Coronavírus atinge economias da América Latina

Chile, Peru e Brasil serão os mais afetados pela queda da demanda chinesa por commodities, conforme caem as previsões de crescimento regional

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A locked-down cinema in Quito, Ecuador. Coronavirus is hitting Latin American economies

Um cinema fechado em Quito, Equador. A atividade econômica na América Latina entrou em colapso como resultado do coronavírus, e os países exportadores de commodities sofreram os piores efeitos (imagem: Santiago Armas / VWPics / Alamy)

Atualmente, há mais de 14 mil casos confirmados do novo coronavírus na América Latina. Argentina, Uruguai, Colômbia, Chile, Equador, Peru, Guatemala, El Salvador e Bolívia estão sob quarentena, e há medidas de isolamento voluntário na maioria dos países.

"A crise do COVID-19 entrará na história como uma das piores pelas quais mundo já passou", advertiu Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), no momento em que a América Latina se mobiliza para enfrentar a pandemia que devastou o mundo no mês passado.

"A doença compromete a saúde humana e afetará uma economia mundial já enfraquecida, atingindo-a tanto no lado da oferta quanto no da demanda", afirmou Bárcena.

1,8%

A contração esperada na economia

A CEPAL estima que vá haver uma contração de 1,8% no Produto Interno Bruto regional (PIB), o que pode significar o aumento do desemprego em 10% e a elevação do número de pessoas que vivem na pobreza em 35 milhões, para cerca de 220 milhões, dos seus 620 milhões de habitantes totais. O número dos que vivem em extrema pobreza pode aumentar de 67,4 para 90 milhões.

A diminuição da atividade econômica em geral e declínios no comércio, turismo e investimentos apontam para uma crise iminente. A queda nas trocas econômicas com a China, principal destino das exportações de commodities de várias economias da América Latina, torna particularmente exposta a dependência que Chile, Peru e Brasil têm da China —  e a vulnerabilidade desses países.

A CEPAL estima que as exportações da região para o país asiático possam cair em 10,7% em valor.

"A principal fonte de risco de perdas para a América Latina é uma deterioração dos números do comércio provocada pelo profundo e duradouro impacto de uma desaceleração nos preços das commodities na China",  disse à Reuters Alberto Ramos, chefe de pesquisa da América Latina no Goldman Sachs.

À medida que o golpe econômico agita a região, com os governos correndo para tentar salvar as populações mais vulneráveis, também ficou evidente a dependência dos países latino-americanos em relação a exportações sem valor agregado e a necessidade de que diversifiquem aquilo que exportam.

Chile e cobre

O presidente chileno, Sebastián Piñera, disse que o surto de coronavírus terá um "grande" impacto econômico devido aos preços globais mais baixos do cobre, a principal exportação do país. Metade deste cobre é enviada para a China.

O Bank of America reduziu sua expectativa de crescimento para o Chile de 1,3% para 0,9% neste ano, devido aos problemas adicionais causados ​​pelo coronavírus e ao menor investimento no país após conflitos sociais no ano passado.

A Comissão Chilena de Cobre (Cochilco) disse que as exportações de cobre diminuirão não apenas em valor, mas também em quantidades neste ano. Os embarques do minério para a China já foram remarcados.

“Esperamos que isso seja apenas de curto prazo. Se não for esse o caso, teremos que mudar nossos planos ”, disse Victor Garay, coordenador de mercados de mineração da Cochilco.

Peru - farinha de peixe e cobre 

O Peru também sofreu um declínio significativo em suas exportações para a China, seu principal mercado externo.

Somente em janeiro, as exportações caíram 16% em relação a 2019, afetando principalmente dois produtos básicos:  farinha de peixe (que teve queda de 38%) e os minérios (que caíram 10%), segundo a ADEX, sindicato que reúne as exportadoras do país.

Embora a queda do minério possa ser atribuída à menor demanda da China por cobre e a reduções nos preços internacionais, os exportadores atribuem a queda nas vendas de farinha de peixe a uma queda na produção relacionada a flutuações no rendimento da anchova nos mares do Peru por razões naturais.

A escassez de insumos chineses também afetará as indústrias manufatureiras do Peru.

"Haverá uma queda na demanda chinesa, e as indústrias farmacêutica e têxtil daqui, que dependem de matérias-primas chinesas e que não as recebem em condições normais, terão menos produtividade e menos vendas", disse o presidente da ADEX, Erik Fischer, à televisão peruana RPP, enfatizando que, tradicionalmente, janeiro e fevereiro são meses mais fracos em termos de exportações para a China.

"Em março e abril, veremos o quanto esse problema nos afeta", afirmou.

Brasil e soja

As autoridades brasileiras nesta semana reduziram as estimativas de crescimento para 2020 para 0,02%, de 2,3% no final do ano passado. As exportações já começaram a sofrer o golpe, caindo 6,2% em relação ao ano passado. As exportações de commodities caíram mais de 20%, principalmente como consequência da crise econômica na China, o maior parceiro comercial do Brasil.

