Oceanos

Uruguai explora oceanos com ajuda da China

A China está equipando um antigo navio da marinha uruguaia para estudar o oceano, enquanto alguns questionam as motivações por trás do acordo
<p>O navio uruguaio &#8220;ROU 04&#8221; foi construído em 1965 e está sendo adaptado para explorar os oceanos com um laboratório a bordo. Imagem: María Paz Sartori.</p>

O navio uruguaio “ROU 04” foi construído em 1965 e está sendo adaptado para explorar os oceanos com um laboratório a bordo. Imagem: María Paz Sartori.

Sete anos atrás, Juan Cristina, pró-reitor da Universidade da República do Uruguai (UDELAR), recebeu uma oferta para comprar um antigo navio de pesquisa do Instituto de Oceanografia de São Paulo, Brasil. Ele recusou a oferta, mencionando como causa a falta de recursos para a compra.

Este ano, contudo, as coisas começaram a melhorar. A Marinha uruguaia ofereceu à UDELAR um navio diferente, e a China entrou na negociação com um acordo para instalar um laboratório de bordo na embarcação.

Acadêmicos e representantes da Secretaria Nacional de Ciência e Tecnologia foram à China dois meses atrás para assinar um acordo de cooperação oceanográfica. Alguns reagiram com desconfiança, dado o impacto da frota pesqueira chinesa nas águas do Atlântico Sul.

O papel da China

O Uruguai passou a ser composto por mais oceano do que terra firme após a ONU outorgar uma extensão de 483 quilômetros à plataforma continental uruguaia em 2016, e o país tem encarado imensos desafios no estudo desse território marinho. Segundo Cristina, o Uruguai precisa de mais pesquisas rigorosas que informem as políticas públicas a respeito da regulação da pesca.

O interesse da China não é apenas a pesca. É geopolítico

Até agora, oceanógrafos uruguaios tiveram que utilizar navios da Marinha ou contratar embarcações pesqueiras que não possuem laboratórios de bordo e são mal equipadas para estudos oceanógrafos da plataforma continental ou dos oceanos profundos, explica o biólogo marinho Dr. Ernesto Brugnoli.

Contudo, o interesse da China em suprir equipamento ao Uruguai com o objetivo de melhor entender os recursos marinhos do país levantou suspeitas. Fontes que participaram do acordo disseram ao China Dialogue que pode haver uma expectativa de favores políticos “em troca” da contribuição chinesa.

“A frota pesqueira da China é considerada uma das mais predatórias do mundo”, disse Carlos Mazal, do Centro Uruguaio de Relações Internacionais, referindo-se às práticas marítimas ilegais, não documentadas ou não regulamentadas do país. Mazal acrescentou ainda que a China está tentando estabelecer uma base pesqueira no Atlântico Sul a partir da qual poderia reabastecer seus navios.

Empresas de pesca Chinesas já buscam construir um controverso porto em Montevidéu, que incluiria uma zona de livre comércio e uma usina de processamento de pescado. Conservacionistas temem que o projeto facilite a superexploração de recursos marinhos do Atlântico Sul.

“O interesse da China não é apenas a pesca. É geopolítico”, disse ele.

O navio em questão

O navio “ROU 04” da Marinha uruguaia foi construído em 1965. Até agora, seu propósito tem sido transportar recursos para a base antártica uruguaia na ilha Rei George.

O contra-almirante Manuel Burgos, presidente do Instituto Antártico Uruguaio, disse que nos meses de verão do hemisfério sul (dezembro a abril) o navio vai continuar fazendo o percurso entre o Uruguai e a Antártica, mas cientistas passarão a realizar pesquisas oceanográficas a bordo.

Dedicar o ROU 04 à ciência “é uma grande mudança”, afirma Burgos. O navio vai dar apoio à pesquisa científica na plataforma continental e em outros territórios do Uruguai, bem como na Antártica, permitindo o desenvolvimento de uma “ciência de qualidade a bordo”.

14


O número de meses que vai levar para equipar a ROU 04 com um laboratório a bordo

O navio está passando por uma renovação de 14 meses, durante a qual a Marinha implementa melhorias e o laboratório é construído.

A Marinha uruguaia quer executar o projeto o quanto antes. Para isso, a cooperação e os recursos financeiros por parte da China são elementos-chave.

“A melhor coisa que pode acontecer é o navio ser controlado pela Marinha … e eles [a China] podem colaborar”, afirma Cristina.

O laboratório — que pode ser tanto uma estação móvel instalada num contêiner no deque da embarcação, ou uma mais permanente numa área remodelada abaixo do deque — ainda não foi finalizado.

Se o dinheiro permitir, os pesquisadores também esperam que haja equipamentos para colher amostras de sedimentos e água profundas.

Nos próximos meses, a UDELAR e a Marinha se reunirão para tentar terminar o projeto. Burgos afirma que o trabalho pode ser finalizado a tempo para as viagens de 2020-2021 à Antártica.

Signatários do Tratado Antártico de 1980, o Uruguai e a China têm bases na ilha Rei George, localizada na ponta mais ao norte do continente gelado. Os dois países também assinaram um acordo de colaboração em missões de pesquisa em suas bases, localizadas a apenas 15 minutos de distância uma da outra.

Laboratórios conjuntos

Em abril, o Uruguai e a China entraram em acordo para o desenvolvimento do primeiro laboratório conjunto em temas de agricultura.

Este segundo laboratório oceanográfico funcionará por meio da UDELAR. Para avançar no projeto, as partes envolvidas estão esperando que a China determine a universidade que será o interlocutor por sua parte. É provável que seja a Universidade de Oceanografia de Qingdao, com a qual o Uruguai já cooperou.

“É uma grande oportunidade para o país”, afirmou Álvaro Mombrú, secretário de ciência e tecnologia do Uruguai. “Uma oportunidade para aqueles que dedicaram todas suas vidas ao estudo dos oceanos”.