"China pode industrializar sua indústria verde na América Latina"

Em uma entrevista ao Diálogo Chino, o pesquisador Luke Patey discute seu novo livro sobre a expansão global da China e os problemas que ela tem enfrentado na América Latina

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Engenheiros da PowerChina inspecionam painéis solares em uma usina fotovoltaica na cidade de Cafayate, Província de Salta, Argentina (imagem: Alamy)

Nas últimas duas décadas, a China transformou sua relação com a América Latina, trazendo tanto oportunidades quanto reveses. Beijing se tornou o principal parceiro comercial de grandes economias como o Brasil e a Argentina, países que hoje dependem de bens manufaturados chineses importados e de investimentos em infraestrutura que vão desde ferrovias até energia hidrelétrica.

Os desafios que a China tem enfrentado no mercado latino-americano não são poucos. Entre eles estão as disputas sobre os padrões socioambientais de seus investimentos, e a alegação de que eles prejudicam as indústrias locais.

Em entrevista ao Diálogo Chino, o pesquisador Luke Patey fala sobre seu novo livro How China Loses, que consiste em uma análise abrangente das dificuldades que a China tem enfrentado ao ascender como uma potência global.

Diálogo Chino [DC]: Em seu livro, você argumenta que os países estão avaliando criticamente suas relações com a China. Quais são os principais problemas que você notou na América Latina?

Luke Patey [LP]: A questão mais premente para a região é o comércio assimétrico com a China, que não parece estar indo embora. Não há sinais claros de que a relação de troca de recursos naturais por produtos manufaturados com a China mude em um futuro próximo. Esse é o ponto mais alarmante e algo que não acontece com outros parceiros comerciais da América Latina, que compram mais bens de valor agregado da região. É realmente uma questão de oferecer as condições necessárias para que as empresas da região permaneçam o mais competitivas possível. A China se comprometeu com muitos acordos da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, sigla em inglês) com a América Latina, mas as empresas chinesas captam a maior parte do valor. As empresas da região deveriam ter uma participação maior para aumentar a produtividade. A América Latina tem que reconhecer a diversidade de poder e das oportunidades no mundo.

DC: Em tal caso, a América Latina deveria se afastar da China, da qual depende grande parte de suas exportações e investimentos?

LP: Não, mas a América Latina poderia estar fazendo muito mais para abrir os mercados chineses para seus produtos agrícolas de maior valor agregado. A região poderia beneficiar recursos naturais nacionalmente e tentar vendê-los à China, mesmo usando acordos comerciais regionais como o Mercosul para ter melhor acesso ao mercado. Se, em vez disso, um país for sozinho para negociar, a China poderá então usar todo seu poder geopolítico e sua influência econômica.

DC: Então como a China perde, como sugere o título do seu livro? Porque ela parece estar ganhando na América Latina, graças à relação assimétrica que você descreve.

LP: A própria China dificulta a sua ascensão como superpotência global ao antagonizar suas relações com as principais potências na Ásia e na Europa. Para a América Latina, o envolvimento da China, incluindo via BRI, oferece novas possibilidades comerciais, financeiras e tecnológicas. Mas se a relação continuar a ser assimétrica, se as oportunidades apresentadas pela China não se desenvolverem em novas atividades produtivas que elevem e ampliem a diversidade das economias latino-americanas para além da dependência de recursos, isso prejudicará as ambições de longo prazo da China de legitimar seu modelo político e econômico no mundo. 

A China exerce um poder notável, mas não uma influência dominante. Os governos, as empresas e a sociedade civil da América Latina demonstraram a capacidade de alterar os termos injustos e as externalidades negativas que podem advir da BRI. Mas eles podem fazer mais para cooperar uns com os outros.

DC: Quais têm sido as principais lições que você percebeu sobre como lidar com a América Latina?

LP: Dizem que precisamos entender melhor a China, mas a China também tem uma curva de aprendizado para entender melhor o mundo, incluindo a América Latina. Seu engajamento no mundo é muito recente. Ainda estamos vendo o processo de gerentes e diplomatas chineses fomentando laços sociais e aprendendo sobre o local em que atuam. A China está gradualmente aprendendo mais sobre cada país latino-americano e está construindo uma relação mais diversificada com eles. Ainda existem desafios macro e globais para agir com base nessas lições. Conheci empresas que queriam implementar políticas de responsabilidade corporativa, mas que eram coibidas pelo escritório da matriz na China.

