sobre a necessidade de mercados abertos e liberalismo político se espalhou pelo mundo e os críticos passaram a condenar a teoria por negar o poder de transformação dos países em desenvolvimento.

dependency theory China-Latin America in C21

Mas em seu novo livro Dependency in the 21 st Century? The Political Economy of China-Latin America Relations (Dependência no Século XXI? A Economia Política das Relações China-América Latina, em tradução livre), Barbara Stallings argumenta que, com a ascensão da China, a teoria antiquada pode oferecer outras formas de compreender a relação da nova superpotência global com a América Latina.

Stallings, professora da Universidade de Brown nos Estados Unidos, falou com o Diálogo Chino sobre suas razões para revisitar a teoria da dependência, por que a grande aposta da China na Venezuela não tem sido tão desastrosa quanto parece, e o que as próximas eleições americanas significam para as tensões geopolíticas que pressionam a América Latina.

Diálogo Chino [DC]: O que a levou a querer voltar à teoria da dependência como forma de melhorar nossa compreensão das relações China-ALC contemporâneas?

Barbara Stallings [BS]: Recebi um convite dos editores de uma série de livros curtos da Cambridge University Press, chamados Elements. A série em que eu estava envolvida tinha como objetivo ter seus primeiros livros sobre conceitos que se originaram na América Latina e viajaram para outras regiões. A dependência é claramente um dos principais candidatos. Eles estavam interessados em rever a literatura sobre dependência e ver até que ponto ela é útil hoje em dia. No final das contas, decidi que a dependência oferece de fato uma estrutura útil para olhar a China e a América Latina.

DC: Existe algum exemplo claro de um país latino-americano que tenha uma relação de dependência com a China neste momento?

BS: Uma das coisas que eu fiz no livro foi dividir a América Latina em dois grupos. Em um grupo, é claro que a Venezuela é o principal exemplo. Ela estava bastante disposta a seguir quaisquer regras que a China colocasse na mesa e assinar acordos nos bastidores, sem transparência.

Do outro lado, estão os países que se orgulham do Estado de direito, dos quais o Chile seria um exemplo. O Chile se orgulhava de ter regras para compras públicas. Se, por exemplo, uma empresa chinesa quisesse construir uma ponte, o Chile diria: "Entre na lista e faça um lance... Se você ganhar a licitação, tudo bem. Se você não ganhar, nós não precisamos de você". Mas recentemente eles tiveram alguns problemas com seu cabo submarino [fibra ótica], que deveria ir do Chile para a Ásia e ser construído por uma empresa chinesa. Mas, de uma forma ou de outra, eles foram convencidos pelos EUA de que era uma má ideia, e agora uma empresa japonesa vai construir o cabo. A China também comprou uma parte da principal empresa chilena de lítio e está tentando fazer o Chile exportar lítio bruto, ou na melhor das hipóteses refinado, mas certamente nenhuma bateria.

DC: Quão desejável é uma situação de dependência para a China em casos como o da Venezuela? Existe um nível ótimo de dependência que a China gostaria de ter?

BS: Eu acho que a China tinha uma ideia muito diferente quando tudo isso começou com Hugo Chávez. Eles sabiam muito menos sobre a América Latina do que sabem hoje. Aqui havia uma grande fonte de petróleo à qual eles podiam vincular o pagamento da dívida de uma maneira muito inteligente. Os EUA, por meio do mercado de títulos, e a China com os bancos de desenvolvimento, basicamente emprestaram à Venezuela a mesma quantia de dinheiro - 60 bilhões de dólares. Agora, a exposição da China é de 20 bilhões de dólares e a dos EUA é de 60 bilhões de dólares. Um foi mais esperto aí.

O que os chineses não queriam fazer era entrar em uma relação política. Chávez queria arrastar a China para suas manobras antiamericanas. A China viu claramente a vinculação da Venezuela ao mecanismo "petróleo por dinheiro" - e não sei se alguma vez pensaram na palavra dependência - como uma forma de tentar obter algum controle e ter certeza de que conseguiriam seu dinheiro de volta.

DC: Quão comum é a teoria da dependência no pensamento das instituições latino-americanas em suas relações com parceiros internacionais como a China?

BS: O termo dependência caiu em descrédito nos anos 1990. Há algumas pessoas que começaram a usar o termo novamente. Mas os formuladores de políticas econômicas, especialmente, não querem ser vistos pintados de ouro usando o termo dependência. Dito isso, a ideia por trás da dependência com a qual as pessoas estão muito preocupadas é até que ponto esses grandes projetos de investimento chineses e a forte dependência dos mercados chineses estão levando aos mesmos tipos de coisas que costumávamos chamar de dependência — que os chineses tenham muito peso na decisão sobre que tipo de políticas econômicas são seguidas e que eles consigam obter as matérias-primas de que precisam, como aconteceu em períodos anteriores com a Europa e os EUA.

Uma das coisas interessantes são as relações políticas entre a China e a América Latina. Muita gente pensa que é principalmente econômica. Concordo que agora é principalmente sobre economia, mas acho que é útil tentar olhar para os tipos mais tradicionais de relações diplomáticas e até mesmo as relações militares. Todas elas se encaixam no que a abordagem de dependência de Cardoso e Falletto falava em termos de redes entre os países da ALC e, neste caso, a China, mas antes os EUA e a UE.

