Coronavírus reestrutura Iniciativa Cinturão e Rota na América Latina

Projetos de infraestrutura financiados pela China desaceleraram, mas novas oportunidades surgem no setor de saúde e tecnologia

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O presidente chileno Sebastián Piñera com o colega chinês Xi Jinping no segundo Fórum do Cinturão e Rota em abril de 2019. Desde então, o coronavírus lançou incerteza sobre a iniciativa na América Latina (imagem: Alamy)

Os distúrbios causados pela pandemia do coronavírus trouxeram consequências negativas para a Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), o emblemático programa internacional de investimentos e infraestrutura da China. É provável que a natureza, a dinâmica e a abrangência do programa sofram mudanças na América Latina, tanto no curto como no longo prazo.

Muitos projetos que são subsidiados pela China e fazem parte da ICR acabaram sendo freados em toda a região, uma vez que a Covid-19 afetou o setor de fabricação, as cadeias de suprimentos e a movimentação de pessoas e produtos. Muitos países estão em lockdown há meses e apenas as atividades consideradas essenciais têm autorização para funcionar.

Houve um menor número de projetos chineses de infraestrutura na América Latina este ano e nenhum país novo assinou o acordo da ICR. Por outro lado, os países que já tinham assinado o acordo manifestaram preocupação a respeito dos pagamentos das dívidas com a China, uma vez que suas economias passam por grandes dificuldades.

“A China foi obrigada a transformar a iniciativa, portanto estamos entrando em uma nova fase da ICR na América Latina”, disse Ricardo Barrios, analista do Grupo de Consultoria RWR. “A China tem menos dinheiro para emprestar e está sendo mais seletiva na forma como emprega seus recursos. Ao mesmo tempo, o país precisa lidar com seus próprios problemas econômicos internos”.

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Países da América Latina e Caribe assinaram acordos de cooperação ICR

Lançada em 2013, a ICR pretende reestabelecer a antiga Rota da Seda e outras rotas de comércio por via marítima, além de criar relacionamentos e reforçar a cooperação econômica e política entre os países e regiões participantes. Os países latino-americanos começaram a se integrar à iniciativa em 2017 e, até o momento, 19 países já assinaram o acordo.

Em apenas uma década, o comércio entre a China e a América Latina aumentou em mais de 20 vezes. Centenas de acordos foram assinados e dezenas de novos projetos foram realizados em setores-chave – como energia, transporte e infraestrutura – em locais estratégicos. A região latino-americana foi descrita por diplomatas como uma “extensão natural” da ICR.

“O coronavírus mudou muita coisa, tanto para a China como para a América Latina. Todos estão preocupados com o vírus, então a ICR não é uma prioridade no momento”, disse Pepe Zhang, diretor adjunto do Centro Adrienne Arsht para a América Latina do Atlantic Council. “Atualmente, a iniciativa está em segundo plano”.

Sonhos e aspirações além da ICR

Para os países latino-americanos que deram o “sim” para a iniciativa e estreitaram os laços com a China, a promessa era de mais financiamentos para o seu setor de energia, bem como para estradas e portos, entre outros benefícios. No entanto, até o momento, não é bem isso que tem acontecido, e os investimentos chineses diminuíram nos últimos anos.

Segundo Margaret Myers, diretora do Programa para a Ásia e América Latina do Diálogo Interamericano, além de um relacionamento mais próximo com a China, os benefícios da iniciativa não estão tão claros assim. Ela citou algumas exceções, como a Bolívia, cujas exportações tiveram acesso facilitado ao mercado chinês.

“[A ICR] é uma ferramenta que a China usa para demonstrar seu compromisso com o desenvolvimento e o crescimento de um país específico. Se um país assina a ICR, a China vê isso como um gesto simbólico muito importante, principalmente agora que a iniciativa está sendo desafiada pelos Estados Unidos e outros países desenvolvidos”, explicou ela.

A Argentina, o Brasil, a Colômbia e o México são as quatro maiores economias da América Latina e, juntos, esses países respondem por 70% do PIB da região. Nenhum deles assinou um acordo da ICR até o momento, o que revela que a iniciativa ainda gera dúvidas. Apesar disso, a recente mudança no governo da Argentina significa que o país pode ser o primeiro da região a assinar.

Para os países ao longo do Cinturão e Rota, a principal tarefa é controlar o impacto do BRI na dívida pública

De qualquer modo, todas essas nações mantêm acordos de cooperação bilateral com a China e recebem projetos de infraestrutura chinesa. Isso gerou algumas interrogações sobre quais projetos poderiam ser classificados como projetos da ICR. Recentemente, a China vem tentando esclarecer isso com diretrizes e documentos oficias.