DC: Ao tentar entender as dificuldades da China na consolidação de projetos na América Latina, você argumenta que as autoridades chinesas deveriam trabalhar mais com grupos sociais e ambientais do que com políticos. Por que isso não acontece tanto quanto deveria?

LP: Há muitos fatores em jogo. As empresas chinesas não têm muita experiência de trabalho no exterior e em um novo clima político e social. É também uma consequência dos governos locais. Um país que não tem uma governança bem estabelecida cria um cenário com mais facilidades para que gerentes chineses burlem as regras de grandes projetos. Isso ocorre em toda a América Latina, com países com padrões ambientais limitados para investimentos. Se o governo local não defender suas próprias leis, a China pode então pressionar os países da América Latina.

DC: Alguns projetos apoiados pela China têm enfrentado obstáculos, como as represas de Santa Cruz na Argentina, enquanto os mais novos e menores se desenvolveram rapidamente, como a usina solar de Cauchari. Isso é parte da mudança de foco da China na região?

LP: Recentemente, vimos uma rápida desaceleração no financiamento de infraestrutura da China para a América Latina. Além disso, Beijing almeja tornar a BRI uma iniciativa mais verde. Como Cauchari demonstrou, essa é uma grande oportunidade para a China industrializar sua indústria verde no exterior e recuperar a reputação da BRI em questões ambientais importantes. Se isso irá se concretizar ou não, é difícil dizer. Parece que há uma reflexão ocorrendo entre os bancos de desenvolvimento chineses sobre quanto financiamento eles podem fornecer no exterior. Não apenas na América Latina, mas também em outras regiões. Não acredito que a China abandonará a necessidade de terceirizar o excesso de capacidade produtiva das indústrias pesadas. Beijing ainda precisa liberar alguma pressão das indústrias domésticas, levando projetos de grande escala para o exterior.

DC: Como parte de sua pesquisa, você visitou a Argentina sob a administração Macri, um governo que repensou muitos projetos que haviam sido assinados com a China. Sob a presidência de Fernández, os laços são mais fortes. Quais são as características dessa nova relação?

LP: A relação entre a Argentina e a China já tem oscilado há um tempo. Primeiro com Cristina Fernández de Kirchner, depois com Mauricio Macri e agora com Alberto Fernández. Mas as tensões permanecem; apenas foram transferidas de administração em administração. Grande parte da mudança é superficial, uma fachada política. Os problemas e tensões subjacentes ainda estão lá. A Argentina deveria se engajar no financiamento de infraestrutura, mas as tensões comerciais existem tanto com os produtos chineses minando as indústrias argentinas, quanto com as exportações argentinas lutando para entrar nos mercados da China.

DC: A BRI deu grandes passos na América Latina nos últimos anos, mas as maiores economias ainda não aderiram a ela. O governo argentino disse que vai assinar. O que isso representaria para a região?

LP: Você não precisa assinar um acordo dentro do escopo da BRI como país latino-americano para obter um novo acesso econômico, comercial ou de investimento da China. Os interesses chineses irão para onde eles quiserem ir. A adesão à BRI é uma grande vitória para a China. A Itália entrou na iniciativa há dois anos e ainda não viu nenhum benefício. Você tem que destrinchar o que vem em um acordo BRI. Pode ser apenas um pedaço de papel, ou oferecer alguns benefícios tangíveis para a Argentina.

DC: O que o governo Biden representará para as relações entre a China e a América Latina nos próximos anos?

LP: Quando Obama saiu, uma das últimas viagens que fez foi para a América Latina com um sentimento de renovação e elogio entre os Estados Unidos e a região. Isso ficou no passado com a vitória de Trump. Biden tenta, agora, reconstruir as boas relações com a região. Ainda assim, os Estados Unidos precisarão continuar a desenvolver sua estratégia para a América Latina, mas por ora não há muitos sinais. A China não vai estabelecer uma presença global como os Estados Unidos já tiveram. Os países da Europa e da América Latina que podem extrair benefícios de todos os seus parceiros internacionais serão os que se desenvolverão mais rapidamente. Até mesmo o Presidente Fernández tem agora uma posição diferente da de Fernández de Kirchner e não quer ficar isolado dos Estados Unidos.