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Em 2017, a China comprou 11% das exportações latino-americanas

Mas, na segunda-feira da semana passada, grupos de lobby do setor disseram que as exportações de soja não serão afetadas pela crise, e mantiveram a previsão de que o Brasil venderia cerca de 73 milhões de toneladas este ano. O setor não vê sinais de que a demanda por soja diminua, já que 20% de sua próxima colheita já será vendida em contratos futuros.

“Os brasileiros podem ter certeza de que faremos nossa parte para manter a economia aquecida, mesmo com esse problema de coronavírus” disse Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Soja.

No mercado de ações, o quadro é bem diferente, e as empresas brasileiras acumularam perdas. A BRF, uma das principais empresas de alimentos do Brasil, perdeu 56,5% de seu valor de mercado este ano.

Argentina: carne bovina e soja

Já à beira de um novo default de sua dívida, os preços mais baixos e as menores exportações de commodities representam um grande golpe para a Argentina. Prevê-se que o PIB caia de 0,3% a 0,5% a mais por causa da pandemia, contraindo 2% no total, em vez dos 1,5% estimados anteriormente.

"O principal efeito direto do coronavírus se manifesta na exportação de commodities, como soja e, acima de tudo, carnes", disse a consultoria Abeceb em um relatório. "A China é o segundo mercado da Argentina, e, por isso, menos compras de lá teriam um grande efeito na nossa economia. "

A consultoria estima que vá haver uma queda de 5% nas exportações este ano devido ao surto de coronavírus. Isso significa 3,4 bilhões de dólares a menos em receitas, devido a menos vendas e preços mais baixos de soja (1,36 bilhão de dólares), carne bovina (790 milhões de dólares), milho e trigo (460 milhões de dólares) e petróleo bruto (400 milhões de dólares).

Em janeiro, as exportações de carne bovina caíram 32,8% em relação ao último trimestre de 2019. A China responde por 75% das exportações de carne bovina da Argentina, e menos embarques de lá são a principal razão do declínio, segundo a câmara de comércio de carne bovina argentina, CICCRA.

Uruguai e carne bovina

Enquanto isso, o Uruguai também espera grandes perdas devido ao coronavírus, já que quase 80% de sua soja vai para a China, assim como 60% de sua carne bovina.

A Uruguai XXI, agência de promoção de investimentos e exportações do país, afirmou em seu último relatório mensal que o vírus está “travando o comércio internacional até agora neste ano”, alegando que as exportações de alimentos são as mais afetadas até agora.

No geral, as exportações uruguaias caíram 18,7% em fevereiro em comparação com o mesmo mês do ano passado. Isso ocorreu principalmente devido às menores vendas de carne bovina, laticínios, madeira e celulose para a China, mostraram dados do governo.

No entanto, o especialista em comércio uruguaio Marcos Soto disse que a maior parte do impacto será vista nos primeiros meses do ano, alegando haver esperança de que as exportações se recuperem mais tarde, à medida que a China começar a exigir mais alimentos.

Equador: menos camarão, mais cobre

Embora as vendas de cobre tenham caído em toda a região, a realidade tem sido diferente para o Equador, pois sua polêmica mina de cobre na faixa Condor da Amazônia começou a produção quase ao mesmo tempo em que eclodiu o surto de Covid-19 na China.

O consórcio Ecuacorriente, liderado pelas empresas estatais chinesas Tongling Nonferrous Metals Group e China Railway Construction Corporation(CRCC), enviou 22 mil toneladas de concentrado de cobre para a China em janeiro. Outras 36 mil toneladas foram embarcadas na semana passada.

Como o Diálogo Chino relatou no ano passado, o Mirador é um projeto de mineração controverso na Amazônia, considerado de importância estratégica para o governo equatoriano. Ele foi legalmente contestado pelas comunidades indígenas locais, que alegam que muitas pessoas foram despejadas à força e exigem o direito de consulta prévia.

As exportações de camarão, no entanto, caíram drasticamente no mesmo período. Os preços caíram após a China restringir as importações de frutos do mar, um grande golpe para um país que quadruplicou a produção nos últimos oito anos e apostou na China como seu principal mercado. O comércio reabriu recentemente, mas a demanda da Europa caiu e o clima permanece sombrio, de acordo com a Undercurrent News, que monitora o setor.

A necessidade de diversificação

A demanda chinesa por commodities primárias continuou aumentando na última década. Em 2017, a China comprou 11% do total de exportações da América Latina, incluindo 16% dos produtos agrícolas e 26% das exportações do setor extrativo, de acordo com a edição de 2019 do Boletim Econômico China-América Latina da Universidade de Boston .

"É assim que, como latino-americanos, estamos participando da globalização", disse Yolanda Trápaga, economista agrícola da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). "Somos um elo muito fraco nas cadeias de produção, porque exportamos principalmente matérias-primas sem valor agregado e com baixos salários".

Segundo Trápaga, a diversificação da economia é muito importante para a América Latina, mas a região deve assumir o controle da tomada de decisões econômicas e não contar com parceiros comerciais.

“É necessário diversificar além da exploração dos recursos naturais, caso contrário estaremos sempre à mercê das demandas da China ou de qualquer grande potência econômica”, explicou ela. “Temos que fazer uma mudança radical e concluir que esta é uma oportunidade de evoluir na maneira como fazemos as coisas.”