Vacinas chinesas ganham espaço na América Latina

Vacinação caminha na América Latina, mas o ritmo de expansão da pandemia nos países latino-americanos é mais veloz

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Chinese covid vaccine

O Chile está entre os países mais avançados no processo de vacinação, mas a pandemia não para de avançar (Foto: Flickr)

Em agosto do ano passado, a Organização Mundial da Saúde declarou a América Latina e o Caribe o epicentro global da Covid-19. A região, que compreende cerca de 8% da população mundial, registrou a perda de quase 800.000 vidas, e o número não para de subir. O estágio atual a coloca em um triste ranking: o segundo maior número de fatalidades depois da Europa.

Em um relatório divulgado pelo governo mexicano no final de março, as autoridades reconheceram, sem aparente nervosismo, que o número de mortes na segunda maior economia da região foi pelo menos 60% maior do que o registrado até agora oficialmente.

Uma devastadora segunda onda do vírus assola o Chile atualmente, apesar de ter uma das maiores taxas de vacinação do mundo. Em 21 de março, o país registrou 7.084 casos em um único dia o mais alto registro feito desde o início da pandemia. Uma terceira onda na Colômbia, onde os casos registrados chegaram a 10.000 por dia, fez com que a capital, Bogotá, voltasse a implementar um lockdown. Enquanto isso, o sistema hospitalar brasileiro está praticamente em colapso, e as mortes diárias são agora responsáveis por um quarto de todas as fatalidades globais da Covid-19.

O Brasil e o México, as maiores economias da América Latina, têm os presidentes mais tempestuosos

O Brasil e o México, as maiores economias da América Latina, têm os presidentes mais tempestuosos. Ambos foram contra o uso de máscaras e relutaram, por um bom tempo, em reconhecer a situação de emergência em que seus países se encontravam. E faltaram testes.

O analista de política de saúde Xavier Tello diz que há razões concretas para isso.

"Na América Latina, nos faltou estratégia e dinheiro", relatou ao Diálogo Chino.

"Vamos encarar os fatos não fizemos um trabalho muito bom". O Brasil e o México, as maiores economias da América Latina, têm os presidentes mais tempestuosos. Ambos foram contra o uso de máscaras e relutaram, por um bom tempo, em reconhecer a situação de emergência em que seus países se encontravam. E faltaram testes.

As taxas exorbitantes de infecção e de mortalidade, associadas a um atraso na prometida ajuda vinda dos Estados Unidos, tornaram o desenvolvimento e distribuição de vacinas ainda mais urgentes. Novos atores entraram, então, nesse vácuo de ajuda humanitária: a China e a Rússia, que promoveram suas vacinas aos parceiros latino-americanos assim que a vacinação em massa se tornou viável.

800,000

Vidas foram perdidas devido à Covid-19 na América Latina e no Caribe

Enquanto a região clama por vacinas, a cooperação sanitária reavivou as relações entre o México e a China. A vacina se tornou um importante canal para uma maior presença do gigante asiático em toda a América Latina.

A vacina chinesa chega ao México

Em fevereiro, o México se tornou o primeiro país do mundo a aprovar a vacina Convidecia (Cansino) para uso emergencial, recebendo um carregamento de 2 milhões de doses. O México é o terceiro país com o maior número de mortos por Covid-19 do mundo. Além de produzir a vacina Cansino no próprio país, o México também aprovou a vacina CoronaVac/Sinovac, com 2 milhões de doses entregues em fevereiro e março.

Na última edição da Revista Comercio Exterior, José Luis Bernal, embaixador do México na China, destacou a importância da relação entre os dois países, um vínculo que "tem sido evidente nas ações empreendidas entre a China e o México para enfrentar a emergência sanitária e enfrentar as conseqüências sistêmicas da pandemia".

"Desde o início da pandemia, a colaboração tem sido uma de mais alto nível", escreveu Bernal, citando "a compra na China de suprimentos médicos essenciais para pacientes de Covid-19 no México, e a repatriação de mexicanos que não tinham opções de voo comercial para retornar ao nosso país", bem como o transporte de vacinas.

A cooperação entre o México e a China na área da saúde cresceu sob um solo fértil de relações comerciais de longa data. Como Bernal observou: "A China tem sido um dos principais parceiros comerciais do México e o primeiro entre os países da Ásia-Pacífico" e "é a segunda fonte de importações e o terceiro destino das exportações mexicanas". Enquanto isso, o México está entre os oito principais mercados de exportação para a China, escreveu ele.

Em toda a América Latina, três vacinas chinesas estão disponíveis: Convidecia da Cansino Biologics (aprovada no México); Vero da Sinopharm (aprovada na Argentina); e CoronaVac da Sinovac (aprovada no México, Brasil e Chile). A vacina Cansino requer apenas uma dose, enquanto as vacinas Sinovac e Sinopharm requerem duas.

