Festa brasileira, fantasia chinesa: os produtos da China no carnaval carioca

Nos últimos 20 anos, importação de artigos de festa da China para o Brasil aumentaram mais de 15 vezes

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Colourful costumes at Rio Carnival

No desfile da Beija Flor, uma infinidade de penas coloridas, um dos produtos mais importados da China para o carnaval carioca. (Imagem: Fernando Grilli/Riotur)

Plumas, tecidos, glitter, rendas, paetês… Uma infinidade de materiais fazem o colorido do carnaval carioca, cujos blocos de rua e desfiles de escolas de samba atraem a atenção do mundo inteiro. Todos esses produtos enfeitam os foliões do Rio de Janeiro de um jeito bem brasileiro. Entretanto, eles vêm do outro lado do planeta.

“Há cerca de 20 anos, quando entrei no negócio, as coisas não eram assim. Era mais misturado. Agora, tudo é da China”, explica Jorge Francisco, o Chiquinho, dono da rede de lojas “Babado da Folia”, uma das principais fornecedoras de material do carnaval carioca.

$10milhões

de dólares é o montante de artigos de carnaval importado da China em 2019

A proliferação de produtos de uma China em transformação é um processo que vem ocorrendo desde 1990. As relações comerciais entre os dois países ganharam um novo ritmo depois da assinatura de uma acordo de cooperação estratégica três anos depois. Em 1998, conforme dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, foram importados cerca de 656 mil dólares em artigos para festa, carnaval e outros divertimentos da China. Em 2019, o número saltou para mais de 10 milhões de dólares. E nessa conta ainda não estão incluídas as importações de tecidos e rendas.

Os materiais importados da China, grande parte feitos de plástico e descartáveis, estão muito presentes nas celebrações.

O Saara, abaixo, é o principal polo de vendas de materiais de festas do Rio de Janeiro. Nos meses de dezembro a fevereiro, suas ruas estreitas ficam apinhadas de pessoas atrás de boas ofertas. Conforme Dayana Chang, gerente da loja Festa da Cidade, “nos últimos anos nós temos focado muito no carnaval, diria que é o ponto mais alto do ano. Eu começo a comprar materiais de carnaval já em agosto”.

O Saara é o maior polo comercial para fantasias de carnaval carioca
O Saara é o maior polo comercial para fantasias de carnaval no Rio. (Imagem: Vinicius Fontana)

No final dos anos 1990, o principal fornecedor de materiais de festas e carnaval para o Rio de Janeiro era o México, enquanto a China ocupava o quinto lugar. Mas a redução dos custos de importação e a aproximação política e comercial entre Brasil e China, em especial pela consolidação do Brics, permitiram que o fluxo de adereços carnavalescos chineses aumentasse exponencialmente.

Penas e contas estão entre os produtos chineses vendidos no carnaval carioca
Penas e contas estão entre os produtos chineses vendidos nas lojas do Rio (imagem: Sarita Reed)

Outro fator de crescimento foi o próprio jeito de se fazer carnaval no Rio. Antes da virada do século, a festas de carnaval estavam circunscritas aos desfiles no sambódromo e nos bailes em clubes.  Entretanto, desde o início dos anos 2000, as festas espontâneas retomaram as ruas da cidade por meio dos blocos. O fenômeno aumentou o mercado de fantasias exponencialmente.

Em 2018, a escola de samba Império Serrano homenageou a China em seu desfile no carnaval carioca
Em 2018, a escola de samba Império Serrano homenageou a China em seu desfile (imagem: Fernando Grilli/Riotur)

Conforme dados da Riotur, o carnaval carioca de 2019 durará oficialmente 50 dias e contará com 543 blocos de rua. São esperados mais de 1,9 milhão de turistas, além dos foliões locais. E todas essas pessoas querem se enfeitar. Ao todo, a movimentação econômica do carnaval 2020 no Rio deve chegar à casa dos 4 bilhões de reais.

Fantasias no carnaval carioca
Fantasias elaboradas em um bloco de carnaval no Rio de Janeiro (imagem: Gabriel Monteiro/Riotur)

Os principais produtos chineses utilizados nos desfiles das escolas são tecidos, pedrarias, galões, passamanarias e penas. É o que afirma o carnavalesco da Acadêmicos da Rocinha e membro da Comissão de Carnaval da Unidos da Tijuca, Marcus Paulo. “O uso de material da China é grande devido aos mesmos motivos que há em outras áreas industriais: bom preço aliado a variedade de produtos. Eles já existiam na indústria nacional, porém o valor mais em conta conquistou o mercado”, explica.

Pedraria carnaval carioca
Pedrarias de plástico, em grande parte importadas da China, são um dos problemas ambientais do carnaval do Rio. (Imagem: Sarita Reed)

No cortejo de maracatu do Grupo Baque Mulher, em Santa Teresa, lantejoulas, glitter e tecidos também fazem parte dos ornamentos da celebração, uma manifestação surgida em Pernambuco e que mescla culturas africana, indígena e portuguesa — genuinamente brasileira.

Baque Mulher Santa Teresa no carnaval carioca
Garrafas e copos de plástico descartáveis são vendidos e descartados em bloco no Rio (imagem: Sarita Reed)

Porém, toda essa festa imensa traz inevitáveis preocupações ambientais. Nas escolas de samba que animam o carnaval carioca, já há uma tradição consolidada de reaproveitar o que foi utilizado. “Hoje, já há uma consciência de que se deve evitar o desperdício, seja por razões de economia ou ecológicas”, explica Helenise Guimarães, da Escola de Belas Artes da UFRJ

lixo carnaval carioca
Fantasias abandonadas nas ruas depois de uma festa de carnaval (image: Walter Firmo / BrazilPhotos)

O lixo é outro problema grave do carnaval carioca. O Bloco da Favorita, que marcou a abertura oficial do carnaval carioca, reuniu mais de 300 mil pessoas. Conforme a Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio, mais de 48 toneladas de lixo foram recolhidas no dia seguinte das areias de Copacabana. No ano passado, foram 1.227 toneladas recolhidas durante todo o período de carnaval.

Não há estatísticas sobre que parte deste lixo é formada por plástico, um dos maiores problemas ambientais da atualidade. Mas o Brasil já é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo.

bloco praia carioca
O bloco da Favorita na praia de Copacabana atraiu milhares de pessoas que deixaram para trás toneladas de lixo. (Imagem: Vinicius Fontana)

Outra questão é o bem-estar animal. O uso de penas e plumas no carnaval é controverso e está intimamente ligado à participação chinesa no mercado de roupas. Na rede “Babado da Folia”, por exemplo, todas as penas vendidas são oriundas da China. Chegam às lojas majoritariamente penas de animais exóticos como o faisão e o pavão.

penas carnaval carioca
Jorge Francisco mostra as penas que ele compra da China para vender em sua loja durante o carnaval (imagem: Vinícius Fontana)

E nem todo resíduo é facilmente coletado. O glitter sintético, importado em sua maior parte da China, é um produto que não pode ser reciclado. Boa parte desse material vai parar nos oceanos em forma de microplásticos. A baía de Guanabara é um dos locais com maior concentração de microplásticos do mundo.

Há alternativas como o bioglitter, que é produzido, em quase sua totalidade, por pequenas empresas brasileiras.

A empresa carioca Pura Bioglitter faz glitter biodegradável (imagem: Pura Bioglitter)