Empresas chinesas vencem licitação do metrô de Bogotá

Duas empresas escolhidas já foram responsáveis por projetos controversos em outros países

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Bogota Metro

Na noite da última quarta-feira, Bogotá escolheu duas empresas chinesas como ganhadoras da licitação para construir a primeira linha de metrô da cidade a partir de 2020.

O anúncio pode ser o fim de uma saga que durou mais de meio século em Bogotá, durante a qual os sucessivos planos de construção do metrô nunca se concretizavam, enquanto os moradores já falavam do projeto mais como um mito do que como realidade possível. Cidades do mesmo tamanho que Bogotá, como Lima, no Peru, já construíram seus metrôs, e a capital colombiana é hoje uma das maiores metrópoles do mundo sem metrô.

Competindo com uma única empresa rival e após apresentar a oferta mais baixa de 13,8 bilhões de pesos (cerca de 4,5 bilhões de dólares), o consórcio APCA Transmimetro ganhou a licitação, embora tenha pouca experiência na construção de metrôs e alguns de seus projetos pelo mundo tenham sido alvo de escândalos.

O consórcio chinês

O APCA Transmimetro é um consórcio integrado por duas empresas estatais chinesas: a China Harbour Engineering Company Limited (CHEC), com 85%, e a Xi’na Metro Company Limited, com 15%.

O consórcio foi um dos cinco anunciados como finalistas em agosto, embora apenas dois deles tenham apresentado ofertas na última etapa da licitação, que terminou há duas semanas, em meio à preocupação de alguns ofertantes a respeito dos custos elevados dos trens exigidos pela cidade e das dificuldades de acesso a meios de financiamento.

Embora a decisão final estivesse programada para a segunda-feira, o governo do prefeito Enrique Peñalosa decidiu adiantar o anúncio e escolheu o consórcio chinês, que competia com a empresa que antes liderava a licitação, a Carso Infraestructura y Construcción — propriedade do magnata mexicano Carlos Slim, o quinto homem mais rico do mundo.

O projeto consiste em uma primeira linha de metrô elevado, que abarca 23,96km de viaduto e 16 estações, cruzando metade da cidade do sul ao norte. Segundo os cálculos da prefeitura de Bogotá, o metrô pode transportar 72 mil passageiros por hora, ajudando a reduzir a pressão que hoje existe sobre o sistema de ônibus e de trânsito rápido (bus rapid transit, ou BRT, em inglês) da Transmilenio, inaugurado pelo próprio prefeito Peñalosa em 2001. Embora os característicos ônibus de cor roxa hoje representem 50% do uso de transporte dos moradores de Bogotá, sua infraestrutura já não dá mais conta da demanda.

A empresa que detêm a maior parte do consórcio vencedor é uma filial da gigante estatal China Construction Communications Company (CCCC), responsável por obras de infraestrutura em todo o mundo e que ocupa o 110o lugar no ranking das 500 maiores empresas globais da revista Fortune.

A segunda é uma empresa da província de Shaanxi, que opera principalmente na China e que foi responsável pela construção e operação do metrô de Xian, cidade de 7 milhões de habitantes que abriga o famoso exército de guerreiros de terracota esculpidos para o mausoléu do primeiro imperador chinês.

Nenhuma das duas empresas chinesas haviam participado até agora de projetos de metrô ou de ferrovias na América Latina.

O recorde da China Harbour Engineering

A China Harbour Engineering liderou a construção de vários projetos na região, sobretudo estradas e portos, mas participou de poucos sistemas de transporte de massa.

Na Costa Rica, a empresa está a cargo da ampliação da Rota 32 entre San José e o porto caribenho de Limón, obra financiada com um crédito de 395 milhões de dólares do Eximbank chinês e que originalmente estava prevista para finais de 2020 — hoje o governo admite que o prazo será maior. Segundo o jornal La Nación, 20% dos trabalhadores contratados pela CHEC vêm da China.

No Panamá, a empresa chinesa é parte do consórcio que está construindo um porto para cruzeiros no Oceano Pacífico e também é responsável pela construção de uma ponte sobre o Canal do Panamá. Embora esta última esteja pronta para operação, duas semanas atrás a comissão de infraestrutura pública da Assembleia Nacional panamenha anunciou ter encontrado irregularidades na concessão do contrato, que poderiam atrasar a obra.

Em outros países, a empresa chinesa apresentou projetos que não se concretizaram. No México, a China Harbour Engineering entrou em diálogo com o governo de Enrique Peña Nieto sobre a possibilidade de construir um porto na cidade de Guaymas, Sonora. No Peru, a companhia é uma das responsáveis pelo projeto de expansão do novo porto de Ilo, que custaria cerca de 300 milhões de dólares, além de uma ferrovia que ligaria o porto no sul do país à cidade de Santa Cruz, na Bolívia, e ao estado de Mato Grosso, no Brasil.