“Nem mesmo a China sabe o quê, exatamente, é a ICR. Muitos projetos que já existiam antes dessa iniciativa estão sendo enquadrados dentro dela”, disse Álvaro Méndez, cofundador da Unidade do Sul Global da LSE. “A América Latina ainda está lutando para entender do que a iniciativa realmente se trata. Os formuladores de políticas da região a confundem com outras coisas”.

Para a América Latina, os riscos sociais e ambientais ainda figuram alto na lista de preocupações relacionadas à ICR. Vários projetos chineses na região – muitos deles rotulados como projetos da ICR – já foram questionados por ONGs por violarem os direitos humanos e descumprirem diretrizes ambientais.

Mas esse não é o único problema. Países como a Venezuela e o Equador pegaram muito dinheiro emprestado da China nos últimos anos e agora têm uma relação dívida/PIB bastante alta. Ao que tudo indica, o pagamento dessas dívidas será difícil devido à crise econômica que foi exacerbada pela pandemia.

No mês passado, a China revelou que estava buscando formas de aliviar a dívida dos países em desenvolvimento, principalmente os da África, através da iniciativa para suspensão de dívidas do G20. No entanto, até o momento, não houve anúncios que contemplassem a América Latina, mas o cenário mais provável é o de uma maior flexibilização dos pagamentos de juros e dos prazos, dizem os especialistas.

“A China provavelmente será flexível com a dívida da América Latina, mas isso não significa que o país esquecerá a dívida”, explicou Barrios. “A China não pode ter as mesmas expectativas que tinha antes da pandemia. Demonstrar flexibilidade é uma forma eficaz de promover boa vontade na região, mas cada caso é um caso.”

Enquanto isso, os financiamentos continuam. A empresa estatal Petroecuador está analisando se deve assinar um novo acordo de cinco anos com a China para exportar petróleo. Em troca, receberia um financiamento estatal chinês de 2,4 bilhões de dólares, entre junho e outubro de 2020. Parte desse valor – de 300 milhões a 400 milhões de dólares – seria usado para saldar parte da dívida do Equador com a China.

Novas áreas de cooperação

O foco atual da China está, em grande parte, na sua própria recuperação econômica, portanto o país não tem planos de investir em infraestrutura de grande porte ou em projetos de energia em países latino-americanos que fazem parte da ICR, pelo menos no curto prazo.

Ainda assim, a pandemia abre novos horizontes de oportunidade para a iniciativa em toda a região, principalmente na chamada Rota da Seda da Saúde (“Health Silk Road” - HSR) e na Rota da Seda Digital (”Digital Silk Road” - DSR) – ambas áreas com tremendo potencial para o futuro, segundo os especialistas.

A Rota da Seda da Saúde vive o seu momento mais dinâmico desde o início do surto de coronavírus. Muitos países da região receberam doações ou compraram equipamentos médico-hospitalares da China. A Rota da Seda Digital também vem crescendo durante a pandemia, uma vez que vários países estão usando soluções digitais inspiradas nas soluções da China para combater a Covid-19.

As empresas chinesas que já estão bem estabelecidas na ICR – como Huawei, Alibaba e Tencent – podem descobrir que a América Latina é o lugar perfeito para expandir suas atividades. Isso também pode ser o caso do setor de tecnologia médica da China.

Para a América Latina, uma área interessante será a da implantação da tecnologia 5G. Das cinco empresas do mundo que oferecem o sistema de telecomunicações completo 5G, dois são da China – ZTE e Huawei. Nos últimos anos, a Huawei expandiu a sua presença em toda a região.

“A China é líder no fornecimento de equipamentos e tecnologias de telecomunicações e está tentando posicionar suas empresas no mercado internacional”, afirmou Myers. “Essa é uma indústria crítica para a China que recebeu inclusive ajuda do governo. Há empresas dispostas a investir internacionalmente neste setor”.

De forma geral, a pandemia forçou uma pequena pausa e isso representa uma oportunidade de refletir sobre como melhorar a ICR, escreveu o pesquisador chinês Xianbai Ji em um artigo recente. Podemos pensar em novas formas de financiar projetos que vão além dos empréstimos concedidos por bancos de investimento e bancos estatais comerciais da China, bem como discutir questões relacionadas às dívidas.

“O principal desafio dos países que estão na ICR é controlar o impacto da iniciativa na sua dívida pública”, argumentou ele. “Os países precisam formular estratégias especiais de infraestrutura para esclarecer o papel da ICR nos seus planos nacionais de desenvolvimento social e econômico de longo prazo”.