Canadá domina produção de energia e mineração na Amazônia

China é maior investidor estrangeiro em energia hidrelétrica na região, enquanto que Canadá acumula risco ambiental, revela relatório

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Projeto petrolífero no Parque Nacional Yasuní, na Amazônia Equatoriana (imagem: Alamy)

As empresas canadenses têm a maior participação de investimentos estrangeiros em projetos de energia e mineração na Amazônia, enquanto as chinesas controlam apenas 10% nos setores de energia hidrelétrica e extrativa, de acordo com dados publicados pelo think tank Inter-American Dialogue.

“Acho que ninguém sabia exatamente como o Canadá era ativo na Amazônia”, disse Lisa Viscidi, diretora do programa de energia, mudança climática e indústrias extrativas da organização, acrescentando que a menor participação chinesa também foi surpreendente.  

A coleta de dados sobre hidrelétricas, petróleo e gás e mineração na Amazônia visa identificar as empresas e bancos com projetos em ecossistemas prioritários. A Amazônia, por exemplo, é um reservatório de carbono que abriga milhões de espécies de plantas e animais e grupos indígenas, de acordo com o relatório Energia e Mineração na Amazônia.

Em toda a América do Sul, 197 empresas canadenses de mineração possuem ou operam um valor estimado em US$ 8 bilhões em projetos. Em uma área que o relatório define como a “Amazônia biogeográfica” o berço de sua biodiversidade, que se estende além das fronteiras jurídico-políticas , elas controlam ações equivalentes a 47 projetos, mostram os dados. 

30

áreas de petróleo na Amazônia são controladas por empresas canadenses

As empresas canadenses também controlam 30 áreas de petróleo na Amazônia, o maior  número entre as entidades estrangeiras, e 24 delas estão na Colômbia.

A maioria das empresas de mineração de capital aberto com projetos na América Latina tem ações na Bolsa de Valores de Toronto, no Canadá, que compreende o maior número de empresas de petróleo e mineração listadas em bolsas do mundo.   

Além das nacionalidades dos investidores, a pesquisa coleta dados sobre a situação operacional de projetos em setores com altos riscos sociais e ambientais endêmicos, assim como se são novos ou se a participação é através de uma fusão ou aquisição. Também registra se os proprietários e operadores dos projetos são empresas estatais (SOEs, na sigla em inglês) ou empresas privadas.

As empresas estatais, tanto nacionais como estrangeiras, dominam projetos de energia e mineração nos países da maior bacia hidrográfica tropical do mundo, como mostra a pesquisa. As primeiras investem principalmente em petróleo e gás, enquanto que as segundas, em mineração. 

China e Amazônia: interesses energéticos

Com pouco menos de 10%, a China tem a maior participação de qualquer investidor estrangeiro em projetos de energia hidrelétrica na Amazônia.

Os principais projetos incluem a preocupante unidade da Coca-codo Sinclair, no Equador, e a controversa barragem de Belo Monte, no Brasil. No entanto, seus principais interesses em petróleo e gás na América do Sul estão em outro lugar. 

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De acordo com Viscidi, isto se deve em grande parte ao fato de que as preocupações com a segurança energética da China exigem o controle de grandes reservas comprovadas de petróleo, que geralmente são encontradas no mar. Os campos de petróleo na bacia amazônica tendem a ter níveis de produção mais baixos e atraem o interesse de empresas menores, disse Viscidi.

A exceção é o campo Ishpingo-Tambococha-Tiputini (ITT) no megabiodiverso parque nacional equatoriano de Yasuní.

Yasuní foi tema de uma controversa e fracassada tentativa do ex-presidente Rafael Correa de atrair doações internacionais em troca de não explorarem o petróleo do solo. O parque é também lar de povos indígenas não contatados.

São os cidadãos daquele país que são os acionistas mais importantes

A Andes Petroleum, uma joint venture da China Petrochemical Corporation (SINOPEC) e da China National Petroleum Corporation, investiu em três áreas do parque, de acordo com o relatório. Entre os blocos que a empresa afiliada PetroOriental SA opera, está o de número 14 (conhecido como Nantu). 

Os indígenas Waorani processaram recentemente a Petro Oriental SA, argumentando que o impacto da queima e da liberação de gás durante a extração de petróleo no bloco 14 violou seus direitos humanos. O processo diz ainda que a empresa violou os direitos da natureza do povo, reconhecidos pela constituição do Equador.

Padrões ambientais da China

As disputas com as comunidades amazônicas do Equador têm contribuído para a percepção de que as empresas chinesas têm padrões ambientais inferiores aos de outras entidades internacionais que operam no exterior. 

Entretanto, um estudo de 2017 liderado pela Universidade de Boston não encontrou evidências de que as empresas chinesas tenham um desempenho melhor ou pior do que outras nacionalidades com projetos na América Latina.  Embora, diz o relatório, o histórico das empresas chinesas varie dependendo “das próprias exigências dos países anfitriões”, e os negócios envolvendo essas empresas sejam mais opacos.

Quando há um projeto chinês, há muito mais atenção”, disse Viscidi, explicando que isto pode decorrer da percepção de que as empresas chinesas aplicam salvaguardas socioambientais mais baixas e são menos avessas aos riscos ambientais, sociais ou de governança. 

Com algumas exceções, as empresas internacionais de energia e mineração têm se mantido em grande parte afastadas das operações na Amazônia. Além das dificuldades de acesso aos recursos em locais remotos, elas podem enfrentar a pressão de acionistas para demonstrar que atendem aos mais altos padrões ambientais, sociais e de governança (ESG).

Bancos mais cautelosos

Os financiadores de projetos também passaram por um exame minucioso. No passado, bancos multilaterais, como o Banco Mundial, o CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento forneceram financiamento de longo prazo para hidrelétricas e projetos minerários nos países amazônicos. No entanto, eles emitiram apenas dois empréstimos desde 2015, observou a pesquisa do Inter-American Dialogue. 

Além do longo período de retorno do financiamento, os projetos hidrelétricos da Amazônia estão associados a sérios impactos sociais e ambientais, incluindo o reassentamento de povos indígenas e a alteração do curso de rios.

O desmatamento em grande escala é frequentemente uma consequência da criação de reservatórios, liberando o carbono armazenado nas árvores para a atmosfera.  

Entretanto, a estratégia de retirada, por bancos e empresas estatais e multilaterais, pode diminuir sua capacidade de monitorar projetos e abrir portas para financiadores com padrões mais baixos, argumentou o relatório.  

Para Viscidi, é necessário que haja mais consciência e pressão sobre as empresas estatais nas questões ambientais. Ela observou que as estatais e petrolíferas são responsáveis por uma parcela significativa das emissões de carbono dos países e desempenham um papel fundamental na transição energética.

“São os cidadãos daquele país que são os acionistas mais importantes. Tem que vir da pressão do público em geral e isso só virá se houver boa informação e conscientização”, afirma Viscidi.