DC: No livro você fala destas "ligações" que permitem a formação de situações de dependência. O que é necessário para que a China e a ALC construam conexões de uma forma que não resulte em dependência?

BS: Existem dois livros brancos chineses [que detalham a política do país] sobre a América Latina. Existem livros brancos de algum país latino-americano? Os chineses veem claramente este intercâmbio como algo que podem administrar. Eles trazem jornalistas ou estudantes, legisladores ou empresários para a China e mostram o país para eles, as coisas que a China quer que eles vejam. Eles oferecem a narrativa de "ganha-ganha" e como eles podem trabalhar juntos. O intercâmbio é uma questão importante aqui.

Quando comecei a dar aulas na China há cinco anos, na Universidade Normal de Beijing, foi em um dos muitos programas em toda a China criados por meio do mecanismo de ajuda estrangeira para trazer estudantes de países em desenvolvimento para fazer um mestrado na China. Eram principalmente estudantes africanos, havia um latino-americano. Eles estiveram lá por dois anos com a ideia de que voltariam para seus países e teriam uma visão positiva da China e ajudariam a construir relacionamentos.

Outra coisa que é importante são os institutos Confúcio, que os Estados Unidos estão tentando fechar por lá, e em outros lugares, se puderem. Mas a língua é um dos principais obstáculos. A China está tentando oferecer treinamento em idiomas a pessoas de países em desenvolvimento. Há também um número crescente de programas latino-americanos em universidades e think-tanks na China. Eles estão tentando criar expertise do seu lado, e assim como nós [os EUA], tentando criar expertise na América Latina de um tipo específico.

DC: Os teóricos da dependência imaginam um sistema de países centrais e periféricos, e a China prevê e promove uma ordem mundial baseada na multipolaridade. Como estas duas ideias se encaixam?

BS: A China realmente imagina “unipolaridade” ou “bipolaridade”. A dependência, pelo menos a versão mais sofisticada, tinha em mente o núcleo, a semiperiferia e a periferia. O curso que leciono vê a China como uma economia asiática bem-sucedida em desenvolvimento e, ao mesmo tempo, um ator global importante que ajuda a moldar o destino de outros, neste caso, a América Latina. Já em 1949, a China fazia parte da periferia. Ela subiu para a semiperiferia e agora está tentando chegar ao núcleo. O contraste entre a renda per capita da China e seu PIB agregado é a melhor demonstração desta versão de duas cabeças da China na economia mundial. Eles abandonaram o [mantra] de Deng Xiaoping "seja modesto e esconda suas intenções", e agora Xi Jinping quer ser tão aberto quanto possível para que a China tenha o melhor modelo para os países em desenvolvimento.

DC: O consenso sobre a necessidade de governos abertos e de livre comércio foi apoiado por instituições financeiras sediadas em Washington. Como você vê as mudanças que a China tem feito na arquitetura financeira para o desenvolvimento global na América Latina?

BS: Uma das coisas realmente interessantes sobre isso é que se os EUA e o Ocidente, de modo mais geral, tivessem sido mais acolhedores com a China, nenhuma das instituições [novas iniciadas na China] existiria, provavelmente. Eu estava por acaso na reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento [BID] quando os chineses pensaram que estavam comprando ações, apenas para serem informados: "Não, vamos vende-las para a Coreia".

Os chineses estavam furiosos. Eles fizeram um ataque incrivelmente amargo ao BID porque não conseguiram entrar da forma como esperavam. De maneira semelhante, se nós [os EUA] estivéssemos dispostos a aumentar suas ações no FMI e no Banco Mundial, então quem sabe se o AIIB e o banco BRICS existiriam mesmo? A China está criando uma nova arquitetura financeira global? Acho que está mais interessada nas relações bilaterais. Ela quer afirmar que está assumindo o manto do multilateralismo desde que Trump o abandonou.

DC: Que tipo de mudanças no relacionamento da China com a América Latina você prevê se um novo presidente dos Estados Unidos for eleito no dia 4 de novembro?

BS: Eu espero mudanças moderadas, mais em termos de estilo do que em substância. Uma das poucas coisas em que a esquerda e a direita concordam nos EUA é que estão contra a China - que precisam tomar uma posição mais dura. Biden pode até mesmo ser empurrado a assumir uma posição mais dura do que a que tem agora. Ele tem tentado resistir a isso. Não haverá uma grande mudança em termos de sermos mais amigáveis com a China.

O que eu acho que pode acontecer é que haverá uma mudança de estilo. Provavelmente, os Estados Unidos deixarão de tentar maltratar os países da ALC, como o [secretário de Estado Mike] Pompeo tem feito com seu "A China é um ator horrível, querendo prejudicar a todos vocês". Isto se deve em parte ao fato de que a América Latina voltará ao lugar onde estava sob a administração Obama - o que não é muito importante. Para usar uma frase que é popular nos EUA neste momento em outro contexto, "eles vão tirar o joelho do pescoço da América Latina", certamente até o ponto de enviar secretário de Estado para tentar eliminar suas relações com a China. Eles podem voltar à ideia de que a China pode ajudar os países latino-americanos a crescer, porque eles realmente vão precisar dela agora. No melho cenário, será uma negligência mais benigna. O sistema de pressão a que o Trump voltou, semelhante aos maus velhos tempos, se não desaparecer por completo, pelo menos se tornará muito menos aparente.