CHEC: mais estradas e portos do que metrôs

No campo internacional, a China Harbour Engineering participou de vários projetos de grande porte, também mais no campo da infraestrutura que de sistemas operativos de transporte.

Sua única experiência em metrôs parece ser em Mumbai. Em abril do ano passado, a CHEC e a empresa indiana Tata Projects Limited ganharam a licitação para construir duas seções da quarta linha de metrô da cidade mais povoada da Índia. Trata-se de um trecho de 14 estações e 12,5 quilômetros que, assim como o futuro metrô de Bogotá, é elevado e passa acima de zonas densamente povoadas.

Contudo, a CHEC é conhecida sobretudo como a principal promotora dos maiores projetos no Sri Lanka, dois dos quais foram alvo de controvérsias.

O primeiro é o porto de Hambantota, no sul da ilha, que a CHEC construiu e operou abaixo da capacidade desde que foi inaugurado. Com as dificuldades do governo para pagar os créditos facilitados pela China, a operação do porto acabou passando para as mãos do governo chinês, um feito que para muitos observadores é prova das condições desfavoráveis dos empréstimos chineses, apesar de parecerem economicamente mais atrativos.

“Esse caso é um dos exemplos mais evidentes do uso ambicioso de empréstimos e recursos de cooperação por parte da China para ganhar influência ao redor do mundo — e também de sua disposição para a indelicadeza na hora de cobrar o pagamento”, escreveu o New York Times em uma matéria investigativa sobre o porto publicada ano passado.

O segundo projeto é a Cidade Internacional Financeira de Colombo, um ambicioso novo centro urbano que — como contamos nesta reportagem do China Dialogue — o governo de Sri Lanka descreve como “sua própria Hong Kong” e que consiste em um centro financeiro regional que possa rivalizar com Dubai e Singapura.

O megaprojeto, que dobraria a população de 700 mil habitantes da capital do Sri Lanka até o fim de 2041, requer um investimento estrangeiro direto estimado em 1,4 trilhões de dólares, e tem tanta relevância política que o presidente chinês, Xi Jinping, esteve presente no início das obras.

O fato de o projeto estar sendo construído em um aterro acima do Oceano Índico gerou preocupação entre ambientalistas e pescadores pelo risco de as operações de dragagem em grande escala causarem erosão costeira e diminuição nos estoques de pesca. O atual primeiro-ministro, Ranil Wickremesingh, fez campanha contra o projeto e o suspendeu durante cinco meses, antes de mudar o nome da iniciativa e dar seguimento à construção.

A CHEC também está construindo uma das quatro seções da Southern Expressway, autopista que unirá Hambantota à capital Colombo, com um crédito preferencial do Eximbank chinês.

O escândalo do metrô de Xian

Embora a sócia minoritária Xi’an Metro Company tenha operado principalmente na China, a empresa também não está livre de controvérsias.

Em março de 2017 a empresa foi alvo de um escândalo após um indivíduo denunciar na internet que a construtora estava utilizando cabos de qualidade inferior à regulamentada em suas obras. Os cabos seriam vendidos pela empresa Shaanxi Aokai Cable Company, onde trabalharia o informante que divulgou a irregularidade.

Como resultado, vários diretores da empresa e provedores de cabos foram punidos, incluindo um alto executivo, Chen Dongshan, condenado a dez anos de prisão por ter recebido um suborno de 5 milhões de yuanes (700 mil dólares).

A sentença também sugeriu que Chen teria se aproveitado de sua posição como líder da empresa para receber, entre 2008 e 2013, subornos que somavam 44 milhões de yuanes (6 milhões de dólares), 50 mil euros, dois relógios e uma obra de caligrafia chinesa, todos vinculados à construção do metrô de Xian. O representante legal da empresa provedora Shaanxi Aokai Cable foi condenado à prisão perpétua.

As ganhadoras não foram as únicas empresas chinesas em licitação. Um dos três consórcios que não chegou à última fase incluía a empresa Power China International Group Limited, e um dos que ficou na primeira fase era liderado pela China Railway Group Limited, incluída pelo Banco Mundial na lista de empresas punidas em setembro deste ano, devido a práticas fraudulentas detectadas nas hidroelétricas de Dasu, no Paquistão.

O anúncio do consórcio ganhador também significa uma mudança: por muitos anos a China investiu pouco na Colômbia, algo que muda drasticamente com a concessão da maior obra de infraestrutura do país.