De todas as vacinas disponíveis no mundo, a da Sinopharm é a mais difundida na América Latina, com 1.904.000 doses entregues. O Chile, outro aliado próximo do gigante asiático, lançou a vacina Sinovac com atenção privilegiada um terço da população recebeu pelo menos uma dose.

Para Tello, a disponibilidade de vacinas chinesas encontrou, sem grandes dificuldades, um bom espaço na América Latina: "Obviamente Pfizer, AstroZeneca e Moderna são as vacinas mais caras e de maior qualidade, e não são muito fáceis de obter".

As vacinas da Sinovac e da Sinopham são compostas de material de vírus inativado. Muitas vacinas comuns contra outros vírus, como a gripe, funcionam de maneira semelhante.

Em comparação, a Cansino é uma "vacina de vetor viral" uma que funciona usando um vírus da gripe atenuado para entregar material genético de Covid-19 nas células do receptor, e assim gerar uma resposta imunológica contra o vírus.

Além da disponibilidade, os esforços da China para fornecer vacinas aos países em desenvolvimento, principalmente na América Latina e na África, incluíram o apoio à "infraestrutura da cadeia fria" necessária para o transporte das vacinas para distribuição.

Acredito que para a América Latina a característica mais importante da vacina, dado que todas elas têm alta eficácia, principalmente para prevenir formas graves da doença, é que ela pode ser mantida refrigerada

Edda Lydia Sciutto Conde, pesquisadora do departamento de Biomedicina da Universidade Nacional Autônoma do México, explicou que o manuseio e o armazenamento são questões fundamentais para a América Latina.

"Acredito que para a América Latina a característica mais importante da vacina, dado que todas elas têm uma alta eficácia, principalmente para prevenir formas graves da doença, é que ela pode ser mantida refrigerada”. Temos experiência com esse tipo de logística na América Latina para tratá-las adequadamente e [que] permitirá sua distribuição e ... aplicação", disse ela.

O fornecimento de vacinas chinesas e o apoio à infraestrutura é uma tendência que especialistas chamam de “diplomacia da vacina”. Analistas políticos e comerciais dos Estados Unidos sugeriram que a China, assim como a Rússia, está aproveitando a oportunidade para fortalecer seu soft power nos países em desenvolvimento.

Para Tello, "A meu ver, a China gostaria de obter alguns benefícios comerciais ou políticos com isso, usando seu poder de barganha com as vacinas".

Uma infinidade de especialistas e artigos de opinião se aglutinaram em torno da ideia de que a China quer melhorar sua imagem no cenário mundial por meio das vacinas. Associado a isso, acreditam ser do interesse do gigante asiático ganhar espaço na América Latina em um momento em que os Estados Unidos parecem deixá-la em segundo plano.

Por mais oportunista que possa parecer a "diplomacia da vacina", as estruturas de cooperação sanitária entre a China e a América Latina são anteriores à pandemia. Documentos do Ministério das Relações Exteriores da China emitidos em 2008 e 2016 comprometem-se a cooperar com a América Latina e o Caribe no controle de doenças e em resposta a emergências de saúde pública.

A China se comprometeu a "ajudar os países da América Latina e do Caribe a treinar equipes médicas,melhorar as instalações médicas, enviar equipes para esses países e estar pronta para prestar assistência dentro de sua capacidade de prevenção e controle de surtos repentinos de doenças infecciosas", diz o documento de 2016.

As elites furam a fila

É comum ouvir escândalos de políticos que furam a vila e têm acesso à vacina primeiro na América Latina.

Como relatado pela Al-Jazeera em fevereiro, dois ministros no Peru e um na Argentina se demitiram após revelações de que haviam aproveitado o acesso preferencial à vacina para si próprios e suas famílias.

No Equador, o ministro da Saúde renunciou após críticas sobre sua decisão de enviar parte do primeiro carregamento de vacinas do país diretamente para um asilo onde vivem sua mãe e outros parentes.

No Brasil, mais de 4.700 denúncias sobre “furadores de fila” já foram apresentadas ao Ministério Público.

Como em muitas regiões, os latino-americanos expressaram preocupação sobre a eficácia de qualquer vacina na prevenção de infecções, e a proteção que oferecem contra novas cepas ainda está por ser vista.

Mas como salienta Sciutto, o programa de vacinação é seguro e precisa fazer progressos. Sem vacinas, sejam elas quais forem, as pessoas continuarão a adoecer e vidas serão perdidas.

"É urgente aplicar a vacina em grande escala no menor tempo possível, a fim de reduzir a possibilidade de as novas variantes se espalharem pela população e agravar a pandemia", disse.